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sábado, 11 de outubro de 2014

Sobre a psicanálise e a diferença


Às vezes é difícil acreditar que a psicanálise surgiu com um esforço de Freud de apresentar ao mundo científico um pensamento diferente do vigente, um modo original de compreender o mundo e o homem.
As instituições de formação e as produções psicanalíticas foram colonizadas de tal maneira que atualmente ter afinidade ou simplesmente querer estudar autores que não são os "portadores da verdade" é visto como uma tolice, uma bobagem.
De repente, trabalhar a partir de autores-pilares da psicanálise é mal visto, é deselegante, é motivo de desprezo e descaso.
Só há uma psicanálise possível, o resto é resistência e dificuldade de entender "aquele com o qual não se discute".
A impossibilidade de discutir é uma tendência tão arraigada que parece consenso até mesmo entre professores, pensadores (?) que participam da formação de outros profissionais.
Recentemente presenciei duas cenas que na minha opinião deixariam Freud extremamente insatisfeito: numa delas um professor orientou um aluno a não tentar transitar entre duas teorias, a "ficar só em uma delas", pois elas não podiam ser comparadas.Tal recomendação veio acompanhada da alegação de que tal aluno "não conhecia realmente uma das teorias", já que ele não se considerava um filiado àquela corrente de pensamento. 
Na outra cena, num espaço de formação psicanalítica, uma pessoa demonstrava claramente seu profundo desinteresse pelo que estava sendo transmitido, simplesmente porque aquelas ideias não faziam parte da psicanálise que ela considerava "legítima". 
É perceptível como a recusa em saber pode perpassar tanto a posição de ensinar quanto a de aprender, num movimento de fechamento de uma teoria sobre si mesma, e de desqualificação completa daquilo que desta difere.
Não me identifico com essa "psicanálise de maçonaria", na qual apenas os iniciados compreendem o que está sendo dito e têm direito de fazer críticas.
Não reconheço nesse movimento de negação de outras teorias a postura freudiana, já que ela sempre foi a de abrir espaço para o pensar a partir de novos elementos, de dialogar com outras áreas, outros autores. 
E muito menos acredito que esse tipo de postura combina com uma forma de ver o mundo que sempre partiu e valorizou a diferença.

Se um pensamento só pode ser discutido por aqueles que o aceitam, ele deve ser chamado de religião, ao invés de ciência.
Se um pensamento é imposto como o único que detém a verdade, ele deve ser chamado de totalitarismo, ao invés de teoria.

E finalmente, é preciso lembrar que a psicanálise é, essencialmente, um modo de pensar que se propõe a aliviar o sofrimento humano a partir da escuta e do reconhecimento deste em suas singularidades e DIFERENÇAS.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Boa parte da literatura

Foi você que me apresentou boa parte da literatura que mais me agrada hoje. Li muita coisa através dos seus olhos. Dos grifos nos livros, seus comentários, suas análises dramáticas. Aprendi o seu sotaque para ler um livro.
De um, em especial, me lembro com detalhes. Era um livro excelente, sobre uma história terrível. Não sei se você se lembra... mas era triste, amargo, basicamente um caso de amor não correspondido. Há vários tipos de amor não correspondido, formas que vão muito além do amor romântico entre homem e mulher.
Naquele livro, o sentimento engasgado e escrito com tanta crueza me impressionou muito. Aquela história me marcou, porque eu acho que acabei me apaixonando pelo personagem errado. Pelo cara escroto que transformava um não numa infinidade de torturas e desgraça para quem estava à sua volta.
Mas a ideia não era essa, eu acho. Talvez a ideia fosse eu me identificar com as vítimas do cara escroto, me apiedar delas, e ficar pensando em como evitar lidar com pessoas daquele tipo. Essa era a sua ideia, acho.
A minha ideia era diferente. O que eu sentia era outra coisa. Frequentemente, no meio da leitura, era invadida por uma enorme vontade de abraçar aquele cara escroto, de dizer que eu entendia que a vida era pior, muito pior do que a gente merecia e esperava. Sentia um impulso de me misturar e me afastar daquela sujeira toda ao mesmo tempo. A minha ideia era errada?
O que eu escrevi depois, sobre o livro, você disse gostar. Fez aqueles elogios de sempre, deu aquele apoio de sempre. Aquele seu jeito de ler as palavras dos outros mais com os seus olhos do que com os deles. E depois você disse gostar também de muitas outras coisas que escrevi. Muitas outras coisas que eu pensava, lia e dizia, e você elogiava por me achar o máximo. Mas eram todas coisas contaminadas pelos seus olhos, pelo seu jeito de ler. Pelo seu sotaque.
O que eu só entendi agora, é que apesar de todas as lisonjas, mesmo depois de me ler tanto, você não entendeu o que estava escrito em mim desde o início. O meu texto, as minhas ideias eram sobre o cara errado. Você nunca abandonou o seu sotaque e leu tudo espelhado: inverteu frases e palavras.
O que eu queria dizer não era sobre as vítimas não. Era sobre ele, o cara que precisou daquele abraço que nunca veio.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os monstros que amamos







A figura do monstro sempre foi muito presente no imaginário coletivo. Desde os deuses mais cruéis da mitologia grega, até os vilões das histórias em quadrinhos, passando pelos personagens mais assustadores do cinema, sempre há um lugar reservado para o estranho, o terrível, o mal. É fácil lembrar de alguns personagens que se tornaram referência daquilo que consideramos odiável, horrível: o canibal Hannibal Lecter, de O silêncio dos inocentes; o assustador Jason Vorhees de Sexta-feira 13; o espírito que transforma a doce Regan MacNeil em um verdadeiro diabo em O exorcista; e o sádico Alex DeLarge em Laranja Mecânica. 

Durante a pesquisa de mestrado, encarreguei-me de analisar outro monstro, por assim dizer, tão interessante quanto estes, mas na época ainda pouco conhecido: Dexter Morgan, do seriado Dexter. O que mais me chamou atenção no programa policialesco foi o caráter sedutor com que o serial killer era retratado. Dexter é bonito, inteligente e perspicaz, o que não é exatamente uma novidade no rol da vilania, mas ele é capaz de operar algo que poucos monstros o são: despertar nossa identificação e nossa compaixão. Não por acaso, o seriado foi um enorme sucesso e chegou a oito temporadas. Mas o que faz com que pessoas "normais", que não saem por aí matando o vizinho irritante ou esquartejando o desagradável colega de trabalho gostem tanto de um sujeito como Dexter?

Para entender esse ponto é preciso pensar num mecanismo psíquico poderosíssimo: a identificação. É através dele que buscamos compreender quase tudo e todos ao nosso redor. Para descomplicar, dito em linguagem de feira, podemos afirmar que comparando-nos aos outros, percebendo traços parecidos com os nossos, ficamos psicologicamente mais próximos a eles. Aquilo que nos parece semelhante é mais facilmente assimilável, e portanto, mais aceito. Pois bem, os escritores de Dexter devem ter feito um curso intensivo de metapsicologia kleiniana  (teórica da psicanálise que mais trabalhou a questão da identificação), pois acertaram em cheio a dosagem do recurso na trama do seriado. Para começar, logo na abertura Dexter já nos mostra o personagem em situações cotidianas: escovando os dentes, tomando o café-da-manhã, se vestindo para trabalhar. Nada de cenas muito escalafobéticas ou comportamentos excêntricos: o que vemos é um homem comum, em sua rotina entediante, como a de todos nós. Obviamente as cenas carregam certa duplicidade, deixam entrever algo estranho ali, por trás daquele sujeito aparentemente normal. Mas isso depois que já fisgou o telespectador pela identificação. A gente já se sente na pele do vilão, e não na da vítima. Outro mérito que o seriado tem, e que foi definitivo para que eu quisesse trabalhar a partir dele na minha análise psicanalítica da perversão, é o fato de mostrar uma história de vida do monstro. Ou seja, mais do que ter contato com os crimes e atos terríveis do vilão, temos a oportunidade de entender, através de seu passado, como ele se tornou o que é. Ora, é o presente que qualquer psicanalista bizarro o suficiente para estudar esse assunto pediu a Freud! 

Não vou me alongar na análise de Dexter, pois o objetivo deste texto é outro, e além do mais, ele já foi suficientemente esmiuçado na dissertação, que acabou virando livro depois. Para quem se interessar, está disponível para compra na Amazon, sob o título de Repetição e angústia: origens da perversão.

Citei Dexter apenas para falar deste sentimento ambivalente que muitas vezes nutrimos por estas figuras emblemáticas que representam o mal. Muitas vezes elas nos amedrontam, mas também nos seduzem, haja visto a quantidade de produções literárias e cinematográficas sobre o tema. Há um ponto interessante nessa história que gostaria de ressaltar: tais monstros nos cativam tanto mais se mostram como velhos conhecidos. É como se assim pudéssemos projetar ali, naquelas figuras, algo de nosso próprio mal, de nossa vilania reprimida, daquilo de terrível que não temos estômago para reconhecer em nós mesmos. E não é raro que os vilões sejam  amigos, parentes, pessoas próximas aos mocinhos, às vezes até mesmo a mesma pessoa, como no livro de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro). O que dizer ainda do romance de Mary Shelley, no qual o Dr. Frankenstein se horroriza com o resultado de sua tentativa de criar alguém como ele mesmo? Muitas vezes os monstros nada mais são do que as partes que expulsamos de nós. 

Recentemente comecei uma nova pesquisa, desta vez no doutorado, na qual pretendo analisar toda essa temática da maldade e da perversão num contexto mais amplo, pensando no cenário das relações sociais. Meu material de base será estudar grandes fenômenos de perversão compartilhada, como nos regimes totalitários do séc. XX, ou nas relações de exploração e violência que se apresentam atualmente, entre as classes sociais. Para me embrenhar de vez nessa empreitada, vali-me de uma pensadora importantíssima e indispensável quando o assunto é o mal: Hannah Arendt. Além de todo o talento intelectual que possuía, Arendt foi uma mulher corajosa o suficiente para expor suas ideias mais controversas nos momentos mais desfavoráveis a elas. Na década de 60, erradicada há anos nos EUA depois de fugir do regime nazista na Europa, Arendt se oferece para cobrir o julgamento de um dos prisioneiros mais odiados da Segunda Guerra Mundial: Adolf Eichmann. Funcionário do alto escalão do partido nazista, Eichmann foi o responsável pelo transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio na Alemanha e países vizinhos. Preso na Argentina, foi levado para Israel e acusado de crime contra a humanidade, pelo assassinato de milhões de pessoas, ao que se declarou inocente. A despeito do clima de exaltação e vingança, e até do fato de ser ela própria judia, Arendt se recusa a enxergar em Eichmann o demônio que todos vêem. Para ela, o acusado não passa de um medíocre burocrata que só cuidava de fazer seu trabalho da melhor forma possível, sem se importar que este trabalho fosse conduzir homens, mulheres e crianças à morte. 

Mas por que falamos de líderes nazistas, vilões de cinema e seriados sobre assassinos em série? Qual é a linha que liga a realidade monstruosa à ficção dos monstros? Insisto nos conceitos de identificação e de projeção, pois são tentativas de nos exorcizar do mal atribuindo-o ao outro, negando nossa própria crueldade, nossa própria maldade. Há também estes movimentos de recuperação do mal defletido através das artes, da ficção: talvez seja somente neste espaço lúdico da mentira verdadeira que possamos assumir - rapidamente, disfarçadamente - que também somos monstros, somos tóxicos, somos ruins em alguma medida. Sim, Hannah Arendt tinha razão: Eichmann não foi o grande vilão, a maldade estava em todos aqueles que participavam do horror do nazismo.  



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fracasso monumental


Em seu ensaio sobre Victor Hugo e Os miseráveis (A tentação do impossível, Ed. Alfaguara), Vargas Llosa diz que o autor começou a escrever seu oceânico romance logo após interromper uma peça teatral (Les Jumeaux, ou Os gêmeos) que o ocupara nos últimos tempos, e pouco depois de amargar os dissabores de outra peça, Les Burgraves, que fora um total e completo fracasso de público e de crítica. Vejamos a nota de rodapé que Llosa dedica ao fato: 

"Esta obra (Les Burgraves), estreada em 7 de março de 1843 na Comédie Française, só teve 36 apresentações e foi a que menos dinheiro rendeu ao seu autor. O público ria de certos versos, a crítica foi sarcástica, e humoristas e caricaturistas se esbaldaram com ela. Victor Hugo nunca mais voltou a escrever teatro."

Ao longo do texto, Llosa afirma que o romance Os miseráveis "nasce quando Victor Hugo ainda não havia superado totalmente sua etapa de autor dramático, e é plausível, de fato, que a concepção e as técnicas do gênero tenham se transposto disfarçadamente para a ficção que escrevia, imprimindo-lhe desde o primeiro momento uma natureza teatral. " (Vargas Llosa, M. A tentação do impossível: Victor Hugo e Os miseráveis, p. 92). 

Algumas décadas depois, em 1897, as correspondências trocadas entre Freud e Fliess demonstram também a influência de um grande fracasso na criação de uma teoria importantíssima, que influenciaria o pensamento ocidental e a nossa concepção sobre a mente humana. Trata-se da famosa revelação do pai da psicanálise ao seu amigo e confidente de que "não acredita mais em sua neurótica", ou seja, de que não pensa que as causas que atribuía à neurose sejam verdadeiras. Tal confissão nada mais é do que um desabafo da frustração de Freud diante de suas dificuldades teóricas, técnicas e financeiras, como nos informa Jacqueline Lanouziere no seguinte trecho:

"Compreende-se então, que o que está no topo de sua argumentação é sua prática. Sua neurótica [a ideia que tinha sobre a neurose] não lhe permitia conduzir as análises ao verdadeiro término, e afugentava a clientela. Em 3 de janeiro de 1897, Freud conta a Fliess que não tinha notícias de um paciente que havia retornado a seu país para obter informações a respeito de sua sedutora, ainda viva. E no dia 16 de maio do mesmo ano, ele anuncia a partida prematura de outro paciente: 'Meu banqueiro, aquele dentre os meus pacientes cuja análise mais tinha avançado, escapou-me num momento decisivo, embora tenha chegado a me revelar as cenas finais. Sofri uma grande perda material, e estou convencido de que não sei ainda todos os passos de meu trabalho. Mas suportei isso com tranquilidade, dizendo a mim mesmo que deveria esperar ainda um longo tempo pelo desenlace completo de um tratamento. No entanto, isso deve ser possível, e eu aguardarei.' ” (Lanouziere, J. Histoire secrète de la seduction sous le regne de Freud, Presses Universitaires France. Tradução nossa.)

 Estas dúvidas a respeito da etiologia da neurose causaram em Freud uma verdadeira desorientação, fazendo com que questionasse a fundo as bases de seu pensamento. Sabemos que tais aflições culminaram no abandono da "Teoria da Sedução", e na concepção de realidade psíquica que foi tão cara à psicanálise. 

Mas não deixemos que o sucesso posterior inebrie nossos sentidos e nos faça dar pouca importância a este momento de desespero: as palavras de Freud deixam claro que ele estava tão perdido que já não conseguia avaliar com nitidez como deveria conduzir os tratamentos, qual era a melhor forma de fazer o seu trabalho. Além disso, ele nos brinda com a magnífica imagem de um banqueiro que vai-se embora, símbolo perfeito da erosão intelectual, narcísica e financeira que atinge um analista quando seus esforços se revelam ineficazes.

Por que, então, ler Freud com Victor Hugo (ou vice-versa)? Porque ambos nos deram (mesmo nos bastidores) exemplos de estrondosas quedas ou faltas de êxito que, por mais que abalassem seus espíritos criativos, não foram aceitas como um destino, mas "requentadas", aproveitadas futuramente. É importante atentar para esse detalhe: não é apenas uma lição à la auto-ajuda, de que é necessário persistir. Trata-se aqui da possibilidade de retirar dessa experiência negativa algum material que poderá compor outros arranjos, de modo diferente - ou até disfarçado - e que faça com que estes sejam, por sua vez, aceitos e apreciados. 

É como Victor Hugo enxertando teatro em seu romance. Como Freud teorizando num movimento espiral que ora considera a Teoria da Sedução, ora a renega. Disso tudo talvez possamos concluir que o fracasso é parte fundamental do sucesso. 

Ah, se tivéssemos essa habilidade... esse dom de transformar o erro em lucro...








terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A gosto



Nos conhecemos numa pizzaria, por acaso, depois de uma peça de teatro. 
Alguns meses depois, marcamos de nos encontrar para jantar. Eu fiquei responsável pela sobremesa, mas como andava enlouquecida com a tradução de um texto, acabei optando pela praticidade e levando cerejas em calda e sorvete de chocolate. 
Quando cheguei em sua casa, me perguntou: "O que você gostaria de jantar?". Meio sem jeito, disse que podia ser o que ele achasse melhor, e depois emendei um "o que for mais fácil...".
"O mais fácil nem sempre é o melhor", respondeu tirando várias coisas da geladeira.
Quase uma hora mais tarde, depois de um pouco de vinho e uma boa conversa na beira do fogão, serviu uma divina batata suíça recheada com camarão e gorgonzola, combinando, sem saber, dois dos ingredientes de que mais gosto.
No dia seguinte, enquanto eu ainda dormia, preparou-me uma caneca de café com leite e uma tigela de cereais com banana. Embora não sejam coisas que costumo comer no café da manhã, a delicadeza da mesa arrumada deixou tudo mais gostoso.
Nos finais de semana seguintes continuei a frequentar sua cozinha e a descobrir novos sabores em  massas, risotos, saladas, peixes, e até tapiocas. Tinha uma horta em casa, e quando sentíamos fome durante a noite ele preparava deliciosos sanduíches com folhas frescas.
Com o passar do tempo notei que eu, que sempre gostei de me aventurar na cozinha, nunca tinha lhe servido nada. Claro que fazia questão de ajudá-lo na preparação dos pratos, mas nunca fizera nada sozinha, nem tomava a iniciativa de cozinhar.
Embora tenha estranhado aquela inibição, respeitei meu tempo. Continuei em meu posto de "sous-chef": picava os legumes, tirava e guardava alimentos na geladeira, arrumava a mesa, lavava os pratos.
Só bastante tempo depois pude entender o que se passava. Foi num dia em que estava assistindo televisão e ele me trouxe camarão (sempre camarão!) frito, e carinhosamente colocou na minha boca, assim como os namorados fazem. Percebi então que não deixava de cozinhar por insegurança ou por preguiça, mas por não querer abrir mão daquela cena toda, da impressão de ser ternamente cuidada, como eu não era há tanto tempo.
E de repente me lembrei de que estava em dívida desde o primeiro jantar. Levantei do sofá e fui preparar a sobremesa.

* Recentemente uma amiga me presenteou com O livro neurótico de receitas, da professora Ana Cecília Carvalho. Fiquei encantada com a leveza do texto, que combina de forma muito bem humorada receitas e histórias de culinária com conceitos psicanalíticos. Indico a leitura para quem deseja temperar a sua vida. (Carvalho, Ana Cecília. O livro neurótico de receitas. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2012.)


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Não querer saber

Um dos mecanismos psíquicos comuns na perversão é o que Freud chamou de Verleungnung, e que poderíamos traduzir por recusa. Com esse termo, Freud pretendia diferenciar a perversão - como organização psíquica - da neurose e da psicose. De modo simplificado, poderíamos dizer que, diante de um conflito, o neurótico abre mão de um desejo para se adequar às normas sociais. Por outro lado, o psicótico sacrifica a própria realidade para manter sua fantasia, ou seja, desprende-se dos limites do mundo externo, da realidade compartilhada socialmente, a fim de preservar seus desejos internos. Cabe aqui uma observação, de que estamos falando de fantasias e desejos inconscientes, e portanto em grande parte desconhecidos de seus próprios autores.

Neste panorama que considera a ligação do sujeito com a realidade externa, podemos pensar que a perversão seria algo como permanecer no meio dos dois caminhos acima citados. Não romper com a realidade, embarcando num delírio psicótico, mas também não abrir mão de certos desejos que o sujeito sabe serem inconciliáveis com a nossa cultura. Octave Mannonni (1973) usou uma expressão interessante para definir esse aspecto: "Eu sei, mas mesmo assim..." Mas o que ele sabe, o perverso? Sabe, por exemplo, que na nossa sociedade, pedofilia é crime. Que alguns tipos de enlace amoroso e sexual são extremamente prejudiciais aos outros (relações sádicas, permeadas pela violência física e/ou psíquica), que certos comportamentos compulsivos podem colocá-lo em perigo (algumas práticas masoquistas, ou o abuso de certas substâncias). Sabe, e no entanto, prossegue. Sabe, mas diante da força pulsional que o impele a continuar, preferia não saber.

Desde 1905, com os Três Ensaios sobre a sexualidade, texto que não se esgota nunca, Freud nos advertira que os traços perversos não devem ser considerados apenas sinais de uma patologia, pois em alguma medida eles existem em todos nós. A sexualidade é perversa por excelência, já que não se reduz ao que é classificado como normal. Recentemente, alguns comentários de Robert Stoller a respeito da perversão me pareceram bastante pertinentes, pois tentam resgatar essa aproximação entre o normal e o patológico, entre o psiquismo neurótico e o perverso.

Um ponto, em especial, chamou minha atenção: o papel do risco e a luta contra o tédio na perversão. De acordo com Stoller (1975), o risco é extremamente importante na dinâmica perversa, pois é ele que mantém a excitação sexual. É como se o perverso precisasse manter certo nível de perigo em seu horizonte para que a satisfação sexual ocorra. Se pensarmos rapidamente em alguns exemplos de perversão (sadismo, masoquismo, fetichismo, voyerismo, exibicionismo...), logo perceberemos que tal premissa faz sentido. Entretanto, é necessário compreender que a erotização do risco advém justamente da angústia e do medo de vivenciar o tédio, de experimentar um estado de "anestesia psíquica", ou seja, certa ausência de sensações. Por temer cair numa existência banal e apática o perverso tenta provocar respostas afetivas extremas, tanto em si mesmo, quanto nos outros.

Outro fator de excitação, segundo Stoller, é a novidade. Aquilo que é conhecido, compreendido, traduzido demais se torna entediante e descartável para o perverso. Apesar de sua prática repetitiva, de seus padrões fixos de satisfação sexual, o perverso renova seu comportamento através do objeto, que geralmente é substituído em curtos intervalos de tempo. Estar diante de um novo objeto evoca no sujeito toda a excitação e o perigo de não saber muito sobre ele, de não saber como lidar com ele, de não saber como a situação acabará. Mas ao mesmo tempo, tal objeto faz com que se conserve a ilusão de que é possível inventar um outro roteiro, de que ele, o perverso, controlará a cena desta vez. De que não permanecerá do lado passivo, e sim do lado ativo da cena (veja bem, ainda que estejamos falando de um perverso masoquista, o ponto é a atividade, já que o masoquista também exige que o outro encarne um personagem na cena, se restrinja ao papel sádico). Deste modo, não saber é uma forma de manter a distância necessária entre sujeito e objeto, de permitir que o perverso se proteja da relação íntima e afetiva que poderia surgir do conhecimento mútuo, e que colocaria em xeque seu modus operandi. Em última instância, o contato significativo e profundo com os outros ameaça a existência do perverso, porque suas bases identitárias foram construídas em cima de seus comportamentos repetitivos. Para ele, deixar-se afetar pelos outros é se arriscar a perder a própria identidade.

Falamos de um tipo de psiquismo fragilmente arranjado como o do perverso, mas não devemos nos esquecer que várias dessas defesas também aparecem naqueles que não merecem esse termo como diagnóstico. Atualmente, nota-se em grande número de pessoas algumas formas perversas de estabelecer relações sociais. Uma delas é exatamente esse desejo de não saber, de não conhecer o outro intimamente. Uma recusa em decifrá-lo, mantendo-o sempre a uma distância segura o bastante para que não entre em contato com as partes mais assustadoras de si mesmo, com aquilo que se acredita ter de pior, de insuportável. Mas o que nem sempre se percebe nesses casos é que se a recusa impede que venha à tona todo o conteúdo destrutivo que o sujeito acredita possuir, ela bloqueia também outra parte significativa de sua personalidade, que poderia ser valorizada, analisada, trabalhada, aceita pelo outro... No fundo, não querer saber do outro é também, e principalmente, não querer saber desse potencial de si mesmo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Repetição e angústia: origens da perversão



Estudar a perversão era um desejo que eu tinha desde os tempos da graduação, e que foi primeiramente esboçado num texto que escrevi sobre o livro “O colecionador”, de John Fowles (não, não é o de ossos). Nessa história fictícia, o personagem principal é desvelado - pensando aqui no sentido de tirar o véu da moral e do distanciamento que a perversão provoca em nós - para além de seus atos criminosos, nos dando acesso a outras facetas de sua personalidade, como a insegurança, a solidão, e o sofrimento psíquico que advém da culpa. Esses elementos, conjugados com uma prática violenta – aprisionar e admirar até a morte tanto borboletas quanto mulheres – demonstram o refinamento do autor no processo de composição de seu personagem. 



Foi exatamente a idéia - ou a ilusão - de conhecer um perverso mais de perto, questionar seu comportamento, tentando encontrar, além de sua violência, um sentido, um fio encadeador em sua história, que me seduziu desde o início.

Seduzida, então, por um perverso, me vi às voltas com a difícil tarefa de identificar nele algo mais que a irracionalidade da violência, que a dificuldade de estabelecer laços, que a maldade pura e absoluta. Foi pensando nesse desafio que iniciei uma pesquisa de mestrado na UFMG, há três anos.

Apesar de algumas mudanças no que tange ao referencial teórico, e também à maneira de conduzir a reflexão sobre o tema, acredito que meu objetivo principal foi mantido e alcançado. Terminei por analisar um seriado de TV que conta a história de um assassino em série, privilegiando, nesta análise, os pontos traumáticos ocorridos durante sua infância e adolescência. Incluir esta parte prática e ilustrativa fez toda a diferença no produto final, pois isso me protegeu – pelo menos um pouco, acho – de uma escrita teórica maçante e desconectada com os fenômenos sociais, algo que eu sempre critiquei e temi.




Dexter – nome da série, e do personagem principal – me seduziu completamente, ainda mais que o rapaz das borboletas, e desta vez assumi esse afeto para usá-lo a meu favor. Foi então para entendê-lo, perdoá-lo, e resgatar parte dele que escrevi as cento e tantas páginas da minha dissertação. Tomando-o como paradigma dos protagonistas de atos violentos que parecem retalhar nossa capacidade de identificação, tentei salvar Dexter do julgamento apressado e da classificação imediata: monstruosidade.  



O livro que lanço em setembro - mas já está à venda na Amazon - é uma versão desse trabalho que realizei no mestrado. Traz um percurso teórico interessante sobre o tema no contexto da psicanálise, acompanhado do diálogo do caso Dexter com as idéias dos autores que li. São eles: Joyce McDougall, que faz contribuições bem originais sobre a perversão a partir de um referencial winnicotiano; René Roussillon e Claude Balier, que abordam as fragilidades narcísicas existentes nestas patologias que se exprimem através da violência; Gerard Bonnet, autor que trabalha a perversão a partir da lógica da sedução originária; e Jean Laplanche, cuja leitura é imprescindível quando se trata do polimorfismo da sexualidade. 

Em breve postarei mais informações sobre o lançamento. 

Para comprar o livro:

http://www.amazon.com/Repeticao-angustia-origens-perversao-Portuguese/dp/8581801110/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1374110439&sr=8-1&keywords=repeti%C3%A7%C3%A3o+e+ang%C3%BAstia

Ebook:

http://www.amazon.com/Repeti%C3%A7%C3%A3o-Ang%C3%BAstia-Pervers%C3%A3o-Portuguese-ebook/dp/B00DOJ50AO/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1374110439&sr=8-2&keywords=repeti%C3%A7%C3%A3o+e+ang%C3%BAstia


 

sábado, 11 de agosto de 2012

O novo e a sedução

Por que tendemos a transpor o raciocínio comercial para as relações amorosas? "Porque o ato de consumir talvez seja o que mais defina nosso estilo de vida atual" é uma resposta chavão. Não acho que esteja errada. Mas talvez falte alguma coisa nesse argumento. Quando compramos um produto, salvo se queremos economizar ou procuramos algo raro, esperamos que ele seja novo. E, portanto, que não tenha sido usado por ninguém.

Quando nos engajamos num relacionamento, muitas vezes essa expectativa também começa a nos inquietar. Ela pode vir disfarçada num pensamento de que "é preciso saber um pouco do tipo de relação que aquela pessoa manteve com outras, anteriormente, para ter uma ideia do modo como ela se comporta, do que é e do que não é capaz numa situação amorosa". Muito pouca verdade mora nessa justificativa, penso. Primeiro porque por mais que se conheça o passado de alguém, e seu estilo de vínculo, não significa que podemos prever como irá amar determinada pessoa. Cada relacionamento é único, e depende da interação entre todos os envolvidos. Segundo, porque me parece que o que queremos verificar, com essa curiosidade - mais ou menos como o parceiro que procura sinais de traição rezando para não encontrá-los -, é se e quantas vezes o outro amou antes de nós. Qual era a natureza daquele relacionamento? Como era o namoro? Ficavam sempre juntos, pareciam apaixonados, ou estavam mais para um casal desencontrado? Que tipo de sentimentos ele (a) despertava nela (ele), e vice-versa? Quais motivos os mantinham unidos?

 
Susanna e os velhos (1610), de Artemísia Gentileschi.

Ao contrário da postura altiva e orgulhosa que se costuma adotar, fingindo nada querer saber sobre o passado do objeto amoroso, todos nós, em algum momento, empreendemos uma pesquisa nesse sentido, ainda que muito sutilmente, com uma ou outra pergunta bem colocada, às pessoas certas. Buscamos, com essas investigações torturantes, ter a confirmação de que o (a) parceiro (a) NUNCA, em momento algum em sua vida, sentiu por alguém o que sente por nós.

Queremos uma relação nova, mas não só isso, queremos uma pessoa novinha em folha, zero quilômetro.

Queremos que ela tenha lá tido suas experiências no cenário afetivo - afinal, a inabilidade total para lidar com as tempestades amorosas também não é interessante -, mas não muitas. Ou melhor, não muito intensas. Não a ponto de preservar traços indeléveis de outro alguém, marcas profundas e permanentes de sensações e sentimentos vividos somente com aquela pessoa, naquele contexto, que não serão repetidos conosco.

Estou lendo e traduzindo esse texto da Jacqueline Lanouzière, Histoire secrète de la séduction sous le règne de Freud (1991, PUF), no qual ela faz um riquíssimo apanhado da ideia de sedução como agente etiológico do trauma psíquico. Como bem sabe todo psicanalista, a sedução conserva tanto um caráter traumático, quanto um potencial de subjetivação e de cura. É uma via de mão dupla, que depende muito mais da maneira como é exercida, do que por quem, e quando o é. No primeiro capítulo, a autora faz uma espécie de linha do tempo, mostrando os zigue-zagues freudianos em suas tentativas de encontrar um culpado para a histeria. O pai de uma moça histérica teria sido sedutor demais? Teria sexualizado além da conta a relação com a criança, gerando a patologia? Ou, na verdade, a verdadeira sedução teria sido a protagonizada pela mãe, que, nos primeiros cuidados íntimos com o bebê, erotiza seu corpo, inoculando ali formas muito particulares de amar e ser amado, que serão conservadas e reprisadas para sempre?


A esta pergunta Freud nunca respondeu. Talvez por não ter chegado, como diria Laplanche, a propor uma teoria mais abrangente da sedução. Ou talvez, penso eu, porque para essa pergunta não exista uma resposta definitiva. Quem foi o (a) sedutor (a) que mais nos marcou? Qual amor é/foi o mais importante? Quais as marcas que foram escritas em nossos corpos, e não poderão ser apagadas? Certamente nunca saberemos a respeito d'isso. Por mais que seja possível identificar momentos importantes, histórias que nortearam a construção da nossa, carinhos ou tapas que moldaram nosso jeito de amar, conhecer nossos grandes amores parece uma tarefa improvável, pois quanto mais se investiga e deseja saber, mais escapole de nossas mãos. Amamos mais quando não sabemos: nem como, nem por que.

Como exigir que o outro seja uma mercadoria nova, um produto sem traços e arranhões, se não conhecemos nem mesmo os nossos próprios defeitos de fábrica? Mais, ainda: como negar ao outro o direito a essas experiências amorosas prévias, se provavelmente foram elas mesmas que o trouxeram até nós?



terça-feira, 3 de julho de 2012

O bom samaritano

Em Dogville (2003) Lars von Trier nos angustia apresentando a história de Grace, uma mocinha bonita que será abusada, de todas as maneiras, durante o filme. No início, nossa reação automática é sentir pena desta personagem, pois nos identificamos à sua fragilidade - quando ela relata estar sendo perseguida por um gângster -, e à sua vontade de fazer o que for preciso para se manter na cidade.
Em oposição à piedade que sentimos nesse primeiro momento com a impressão de uma Grace à mercê dos perigos do mundo, começamos a formar outra opinião sobre esta figura. Na verdade, esta mulher aparentemente delicada é forte o suficiente para realizar tarefas pesadas que lhe são impostas: fazer todo o serviço doméstico, trabalhar no campo, servir sexualmente alguns senhores...
Grace faz tudo sem pestanejar. Não se revolta, não reage, e ainda parece justificar, com benevolência, os atos cruéis dos moradores da cidade, fato que nos causa ainda maior incômodo.



Gosto dessa frase do Lacan que nos adverte: "desconfie das ciladas da compaixão, daquilo que nos impede de fazer mal ao outro...", porque nos convida a ir além desta sensação de piedade ou de aflição que nos causam os bons samaritanos. Desconfiem, ele diz, querendo iluminar um outro aspecto da predisposição incansável de ajudar o outro. É dela que fala o tão temido gângster de Dogville, no desfecho do filme, que se revela, na verdade, o pai da personagem agredida. Ele diz que a filha sempre o acusara de ser um homem arrogante, mas que pensa que Grace é que merecia este adjetivo, pois ela não julgava o comportamento das outras pessoas por sentir pena delas. "Você tem esta ideia de que ninguém, de maneira alguma, pode chegar a ter os mesmos padrões éticos que você. Não consigo pensar em nada mais arrogante do que isso!".

Diante dos argumentos do pai, Grace passa a ver a cidade e seus moradores com outros olhos. Percebe que, ainda que as circunstâncias e as variáveis de suas vidas fossem levadas em conta, para seus padrões, os habitantes de Dogville não foram bons o bastante. Não fizeram tudo o que podiam. É nesse instante que há uma mudança na posição subjetiva da personagem: concluindo que poderiam se aproveitar da fraqueza de outra pessoa, assim como fizeram com ela, decide que seria melhor se aquelas pessoas não existissem mais. Pede ao pai que seus capangas metralhem todos os moradores.

Lars von Trier tem esse jeito meio fanático de contar as coisas. Essa forma asfixiante de nos levar a experimentar o insuportável para clarear elementos com os quais lidamos no cotidiano. Quem pode garantir que a bondade extrema, a gentileza inabalável, o desejo incessante de ajudar, não se ancoram, paradoxalmente, numa recusa de partilhar com o outro aquilo que se tem? Que fronteira separa o indulgente que acredita na recuperação do agressor, daquele que não agride por ter desistido de toda e qualquer mudança? Por ter se enclausurado, narcisicamente, na resignação de esperar sempre pouco do outro?

A cereja do bolo é a pergunta do pai de Grace quando esta afirma não querer deixar Dogville, mesmo com todos os percalços que tem enfrentado. 

- As pessoas que vivem aqui estão fazendo o melhor que podem, sob circunstâncias muito difíceis...
- Mas o melhor que elas podem fazer é bom o suficiente?


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

À la Pierre Weil

Eis que quando você se supera na hipocrisia ao contrário, dizendo pra si mesma que "tudo bem, isso não é uma questão para mim", seu corpo ri da sua cara.
Você constrói essa atitude de que não está sofrendo por alguma coisa, de que está tudo resolvido dentro do seu psiquismo, e de que "quando quiser, tudo vai acabar tomando seu devido lugar". E repete isso - internamente - com tanta convicção, que seu ego - que não é lá muito esperto - acaba por acreditar. Daí você leva sua vida normalmente. Quer dizer, em termos...
Porque aí vem a insônia e simplesmente se senta no seu colo. E não se levanta até a hora em que você precisa ir trabalhar. Aí, sim, ela sai de cena, e aparece um sono avassalador.
Isso é o seu corpo te chamando de idiota.
A falsidade que podemos impor a nós mesmos não costuma ter limites. Existem cenas clássicas, como a de sair com amigos e forçar a barra na alegria quando se está muito deprimido, ou a de manter um vínculo - seja ele qual for - com aquela pessoa que você já não suporta, mas tem medo de se perguntar por quê. Deste modo, impelida por essa força estranha, a pessoa pode se oferecer doses gigantescas de constrangimento, infelicidade, frustração, e alguns episódios de puro mau gosto quanto à estética da vida.
É por isso que eu admiro a raça, a bravura do corpo.
Você tá lá, toda blasé, olhando de lado, considerando cafona conversar sobre aquele assunto, e enquanto isso, a doença vem e se instala, chega com as malas e pega logo o melhor quarto.
Dá-lhe tosse, febre, dor e fadiga. Tudo bem, é só uma gripe.
Não é, meus queridos. Confiem em mim.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Situação e objeto


Quantas vezes não confundimos estes dois elementos. Uma pessoa importante se mescla à cidade na qual a conhecemos. Uma experiência prazerosa tinge de tons vibrantes um lugar apático. Uma relação de conforto e segurança tece os contornos de uma figura que, em si, pouco tem de especial.
Acredito que o afeto às vezes se propague deste modo: por contágio. Afinal, contagiar é próprio da afetividade. A alegria, a tristeza, a raiva, o humor são sensações partilháveis que podem afetar, causar um efeito no outro. Não é preciso ler Freud e sua Psicologia de Grupo para entender este tipo de atravessamento da excitação, que, vindo do campo externo toma o sujeito física e psiquicamente. Basta ir assistir o futebol no estádio, presenciar uma briga ou um fato muito marcante socialmente. As reações, os comentários, os desejos e as paixões do outro ecoam em nossas percepções, produzindo, por sua vez, reações, comentários e desejos em nós.




Lembro-me de algumas vezes em que participei de cerimônias religiosas e, apesar de admirar a estética litúrgica,  e a segurança que transparecia no semblante das pessoas, ter a clareza de não estar sentindo nada de diferente. Ouvindo o relato dos fiéis, seus agradecimentos e descrições de felicidade, alívio, confiança, esperança, questionei-me se por acaso não estaria deixando passar minha fé por não saber reconhecê-la. Pouco tempo levei para concluir que não sabia do que aquelas pessoas estavam falando, e que, por mais bonito e reconfortante que parecesse carregar tais certezas, eu não poderia fazê-lo. Pelo menos não sem ser desonesta comigo mesma.
Assumir que não nos sentimos tocados por algo que é extremamente importante e excitante a alguém que nos rodeia é de uma coragem nem sempre reconhecida e valorizada. Os adolescentes sabem perfeitamente do sofrimento solitário que pode atingir aquele que ousa exibir um gosto distinto do de sua turma. Isso porque a aceitação do outro e a decorrente confirmação identitária que ela acarreta são aspectos que buscamos, independente da fase do desenvolvimento psíquico que vivenciamos. Na idade adulta, estas necessidades de pertencimento e semelhança costumam assumir formas mais sutis, mais sublimadas, o que não quer dizer menos significativas. Certamente as relações de consumo permeiam estes nódulos, evocando em nós a vontade de adquirir certos bens que caracterizam aqueles nos quais queremos nos espelhar.


Creio que seria ingênuo falar aqui sobre certa "independência" de nossos desejos, pois estes são exatamente herdeiros do contato que travamos diariamente com o mundo externo. Não acredito num desejo genuíno, natural, próprio ao sujeito. O desejo, visto que de afeto, é afetável, afetado. Porém, uma reflexão sobre o que há de mais alienante (aqui no sentido de perder parte de si mesmo) neste desejo sempre é possível.

O quanto de nós vibra com a vitória do time favorito, ou se compadece com uma causa social, ou ama o parceiro que propicia bons momentos? O que é perdido, recusado, adormecido quando, no intercâmbio das sensações, cedemos aos apelos do grupo, da maioria, dos que nos amam ( e/ou que amamos)?



Ainda que não possuam respostas fechadas e definitivas, estas perguntas parecem apontar algumas possibilidades de viver, amar e desejar de forma mais singular, não se tratando de uma essência de si mesmo, mas de um modo criativo e único de organizar as interferências e invasões que nos constituem.

As imagens são artes de Nicoletta Ceccoli. 

sábado, 29 de outubro de 2011

Superego relax

Pode ver televisão.
Claro, depois do seriado você estuda.
Dorme um pouco mais, que o corpo ainda está cansado.
Tá atrasado, mas quem liga? Todo mundo pode esperar uns minutinhos.
E pra quê se poupar mais esse prazer gastronômico?

Coma o que quiser, o quanto quiser, quando quiser.
Saia, veja, pegue, compre.
Use mais, peça, tenha.

Amanhã é outro dia, poupar é pros fracos.
Ame, aceite, peça mais, e mais ainda.
Você merece.

Cobre dos outros, do mundo, é preciso mais.
Mais.
Mais.
Mais.
E mais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Não trabalho com

Eu não trabalho com alguns conceitos. Não trabalho com algumas possibilidades. Não trabalho, por exemplo, com a ideia de não comer chocolate.
"Cortei o açucar", disse-me outro dia um trintão.
Acho que nem quando eu tiver tipo, noventa anos, eu vou trabalhar com essa dieta.
No sugar, no gain, meu lema.
Outro dia eu li um blog, e a moça falava que não trabalha com voluptuosidade. Tá no direito dela.
Eu, no momento, não trabalho com denegação.
Fui explicar pra um lacaniano qual era a minha questão de mestrado. Perversão, McDougall, introjeção, identificação, Laplanche, primazia da alteridade, etc.
Ele pediu que eu explicasse como se pode pensar em perversão sem ter de falar em denegação e fetichismo.
Acho legítima sua pergunta. Entendo.
Mas, a questão é que eu não trabalho com a denegação agora.
Sei que existe, tá lá, sei as referências, tenho até as referências aqui em casa, na estante.
Mas é de uma simplicidade reconfortante isso do NÃO.
A escritora não quer saber de sensualidade.
Eu quero saber do meu açucar.
Minha dissertação quer saber da McDougall e do Laplanche.
O Lacan, a denegação, e o fetichismo eu não tenho trabalhado.

E é um jeito muito prático de aprofundar no meu tema de pesquisa, este de "não querer saber".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Spigui e Mme Cs

De acordo com a classificação do CID-10, nos episódios depressivos a pessoa "apresenta um rebaixamento do humor (sim), redução da energia (sim) e diminuição da atividade (sim). Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer (sim), perda de interesse (sim), diminuição da capacidade de concentração (sim), associadas em geral à fadiga importante (sim), mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono (sim) e diminuição do apetite (definitivamente não!). Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima (néam?!) e da autoconfiança e frequentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade (totalmente sim), mesmo nas formas leves."
A maioria destes ítens se apresenta hoje em meu estado de espírito. Mas outros também se agregam, mesmo que de forma efêmera, à inusitada colagem de afetos que me compõe agora. Entre eles, súbitas vontades de morar em lugares distantes, de nunca mais ver um rosto conhecido, e começar a vida do zero, de sair com o melhor vestido de festa e beber quantos Mojitos o corpo aguentar, de ficar deitada no sofá para todo o sempre, usando meus últimos reais para contratar o irmão mais novo para me trazer comida e água...
Entretanto, tais desejos radicais me dão as costas com a mesma intensidade com que brotam. Não duram nem o tempo necessário para que eu decida qual é o meu melhor vestido de festa...
No fim das contas, continuo de camisola, mudando de canal, verificando atualizações na net...
Eis que a consciência, meio bêbada ainda, acorda, cutuca revoltada o superego desleixado e flácido, berrando que uma dissertação de mestrado deve ser escrita imediatamente.
Posso ouvir seus gritinhos estridentes (sim, pois é uma magrela infeliz a minha consciência): "Onde ela pensa que vai chegar dessa maneira? Além de tudo, sabe há quanto tempo ela não faz ginástica? Acha que pode ficar comendo pizza depois dos 25?"
Com a complacência que lhe é característica, meu robusto superego afirma, cansado e revirando os olhos daquele jeito irônico que só eu mesma sei imitar: "Ora... mas o que quer que eu faça?? Mais pensamentos ruins do que os que eu tenho lhe enviado mente adentro é impossível!! E já usei de todos os recursos... pesadelos com monstros da infância, terrores noturnos, medos de abandono, fantasias de suplícios... nada parece funcionar! Já me sinto cansado, fraco... sinceramente, perdi o gás..."
A consciência retruca: "Eu te avisei! Avisei, avisei!! Desde o princípio te disse que acostumava essa menina muito mal! Todas aquelas concessões, aqueles caprichozinhos que concordava em deixá-la realizar, e tudo sem nenhum castigo! Só poderia dar nisso! Agora, me diga, como ficamos??"
Eu, penalizada pelo meu camarada supergo (que eu carinhosamente chamo de Spigui), e pelo esfrega que estava levando, tento dizer à cs que ele realmente tentara fazer um bom trabalho comigo, e tudo mais. Mas, como aqueles treinadores que amam seus atletas como se fossem filhos, não conseguia me punir verdadeiramente, já que cada repreensão acabava sendo tão doce quanto a própria subversão cometida.
Intolerante, mal educada, e de uma arrogância ímpar, a Senhora Cs me arrebita o nariz e afirma que se necessário fosse corrigiria os erros de Spigui com mãos de ferro. Que nunca em toda sua vida conhecera ser tão desmazelado, inconsequente, cuja  moral fosse tão questionável e a conduta tão tortuosa como eu, e que não mediria esforços para mudar tal situação, já que, se afundasse esta Comandante Sparrow, afundariam também ela e Spigui, o que jamais permitiria enquanto vivesse.
Até este momento, estava disposta a relevar sua agressividade e sua histeria, ignorando o ataque justiceiro da Senhora Cs, pois sabia que sem um aval do meu aliado ela não tinha muitos poderes. Entretanto, soltou uma última frase, entre dentes, com voz rouca e grave, que conferiu mais severidade ao que disse, que me fez mudar de idéia:
"Sem falar nestes quilinhos a mais...que lhe fazem perder até mesmo o charme das jovens desmioladas...".
Brutalmente ferida, humilhada pelo golpe baixo de Mme Cs, saí repentinamente de minha prostração e tomei a atitude mais enérgica que me foi possível no momento. Decretei, aos gritos e safanões, que não a queria mais morando sob o mesmo teto que eu. Ou melhor, que não a queria morando sob o meu teto, que arrumasse imediatamente suas coisas e partisse tão logo quanto possível! Que não mais toleraria este tipo de insulto torpe em minha própria mente, e que este acontecimento servisse de exemplo para todos os outros que ousassem me afrontar!
Orgulhosa até o fim, Senhora Cs não se rebaixou, não se desculpou nem voltou atrás. Fez as malas, partiu sem nem mesmo um suspiro mais longo que revelasse qualquer traço de pesar. Ainda que Spigui tenha tentado interceder a seu favor, não lhe dei ouvidos.
A velha se foi. Ficamos só eu e ele.
Meu velho amigo.
Nós dois e a calmaria.
Nada de gritos.
Sonharíamos juntos os mais belos pesadelos.
Faríamos nada por tardes, madrugadas, semanas a fio...
Perderíamos prazos, gastaríamos dinheiro de forma irresponsável.
Saborearíamos o pavor de não conseguir realizar as tarefas a tempo, de não estar à altura da expectativa alheia, de fracassar de forma magistral e definitiva.
Ah, como seria belo este estrago. Que liberdade pode se encontrar assim!!
Vislumbrando tanta decadência terna, fomos à locadora, eu e Spigui.
"O que vai ser hoje, amigo? Comédia?"
"Ora, minha querida, não brinque assim... sabes muito bem que será Terror".

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Reparação

Uma psicanalista afirma que os perversos - que chama de inovadores sexuais - tendem a manter uma relação de reparação constante - e maníaca - com seus objetos amorosos. Por reparação maníaca, para quem não preza a Sra. Klein, leia-se uma compulsiva e inconclusa tentativa de compensar os danos causados ao outro, algo sem muita reflexão e aprimoramento psíquico, mais próximo da descarga pulsional.
Pois bem, trata-se de Joyce McDougall, que ousou dizer que, sim, os perversos também amam... e mais: sentem-se culpados. Se existe um impulso à reparação, quer dizer que há em jogo algum quinhão de culpa...
Culpa de quê?
Em sua construção teórica, McDougall afirma que os desviantes no cenário sexual - ou seja, aqueles que precisam forjar um outro modo de fruição do prazer orgástico - lidam com uma grande falta em suas  representações internas. É como se para estas pessoas o objeto primário, a figura daquele que encarna toda a segurança e contenção de que necessita um bebê no início da vida, não pudesse ser retido. Se este outro que ampara se furta, não existe uma idéia, um símbolo que assegure para o sujeito que ele está protegido contra todos os percalços do mundo.
Dá para imaginar o enorme desamparo que tal situação poderia provocar em todos nós. E também o ódio que surgiria em seguida, deste adulto que deveria cuidar, e nos abandona sem dar garantias de seu retorno...
A busca frenética do perverso por um objeto que o complete - seja no fetiche, na encenação sadomasoquista, na pedofilia, ou no exibicionismo e voyerismo - cumpre a função de preencher o buraco deixado no passado. Encontrar um substituto para este outro que não mais lhe pertence, tomar posse dele, e repará-lo (à sua maneira) de todo o mal que suas fantasias destrutivas possam ter feito.
Entretanto, como disse, na perversão a reparação não é completa: não há um reconhecimento real das consequências nocivas de seus atos. O desviante se desculpa de quem ama-odeia propondo-lhe um teatro de que tudo vai bem. Neste sentido, demonstrações exageradas de afeto podem vir junto com irrupções coléricas, elogios são, ao mesmo tempo, carícias e zombarias dirigidas ao outro, condutas aparentemente misericordiosas revelam objetivos cruéis.
Muitos autores insistem em afirmar o caráter manipulador e cínico dos perversos.
Ora, se sopram agora, é que já pensam em morder depois...
A crença nesta postura totalmente arquitetada do perverso escamoteia uma faceta preciosa de sua personalidade.
Não, ele não perdoa tão fácil. Para alguns o horror do abandono é impossível de esquecer.
Punição se une à indenização que o sujeito oferece ao objeto: como tão bem ilustra o sádico que açoita e acaricia sua parceira no ato sexual.
Mas reparação, à la posição depressiva, como prega Melanie Klein... isso já é outra coisa...
Esta ferida não cicatrizada purga, e esquecê-la seria , para os desviantes de McDougall, abrir mão da própria existência. Pois algumas pessoas constituem uma identidade apoiando-se nesta chaga: no desejo ardente de vingança, e na esperança de manter vivo e ileso aquele que faz sofrer...
Qualquer semelhança com nossos sentimentos mais reprimidos não é mera coincidência.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Contradições demasiadamente humanas

Acabo de ler o impressionante ‘A Sangue Frio’, de Truman Capote. O livro, que segundo o próprio autor inaugurou um novo gênero literário (romance de não – ficção), trata do assassinato de quatro membros da mesma família numa pequena cidade no estado do Kansas, EUA, em 1959.


A história do crime que causou medo na população tranquila de Holcomb, cidade em que se situava a fazenda da família Clutter, é excitante. Desde o patético engano que levou os assassinos a invadirem a casa e matar os proprietários e dois filhos, até a curiosa infância errante de um dos criminosos, Perry Smith, nos deparamos com pitorescos incidentes que aguçam ainda mais nosso interesse pelo ocorrido.

Entretanto, o aspecto mais admirável da obra de Capote não é – a meu ver – sua habilidade em contar de modo atraente um caso de violência e seus desdobramentos na vida dos moradores da cidadezinha em que tudo aconteceu.

O que me capturou (totalmente, diga-se de passagem) nesta leitura foi a forma como o autor traça a personalidade dos responsáveis pelas quatro mortes. Perry Smith e Richard Hickock nos são apresentados, não apenas pelos crimes que cometeram, mas com toda uma gama profunda de pensamentos, ações, sentimentos e matizes que os tornam extremamente humanos.


Confesso que em vários momentos tive a sensação de que a pena aplicada ao caso – pena de morte – foi justa, e que os condenados mereceram pagar com a própria morte aquelas vidas que tiraram brutalmente, e por razões tão banais. (Cabe aqui dizer que Smith e Hickock pensavam encontrar um cofre na propriedade dos Clutter, de onde roubariam até U$ 10.000,00. No entanto, esta informação estava incorreta, e no fim das contas conseguiram levar apenas U$ 50,00 que tiraram da carteira do Sr. Clutter) Em outras passagens, porém, tinha profundo respeito e admiração por Perry Smith, principalmente por suas tentativas de demonstrar certa erudição e inteligência, a despeito da falta de oportunidade que tivera para estudar. As cenas de espancamento, estupro, abandono, fome e todo tipo de exposição a descontrole que aparecem na história da vida de Smith, se não chegam a comover, pelo menos permitem entender – e não digo aceitar ou, mesmo “perdoar” – a explosão de violência que vitimou a distinta família de classe abastada do Kansas em 59. O mesmo vale para Hickock, o Dick: apesar da postura contida e racional, as confidências a Capote acerca de suas tendências à pedofilia nos mostram outra faceta deste homem...

Muitos pontos do livro foram objeto de especulação após a publicação deste romance não – fictício. O que seria de fato verdadeiro, e quanto teria da imaginação do autor em ‘A Sangue Frio’? Para além deste debate, de qualquer pesquisa exaustiva do material (que, por sinal, Capote realizou durante 5 longos anos), ou mesmo da credibilidade dos leitores nos fatos tais como contados pelo autor, um ponto indiscutivelmente brilhante se destaca nesta obra. Ao mergulhar na vida dos dois criminosos, tão odiados por todos que conheciam ou tinham ouvido falar da adorável família Clutter, Capote abre uma janela através da qual é difícil enxergar. Conhecendo aqueles homens sobre os quais todo o mal parecia ter sido projetado pelos moradores de Holcomb, destrinchando-lhes a história, narrando sobre eles acontecimentos corriqueiros, às vezes engraçados, o autor faz com que pouco a pouco nos reconheçamos neles. Alguns traços identificatórios inevitavelmente vão surgindo: uma ou outra brincadeira infantil da qual nos recordamos, um jeito especial de maltratar cachorros, sentimentos hostis pelos que nos agrediram em algum momento do passado... Estes nódulos de reconhecimento, através dos quais percebemos que também abrigamos partes de Dick Hickock ou de Perry Smith, servem para dissolver a fronteira entre virtude e defeito, generosidade e violência, monstruoso e humano. Pois esta linha parece ser muito mais tênue do que supomos quando nos definimos, tomando de empréstimo alguns adjetivos escolhidos a nosso gosto. Fronteira movediça, da qual Capote deve ter se dado conta enquanto se envolvia com os dois assassinos. Pelo que o livro deixa transparecer, o autor revelou extrema simpatia por Hickock e Smith, ajudando-os a contratar bons advogados e a adiar a execução várias vezes. Em outros momentos, porém, Capote parece ter desconsiderado a fragilidade dos presos enquanto colhia deles material para sua escrita, desejando, inclusive, que a pena se cumprisse, para que pudesse finalmente acabar o livro.