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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Volto logo

Algo muito sutil da natureza humana costuma aparecer em conversas de despedidas breves. 
Não os escândalos e choros convulsivos dos aeroportos. Não as brigas definitivas com seus gritos, ofensas e "nunca mais!". Aquele excesso de emoção transborda nossa capacidade de metabolização, e as cenas ficam sempre meio teatrais, mesmo involuntariamente. Fica aquela sensação de que o momento é/foi surreal, algo bizarro.
Mas as despedidas breves... Os "até logo!", "até quarta-feira!", ou "depois de amanhã eu tô de volta!"...
Esses sim, deixam transparecer um tantinho da nossa forma de ser.
Aquelas conversas de corredor de prédio, com a porta entreaberta, visita e visitado sem saber se já saíram ou se ainda estão. Casos que começam a ser contados quando um nome é mencionado, revelando-se interessantes demais para ficar para depois.
Idas ao portão que duram 30, 40 minutos, naquela coisa do portão aberto, pessoas na calçada, recados, "peraí que vou te dar um pedaço pra você levar pra sua mãe", etc...
"Você soube do que aconteceu com a Vanessa?" - e dá-lhe mais meia hora de papo.
Conselhos, breves lições de moral, alfinetadas, indiretas, pedaços de bolo, vasilhas de comida de domingo, remédios pra tosse do fulaninho, e notícias de falecimento, casamento, divórcio de conhecidos...
Toda a vida se passa ali, naquelas despedidas despreocupadas, leves, agraciadas com a certeza de que não precisam ser marcantes, ou tristes, ou belas, porque as partes voltarão a se ver logo, e haverá mais tempo, muito mais tempo, para se falar sobre tudo.
São as melhores despedidas, e falam tanto de nós, justamente porque não pretendemos dar tudo, e por isso mesmo é que damos o necessário.
São também aquelas das quais mais lembramos quando percebemos que às vezes não há mais tempo.
Às vezes não há reencontro.
Algumas quartas-feiras nunca chegam.



sábado, 19 de março de 2016

Vale quanto pesa



Lembro-me nitidamente da primeira viagem que fizemos juntos. Planejamos algumas coisas com antecedência, o lugar, as datas, as passagens, mas você não gostou do hotel que escolhi. Deleguei-lhe então a tarefa de cuidar da hospedagem, mesmo com o receio de que não reservasse um lugar apropriado para passarmos as férias. 
No dia da viagem, chegamos de carro, e o local escolhido tinha uma entrada meio escondida pela auto-estrada, o que dava a sensação de que era um destes hotéis baratos, de quinta categoria. Quando estacionamos, pensei que seria uma estadia sofrida naquele lugar estranho. Porém, alguns passos adiante, já na recepção, percebi que o hotel era, na verdade, encantador. Tinha uma enorme área verde com bangalôs bem distribuídos, e algumas trilhas nas quais podíamos caminhar e ver macaquinhos, vários tipos de pássaros, e outros bichos que eu não conseguia identificar. Havia um mirante do qual podia-se avistar a praia, quase deserta, as falésias imponentes, e pela manhã, alguns golfinhos fazendo seu percurso pelo mar. 
Poucas vezes me senti tão feliz como naqueles dias em que tomávamos o café-da-manhã com aquela vista estonteante, e logo depois descíamos uma grande escada que terminava na areia da praia. Eu tomava sol ouvindo música, e você lia um livro que eu emprestara. Era um livro repleto de contos sobre vários tipos de amor. Ao terminar de ler, você apenas me devolveu e disse "gostei", sem comentar nenhuma história ou acrescentar outra opinião. Não estranhei, pois você não costumava mesmo falar sobre amor. 
Na praia, vez ou outra entrávamos no mar, e nos divertíamos com aquelas brincadeiras bobas de casal, um tentando assustar o outro fingindo ter visto um animal qualquer. Numa destas bobagens, eu usava meus óculos escuros, novinhos em folha, e eles caíram na água. Vendo meu desapontamento, você mergulhou depressa e procurou por alguns minutos, até encontrá-los. Quando me entregou eu te beijei com força, e disse, muito piegas: "meu herói!!". O riso vinha fácil, e das coisas mais banais. Tudo nos distraía, e nada era muito importante. 
Em alguns dias você passava bastante tempo retratando as paisagens com seus equipamentos pesados e complexos, enquanto eu caminhava pela praia tranquilamente. Lembro-me que uma vez vi um cachorro que me pareceu muito solitário, e tirei várias fotos dele com a câmera do meu telefone. Na época eu não sabia, mas talvez aquela cena tenha chamado a minha atenção por se contrastar tanto com meu estado de espírito.
Quando anoitecia, costumávamos sair para jantar e comíamos frutos do mar conversando animadamente, Bebíamos "mojitos" e nos olhávamos com os melhores olhos possíveis, não poderíamos estar mais apaixonados. 
Como fomos felizes naquelas férias nas quais as exigências e o rigor do amor ainda não contaminavam nossa convivência. Quando eu não esperava que você entendesse a minha literatura, e você não queria mais do que espiar as minhas fotos ruins. Não precisávamos de nada além do sol na pele, e do carinho espontâneo que aquele lugar evocava. Ainda não havíamos nos decepcionado tanto um com o outro, e juntos, tínhamos a leveza dos corpos mergulhados no mar. O pior de cada um não tinha ainda emergido, e conservávamos a doce ignorância e ingenuidade em relação ao que nos unia. 
Não saber - ou não querer saber? - do lado sombrio do amor nos mantinha naquele paraíso ensolarado que desfrutavamos por fora e por dentro de nós. O calor da praia a aquecer aqueles sentimentos, a vastidão do mar dando a impressão de que nada poderia esvaziar aquela história.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A gosto



Nos conhecemos numa pizzaria, por acaso, depois de uma peça de teatro. 
Alguns meses depois, marcamos de nos encontrar para jantar. Eu fiquei responsável pela sobremesa, mas como andava enlouquecida com a tradução de um texto, acabei optando pela praticidade e levando cerejas em calda e sorvete de chocolate. 
Quando cheguei em sua casa, me perguntou: "O que você gostaria de jantar?". Meio sem jeito, disse que podia ser o que ele achasse melhor, e depois emendei um "o que for mais fácil...".
"O mais fácil nem sempre é o melhor", respondeu tirando várias coisas da geladeira.
Quase uma hora mais tarde, depois de um pouco de vinho e uma boa conversa na beira do fogão, serviu uma divina batata suíça recheada com camarão e gorgonzola, combinando, sem saber, dois dos ingredientes de que mais gosto.
No dia seguinte, enquanto eu ainda dormia, preparou-me uma caneca de café com leite e uma tigela de cereais com banana. Embora não sejam coisas que costumo comer no café da manhã, a delicadeza da mesa arrumada deixou tudo mais gostoso.
Nos finais de semana seguintes continuei a frequentar sua cozinha e a descobrir novos sabores em  massas, risotos, saladas, peixes, e até tapiocas. Tinha uma horta em casa, e quando sentíamos fome durante a noite ele preparava deliciosos sanduíches com folhas frescas.
Com o passar do tempo notei que eu, que sempre gostei de me aventurar na cozinha, nunca tinha lhe servido nada. Claro que fazia questão de ajudá-lo na preparação dos pratos, mas nunca fizera nada sozinha, nem tomava a iniciativa de cozinhar.
Embora tenha estranhado aquela inibição, respeitei meu tempo. Continuei em meu posto de "sous-chef": picava os legumes, tirava e guardava alimentos na geladeira, arrumava a mesa, lavava os pratos.
Só bastante tempo depois pude entender o que se passava. Foi num dia em que estava assistindo televisão e ele me trouxe camarão (sempre camarão!) frito, e carinhosamente colocou na minha boca, assim como os namorados fazem. Percebi então que não deixava de cozinhar por insegurança ou por preguiça, mas por não querer abrir mão daquela cena toda, da impressão de ser ternamente cuidada, como eu não era há tanto tempo.
E de repente me lembrei de que estava em dívida desde o primeiro jantar. Levantei do sofá e fui preparar a sobremesa.

* Recentemente uma amiga me presenteou com O livro neurótico de receitas, da professora Ana Cecília Carvalho. Fiquei encantada com a leveza do texto, que combina de forma muito bem humorada receitas e histórias de culinária com conceitos psicanalíticos. Indico a leitura para quem deseja temperar a sua vida. (Carvalho, Ana Cecília. O livro neurótico de receitas. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2012.)


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

5 minutos

- Daí que a pessoa me vem com um acompanhante que, sinceramente!
Não é nem por gosto MEU, sabe, nem preconceito, nem nada. Mas é que... tem pessoas que simplesmente... não dá!!!
- ...
- Eu sei, o cara é falastrão. Com aquele jeitão de entendido, parece que tem um conselho pra te dar sobre qualquer coisa, até sobre plantação de abacaxi. Mas, ah... pelo amor de Deus!!
- O que mais te incomodou?
- MAIS?? TUDO!! Horrendo, cena terrível, ver uma mulher tão esperta, tão interessante, tão incrivelmente interessante que me faz reavaliar tudo o que eu já tinha como certo... e aí ela está com este tipo de carinha?
O que é que eu deveria ser, como é que eu deveria ser, então, pra ter o amor dela? Um imbecil? Um perfeito otário, sem o mínimo de profundidade, de verdade, de sentimento que se possa perceber, que se possa considerar para além das formalidades? Eu deveria apenas representar, e bancar o certinho, e me mover corretamente, andar corretamente, dizer tudo corretamente, apenas porque é o jeito certo, e são boas maneiras?
- ...
- Sabe, e quando penso que ela se interessou por mim exatamente porque sou o oposto disso... ou pelo menos fingiu que se interessou, né? Pelo visto fingiu. Ou se interessa por todo mundo, vai saber...
- Seria mais fácil se ela se interessasse, olhasse,conversasse, e se sentasse à mesa só com você?
- Ah, mas que diabo! Não me venha com estas perguntinhas irônicas! Eu reconheço muito bem esse seu tom irritante, como se, percebendo toda a minha desgraça, ainda zombasse dela. É claro que eu queria. Claro que eu queria ter aqueles olhos, e aquelas palavras, aquela voz, tudo só pra mim. E que mal há nisso? Por acaso agora também devo me sentir culpado por não querer dividir a pessoa que eu...
- Que você?
- Que eu...
-...
-Enfim. O cara era um babaca.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

À la Pierre Weil

Eis que quando você se supera na hipocrisia ao contrário, dizendo pra si mesma que "tudo bem, isso não é uma questão para mim", seu corpo ri da sua cara.
Você constrói essa atitude de que não está sofrendo por alguma coisa, de que está tudo resolvido dentro do seu psiquismo, e de que "quando quiser, tudo vai acabar tomando seu devido lugar". E repete isso - internamente - com tanta convicção, que seu ego - que não é lá muito esperto - acaba por acreditar. Daí você leva sua vida normalmente. Quer dizer, em termos...
Porque aí vem a insônia e simplesmente se senta no seu colo. E não se levanta até a hora em que você precisa ir trabalhar. Aí, sim, ela sai de cena, e aparece um sono avassalador.
Isso é o seu corpo te chamando de idiota.
A falsidade que podemos impor a nós mesmos não costuma ter limites. Existem cenas clássicas, como a de sair com amigos e forçar a barra na alegria quando se está muito deprimido, ou a de manter um vínculo - seja ele qual for - com aquela pessoa que você já não suporta, mas tem medo de se perguntar por quê. Deste modo, impelida por essa força estranha, a pessoa pode se oferecer doses gigantescas de constrangimento, infelicidade, frustração, e alguns episódios de puro mau gosto quanto à estética da vida.
É por isso que eu admiro a raça, a bravura do corpo.
Você tá lá, toda blasé, olhando de lado, considerando cafona conversar sobre aquele assunto, e enquanto isso, a doença vem e se instala, chega com as malas e pega logo o melhor quarto.
Dá-lhe tosse, febre, dor e fadiga. Tudo bem, é só uma gripe.
Não é, meus queridos. Confiem em mim.

sábado, 29 de outubro de 2011

Superego relax

Pode ver televisão.
Claro, depois do seriado você estuda.
Dorme um pouco mais, que o corpo ainda está cansado.
Tá atrasado, mas quem liga? Todo mundo pode esperar uns minutinhos.
E pra quê se poupar mais esse prazer gastronômico?

Coma o que quiser, o quanto quiser, quando quiser.
Saia, veja, pegue, compre.
Use mais, peça, tenha.

Amanhã é outro dia, poupar é pros fracos.
Ame, aceite, peça mais, e mais ainda.
Você merece.

Cobre dos outros, do mundo, é preciso mais.
Mais.
Mais.
Mais.
E mais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Não trabalho com

Eu não trabalho com alguns conceitos. Não trabalho com algumas possibilidades. Não trabalho, por exemplo, com a ideia de não comer chocolate.
"Cortei o açucar", disse-me outro dia um trintão.
Acho que nem quando eu tiver tipo, noventa anos, eu vou trabalhar com essa dieta.
No sugar, no gain, meu lema.
Outro dia eu li um blog, e a moça falava que não trabalha com voluptuosidade. Tá no direito dela.
Eu, no momento, não trabalho com denegação.
Fui explicar pra um lacaniano qual era a minha questão de mestrado. Perversão, McDougall, introjeção, identificação, Laplanche, primazia da alteridade, etc.
Ele pediu que eu explicasse como se pode pensar em perversão sem ter de falar em denegação e fetichismo.
Acho legítima sua pergunta. Entendo.
Mas, a questão é que eu não trabalho com a denegação agora.
Sei que existe, tá lá, sei as referências, tenho até as referências aqui em casa, na estante.
Mas é de uma simplicidade reconfortante isso do NÃO.
A escritora não quer saber de sensualidade.
Eu quero saber do meu açucar.
Minha dissertação quer saber da McDougall e do Laplanche.
O Lacan, a denegação, e o fetichismo eu não tenho trabalhado.

E é um jeito muito prático de aprofundar no meu tema de pesquisa, este de "não querer saber".

terça-feira, 18 de maio de 2010

Pais cegos, filhos invisíveis

Na semana passada fui ao cinema assistir Homem de Ferro 2. Sim, eu vi este filme. O que a gente não faz por uma boa companhia... mas apesar da bobagem já esperada e característica de todo filme de ação feito para fazer os olhos masculinos brilharem, uma cena em particular me chamou atenção. Tratava-se de um filme que o pai do futuro super herói metálico – ainda criança na cena – gravava para que o rebento assistisse, muitos anos mais tarde, e soubesse das pesquisas científicas que o genitor realizava. Nesta cena o ocupado papai de ferro tentava falar para uma filmadora sobre todas as suas descobertas no campo da física, enquanto o pequeno pupilo retirava peças das maquetes imponentes que se localizavam no imenso escritório do pai. Ao fazer isso, a criança, com cara de sapeca, parecia buscar o olhar paterno, esboçando um escode-esconde com os materiais de trabalho que estavam naquela sala. Mas Dr. Metálico não achou nada engraçado. Repreendeu o menino e chamou alguém, - que me pareceu ser a babá – para retirar a criança dali, deixando-o com seus afazeres importantes.

Cena mirabolante, fantástica, típica dos filmes de super heróis? Não. Aliás, poderíamos dizer que de tão banal, ela poderia ter se passado em qualquer lugar do mundo, com pais e meninos comuns, e seria fácil buscar na memória um evento parecido ocorrido em nossa própria infância. Pais e mães ora ou outra acabam perdendo a paciência com seus filhos. Mas este não é um grande problema: todos temos que lidar com as limitações dos outros em relação aos nossos desejos.

Em outros momentos do filme, Tony Stark (ou Homem de Ferro) refere-se a seu pai como um homem ocupado demais para ser incomodado com as questões e os problemas do filho, que teria ficado aliviado com a ida deste para um colégio interno, longe o suficiente para afastá-lo da problemática da paternidade. Ressentido, Starkizinho acabou se tornando afetivamente tão alheio ao pai quanto este sempre lhe parecera.

Até aí tudo bem. Psicologicamente compreensível, drama batido próprio das HQ: ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor... quem poderá me defender? Eu mesmo! Cresço e viro um super poderoso. Idéia mais ou menos repetida, com mais ou menos criatividade, em muitas histórias dos heróis modernos. Mas eis que, num dado momento, outra ceninha me surpreende. Stark descobre que o pai tinha lhe deixado uma pista fundamental para resolver um problema com o qual já quebrava a cabeça. Escondido num cantinho da casa, lá estava o mapa da mina: a peça que faltava para o fim de seus tormentos... O Homem de Ferro, agora agradecido, passa a ver o pai com outros olhos. Quase como se ele dissesse: meu pai não foi negligente, ausente, distante... foi genial, e suas descobertas são o legado que me deixou.

Ops! Momento de raiva no cinema. Como assim? Aquele sujeito malvadão, egoísta e insensível passou a ser modelo de paternidade? O que será que eu perdi?

No dia seguinte ao cinema fui ao Subway comer um sanduíche e me sentei de frente para uma mesa onde estavam um pai, uma mãe e dois filhos. Enquanto o casal discutia, um dos meninos se mexia como uma macaca de auditório: dava pulinhos, batia palmas, gritava, rodopiava, deitava metade do corpo em cima da mesa, e daí por diante. Concentrados na briga, os pais continuavam trocando palavras em voz baixa – que pela cara que faziam não pareciam ser nada bonitas – e nem se davam conta do escândalo do menino. Além de todo o restaurante, o irmão mais novo também notou a bizarrice da cena, e perguntou, em sua linguagem infantil e adoravelmente sincera: - Irmão, por que você faz assim tão alto se eles não tão te vendo?

O guri, apesar de seus poucos aninhos, se incomodava com o apelo patético do irmão pela atenção dos pais. Estes, cegos demais para notarem o filho, tinham problemas mais sérios para tratar...

O Homem de Ferro se tornou rico, poderoso, adorado, temido, e absolutamente desenvolvido tecnologicamente por causa do pai. Herdou fortuna, talento, e empresas do velho Stark. Mas há um aspecto trágico na história: nunca pôde captar o olhar paterno. Se tomou conhecimento do amor que seu pai tinha por ele, não foi através do relacionamento dos dois. O velho Stark, mesmo estando ao lado da criança, prefere falar ao filho dirigindo-se a uma câmera.

Nem sempre sanduíches ou sorvetes são provas de amor. De que adianta ser forte como ferro, sendo, para quem se ama, invisível?

sábado, 5 de dezembro de 2009

Incógnita

Homem é bicho bobo.
Diz que não ama, mas sente saudades.
Diz que não pensa nela, mas quer saber se ela pensa nele.
Diz que prefere a solidão e o futebol, mas gosta quando ela chega e guarda as roupas no armário.
E eu me pergunto: por quê?
Homem é bicho esquisito.
Sorri meio de lado, como se quisesse esconder a alegria.
Nega que chorou naquele filme que ela insistiu pra ver com ele.
Finge não perceber quando ela corta o cabelo.
E eu me pergunto: por quê?
Homem é bicho acuado.
Vai embora antes de ser ferido.
Morde pra se defender.
E eu me pergunto: por quê?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Bravo! Aplausos para o show do "Amor líquido"

Atualmente não é raro ouvir, seja numa conversa de bar, ou durante uma briga inflamada com o parceiro amoroso, que desde o início de um relacionamento, sempre esteve claro que este era um tanto quanto "descompromissado".
Ficar junto, aproveitar o momento, não se prender a rótulos, viver um dia após o outro, ter liberdade, e outros termos como estes são chavões clássicos de muitos jovens que estão por aí procurando conhecer o que o mundo tem a lhes oferecer de bom.
É interessante, e até um pouco cômico, pensar como estas pessoas concebem a possibilidade de um tipo de relacionamento no qual o ciúme, a posse, o desejo e a insegurança não estejam envolvidos.
Não sei se fico sensibilizada pela ingenuidade e esperança destas pessoas, que buscam com isso safar-se da angústia de depender de um outro. Ou ainda se me deixo enfurecer pela idiotice das propostas travestidas de modernismo que constantemente nos são feitas pela vida afora...
Fico pensando, cá com meus botões, se não seria melhor voltarmos a viver no preconceituoso e recatado mundo dos anos dourados, quando os homens ainda precisavam fingir que queriam um laço duradouro para convencer uma moça a ter relações sexuais com eles. E as moças, por sua vez, podiam se proteger no engodo de que aquela não seria apenas uma noite de sexo, e sim o começo de uma longa vida a dois...
Doce segurança forjada. Os casamentos patéticos que se formavam em torno deste moralismo denunciavam a precariedade de tais imposições ao desejo.
Pergunto-me, entretanto, se atualmente vivemos situação melhor...
Facilmente as pessoas diriam que hoje existe mais liberdade. Que é possível assumir os próprios desejos, e até mesmo vivenciá-los.
Será mesmo?
Penso nos "rituais" de pertencimento aos grupos de adolescentes: sair com os amigos/as, provar a sexualidade e a independência distribuindo beijos, carícias e noites de sexo com várias pessoas, sem, no entanto, estabelecer laços com nenhuma delas.
Atenção: é a esta última parte do "mandamento" teen que atribuo a escrita deste texto. Não vejo tantos problemas em estabelecer relações amorosas com maior frequência, e até com parceiros simultâneos. Acho até charmoso, meio riponga, isto de amar em cooperativa... Risos.
O que me parece mais grave é a castração "não se apaixone!", implícita no comportamento de quem se deixa levar pela onda do tribalismo "eu sou de ninguém/ eu sou de todo mundo/e todo mundo é meu também". A vida profissional, as dificuldades financeiras, a vontade de realizar alguns de nossos sonhos, tudo isso se transforma em justificativa quando nos questionamos sobre estabelecermos um vínculo explícito com alguém de quem gostamos.
Diante de tantas dificuldades para empreender um amor, melhor mesmo deixar isto para mais tarde. Viver de "amor líquido", beber gota por gota nos encontros fortuitos das baladas.
O sociólogo Zigmunt Bauman utiliza a metáfora do líquido para falar da fragilidade dos laços amorosos na sociedade em que vivemos. Rápidos, os relacionamentos adquiriram a fluidez de uma coca-zero, pulando de objeto em objeto,de mão em mão, sem fornecer nutriente algum.


Em contraste com a busca cada vez mais exigente de satisfação plena, as relações se mostram ocas, estéreis desde as primeiras conversas nas quais os dois envolvidos prometem, numa simulação de honestidade prévia, não se cobrarem nada além do prazer de passarem juntos alguns momentos.
O "amor líquido", que Bauman descreve brilhantemente, serve muitas vezes como uma prevenção a qualquer decepção, frustração ou insatisfação decorrente de um enamoramento.
Se apaixonar-se compreende certo esforço em satisfazer o parceiro, e, ao mesmo tempo, colocar-se sob o jugo deste, o modo globalizado de relacionamento vem a calhar.
"Não, não é que eu seja incompetente, é que já não era para durar. Desde o início já sabíamos que seria assim..."
O fracasso amoroso não é culpa de ninguém. Foi planejado, como os outros que vão advir depois dele. As ligações com o parceiro não são cortadas, interrompidas. São desconectadas. Nem exigem mais um término formal. Algumas pessoas simplesmente "desaparecem", como quem se desmaterializou curiosamente... Já não esperamos uma conversa final, regada a lágrimas. Chega-se até a considerar se todos os exs vão parar na ilha de Lost...
No fim, há um telefonema não atendido.
Uma mensagem extraviada. Um email sem retorno.
Pronto: sabe-se que chegou a hora. É ele, amor líquido, agindo magistralmente para colmatar as falhas.
Deste modo, encerra-se a peça. Fecham as cortinas. Saem os atores bem seguros de si. Certos de não terem errado uma fala do espetáculo, de terem seguido o roteiro.
E com uma estranha sensação de que não há plateia alguma.

 Coffe Kiss, de Tsang Cheung Shing.

domingo, 18 de outubro de 2009

A confusão na minha cabeça

No dia seguinte eu teria uma prova importante. Decisiva, eu diria. Um exame que poderia determinar os próximos rumos de minha trajetória profissional.
No entanto, não estudava.
Tudo bem, serei honesta em afirmar que aquele era apenas o primeiro teste, uma prova de língua francesa que, pelo que tudo indicava, seria relativamente fácil. Mas mesmo assim... faltava uma revisão. Uma leitura cuidadosa de textos científicos "en français", uma olhada geral na gramática, "un coup d'oeil" nas conjugações... nada! Enrolei, deixando - como sempre - para estudar na última hora, com a desculpa de "estar ocupada demais com meu projeto de mestrado". A última hora chegou, e eu não fiz mais do que ler alguns trechos de textos fáceis do meu antigo livro do curso de francês...
Que decepção! Que desânimo...
Continuava ali, parada, a fitar meu livro de francês, como se esperasse dele um sinal, um grito, um passar de páginas que me revelasse assim de bandeja o que eu precisaria saber na prova do dia seguinte.
Nada. Ele não me dizia absolutamente nada. Não me respondia... E eu, perguntava???
"Você sabe o que é ter a cabeça vazia?" - me disse outro dia uma colega que iria se casar. Preocupada demais com a cerimônia, ela quase não podia pensar em nada. Bolo, vestido, viagem, marido. Dava pena que só vendo.
Minhas questões eram mais "feijão - com - arroz" : "Qual é o meu lugar?" "Pertenço a esta gente?" "Afinal, o que eu sou??". Assim não dá. "Você sabe o que é ter a cabeça cheia?" - pergunto em silêncio numa conversa imaginária com a colega - noiva. Pensava em casa, mas não era a minha. Família, mas qual? Lar, pertencimento, mas era um vazio danado... Era o Natal e seus presentes, os sinos já martelando na minha cabeça... "E quem não tem família, onde passa o Natal?" Mas nós ainda estávamos em Outubro...
Não, assim não dá. Não há francês que chegue, não há palavra que ordene, que organize essa bagunça toda. A confusão na minha cabeça.
"Você sabe o que é ter a cabeça confusa?" - continuo meu papo platônico com a noiva. "Assim, como se um ladrão, aproveitando a ausência da família no feriado de fim de ano, entrasse na casa e roubasse as cerejas do bolo. Não, nada de levar as jóias da mãe, ou o vídeo - game caro das crianças, a T.V. de plasma do pai... o ladrão deixou tudo lá. No entanto, só por prazer, foi entrando em cada cômodo e jogando todos os objetos no chão: roupas, livros, sapatos, papéis, toalhas... esvaziando os vidros de perfume, sujando as paredes com chantily... E antes de sair, como troféu, ele leva um pote, bem pequeno, com as cerejas que a mãe usaria para enfeitar a sobremesa do dia seguinte. Você sabe o que é isso?"
O livro de francês, agora fatigado, depois de tentar em vão me convencer a estudar pelo menos o "subjonctif", faz cara de quem não entende, e pergunta, em coro com a noiva: "Mas para quê se aborrecer tanto por causa de cerejas?"
Eu é que me aborreço com tal pergunta. Ora, mas são dois tolos estes interlocutores. Será que não entendem o que digo?
"Cerejas não são coisinhas insignificantes. Uma cereja pode mudar o gosto do dia. Além do mais, lembrem-se que o ladrão já tinha feito toda aquela bagunça na casa. E só para ser sádico, retirou da mulher a possibilidade de fingir que nada se passou. Pois agora não tinha mais jeito: sem cerejas era preciso enfrentar o que aconteceu... E o que aconteceu foi a desordem daquela gente. Quando tiram as nossas coisas assim, misturando tudo, tudo exposto ali, no chão, para que os outros vejam, dá uma confusão danada. Recordamos de coisas que estavam enterradas. Antigas cartas de amor aparecem. Vestidos velhos que nos lembram épocas distantes, brinquedos que nem mais lembrávamos ter, livros que foram dados de presente por pessoas agora falecidas...
O trabalho que dá para pôr em ordem não se deve apenas ao sacrifício de tudo encaixotar, limpar o chão e as paredes. Uma casa revirada é dolorido demais. Existem pertences que nunca devem ser remexidos..."
A noiva me olha pensativa, e murmura algo sobre pedir ao marido um gaveteiro com chaves e cadeado.
O livro, sábio como de costume, tendo compreendido o que ouviu, e nada mais desejando acrescentar, passa três páginas e me deixa ler: "Le passé composé".

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sem calcinha


- Sem calcinha.- ele disse.
- Hã?
- Sem calcinha. Quando voltar quero que você venha sem calcinha. De saia, ou de vestido, se preferir... sem nada por baixo... entende?
- Hum.
- Vai vir?
- Não sei.
- Ah,vai... tô te pedindo...
- Pra quê? Que idéia é essa,agora?
- Sei lá. É tipo uma fantasia que eu tenho. Você chega, eu te agarro e pá!!!!
- Sei...

Breve silêncio enquanto ela amarra os cabelos num rabo-de-cavalo olhando-se no espelho do banheiro. Acabavam de fazer amor. Ele ainda deitado, pensativo, na poltrona. Ela, só de calcinha, admirava os próprios seios. Rompeu o silêncio:

- Pois eu tenho outro tipo de fantasia...

Andou até o sofá e sentou-se ao lado dele, passando a mão em seus cabelos úmidos de suor.

- Qual? Fala! - os olhos dele exprimiam uma voracidade absoluta.
- Eu entro.
- Não. Você bate na porta e eu vou abrir...
- Cala a boca! A fantasia é minha. Vai ouvir ou não?
- Fala.
- Eu chego. Entro sem bater. Chamo e você vem caminhando na minha direção. Depois mando você tirar a roupa e deitar na cama...
- Insossa.
- Quê?
- Fantasia insossa essa sua.
- Você deita na cama , e eu deito por cima. Chego bem pertinho do seu rosto. Tão perto que dá pra sentir sua respiração. Faço que vou te dar um beijo...e é aí!!!! Nesse ponto!
- Nesse ponto o quê?
- Nesse ponto, quando eu devia te beijar... eu te bato.

Ele ri. Ela prossegue:

- Mas não um tapinha no rosto, que isso é coisa de mulherzinha. Uma boa bofetada. Dessas de tirar sangue... Murros... muitos socos nesta sua cara de bobo, de babaca seduzido. Uma surra completa, isso é o que seria! E com direito a chutes, chicotadas, e cinzeiros jogados na cabeça. Deixar o quarto todo quebrado, a cama toda suja deste seu sangue imundo.

Silêncio. Ele visivelmente assustado.

- Depois sabe o que eu faria?
- Hã?
- Me vestiria e iria embora. Sem calcinha.

Ela ri. Ele se levanta, vai ao banheiro, lava o rosto e diz:

- Você não entende nada de fantasia sexual.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Sobre o fim do ano

Eu deveria usar este espaço para fazer meu balanço de fim de ano. Não é isso que todos fazem? Revisar o que deu certo e o que não deu, fazer planos para o próximo ano, metas...
Não que eu não tenha aspirações, sonhos, e não elabore estratégias para realizá-los. Mas se tem algo que me enoja e causa preguiça nas preparações natalinas é o caráter artificial das reflexões. "Para o ano que vem, quero finalmente comprar aquele carro, fazer aquela viagem, fazer um curso de inglês..."
" Em 2009 serei uma amiga mais atenciosa, uma mãe tolerante, uma esposa dedicada..."
O início do ano é uma convenção. Uma data escolhida arbitrariamente para simbolizar outra época. O fim do ano não nos torna amorosos, nem nos dota de capacidade de avaliação mais apurada. No dia 1° de Janeiro não estamos dispostos a levar uma vida nova. Somos os mesmos, carregamos nossas dores crônicas, do corpo e da mente. Temos ainda as nossas resistências, tão entranhadas que fingimos que vamos mudá-las. Parar de fumar, continuar aquela terapia, tentar mais uma vez fazer o casamento dar certo...
Que recomeço é este?
Parece que o Natal, os cartões melosos, os presentes, os abraços nos ajudam a mascarar nossas verdades. As promessas de fim de ano soam tão falsas aos meus ouvidos que mal resisto à tentação de fazer um comentário sarcástico quando aquele parente diz pela milésima vez: "Ano que vem eu vou mudar!"
As metas, os gráficos de produtividade no trabalho, as conclusões acerca das relações familiares, tudo isso trabalhando a favor do recalcamento, fazendo com que fiquem cada vez mais submersos em nossos pensamentos, as questões que realmente importam.
Fala-se vou cuidar mais do meu filho como se diz que é preciso trocar as cortinas da sala. Na lista de balanço do ano entram, lado a lado, a frustração na carreira, a reforma do apartamento, e o melhor desempenho como pai. Tudo se torna comparável, análogo: peru da ceia, presente da mamãe, amizade com a irmã. Afinal, é festa! Vamos fazer as orações e abrir logo os embrulhos! Prometa ser mais atencioso com a mulher, ou mais dedicada aos estudos... depois abrace o vizinho e coma sua torta!
Também gosto das guloseimas que compõem a mesa das festas de fim de ano. Ganhar presentes é mesmo prazeroso. Mas pensar que toda a parafernália natalina - árvore, sinos, tios vestidos com roupa vermelha e barba branca - trazem bons sentimentos e provocam a união da família é uma tolice absurda.
As verdadeiras mudanças são decorrentes de nossas elaborações internas, de muitas perguntas sobre o que nos causa sofrimento, e principalmente, até que ponto queremos que isso seja diferente. É preciso trabalho árduo, coragem, e algum tempo para tornar real aquela mudança tão sonhada. E esse tempo não é equivalente ao nosso calendário. É o tempo do próprio sujeito. Daquele que padece, e não da chegada do Papai Noel.
Qual será a hora certa para o filho que sempre se sentiu rejeitado abrir mão do rancor e aproximar-se dos pais? Quanto tempo leva? Seis meses? Trinta anos? O tempo de um Pai Nosso antes da ceia? Quem é que sabe?
O importante é lembrar que tudo o que é subjetivo não se submete às regulações externas impostas pela sociedade do consumo. Caso contrário, escondemos cada vez mais o que sentimos, e agimos de forma estereotipada. Quem de nós não sabe de cor tudo o que acontecerá nas noites de Natal em família nos próximos anos? Pois são as mesmas felicitações, as mesmas orações, as pessoas que bebem mais e as que bebem menos. Os mesmos tipos de presente de cada um - aquele que dá lembrancinhas a todos, o que dá presentes caros, só para mostrar como é generoso, e aquele que nunca dá nada a ninguém e sempre procura se desculpar.
Não quero desejar um Feliz Natal, ou Próspero Ano Novo aos meus amigos queridos. Prefiro que eles tenham a possibilidade de escolher o que sentir neste fim de ano.