Algo muito sutil da natureza humana costuma aparecer em conversas de despedidas breves.
Não os escândalos e choros convulsivos dos aeroportos. Não as brigas definitivas com seus gritos, ofensas e "nunca mais!". Aquele excesso de emoção transborda nossa capacidade de metabolização, e as cenas ficam sempre meio teatrais, mesmo involuntariamente. Fica aquela sensação de que o momento é/foi surreal, algo bizarro.
Mas as despedidas breves... Os "até logo!", "até quarta-feira!", ou "depois de amanhã eu tô de volta!"...
Esses sim, deixam transparecer um tantinho da nossa forma de ser.
Aquelas conversas de corredor de prédio, com a porta entreaberta, visita e visitado sem saber se já saíram ou se ainda estão. Casos que começam a ser contados quando um nome é mencionado, revelando-se interessantes demais para ficar para depois.
Idas ao portão que duram 30, 40 minutos, naquela coisa do portão aberto, pessoas na calçada, recados, "peraí que vou te dar um pedaço pra você levar pra sua mãe", etc...
"Você soube do que aconteceu com a Vanessa?" - e dá-lhe mais meia hora de papo.
Conselhos, breves lições de moral, alfinetadas, indiretas, pedaços de bolo, vasilhas de comida de domingo, remédios pra tosse do fulaninho, e notícias de falecimento, casamento, divórcio de conhecidos...
Toda a vida se passa ali, naquelas despedidas despreocupadas, leves, agraciadas com a certeza de que não precisam ser marcantes, ou tristes, ou belas, porque as partes voltarão a se ver logo, e haverá mais tempo, muito mais tempo, para se falar sobre tudo.
São as melhores despedidas, e falam tanto de nós, justamente porque não pretendemos dar tudo, e por isso mesmo é que damos o necessário.
São também aquelas das quais mais lembramos quando percebemos que às vezes não há mais tempo.
Às vezes não há reencontro.
Algumas quartas-feiras nunca chegam.
Mostrando postagens com marcador amores e blá blá blá. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amores e blá blá blá. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 26 de junho de 2017
sábado, 19 de março de 2016
Vale quanto pesa

Lembro-me nitidamente da primeira viagem que fizemos juntos. Planejamos algumas coisas com antecedência, o lugar, as datas, as passagens, mas você não gostou do hotel que escolhi. Deleguei-lhe então a tarefa de cuidar da hospedagem, mesmo com o receio de que não reservasse um lugar apropriado para passarmos as férias.
No dia da viagem, chegamos de carro, e o local escolhido tinha uma entrada meio escondida pela auto-estrada, o que dava a sensação de que era um destes hotéis baratos, de quinta categoria. Quando estacionamos, pensei que seria uma estadia sofrida naquele lugar estranho. Porém, alguns passos adiante, já na recepção, percebi que o hotel era, na verdade, encantador. Tinha uma enorme área verde com bangalôs bem distribuídos, e algumas trilhas nas quais podíamos caminhar e ver macaquinhos, vários tipos de pássaros, e outros bichos que eu não conseguia identificar. Havia um mirante do qual podia-se avistar a praia, quase deserta, as falésias imponentes, e pela manhã, alguns golfinhos fazendo seu percurso pelo mar.
Poucas vezes me senti tão feliz como naqueles dias em que tomávamos o café-da-manhã com aquela vista estonteante, e logo depois descíamos uma grande escada que terminava na areia da praia. Eu tomava sol ouvindo música, e você lia um livro que eu emprestara. Era um livro repleto de contos sobre vários tipos de amor. Ao terminar de ler, você apenas me devolveu e disse "gostei", sem comentar nenhuma história ou acrescentar outra opinião. Não estranhei, pois você não costumava mesmo falar sobre amor.
Na praia, vez ou outra entrávamos no mar, e nos divertíamos com aquelas brincadeiras bobas de casal, um tentando assustar o outro fingindo ter visto um animal qualquer. Numa destas bobagens, eu usava meus óculos escuros, novinhos em folha, e eles caíram na água. Vendo meu desapontamento, você mergulhou depressa e procurou por alguns minutos, até encontrá-los. Quando me entregou eu te beijei com força, e disse, muito piegas: "meu herói!!". O riso vinha fácil, e das coisas mais banais. Tudo nos distraía, e nada era muito importante.
Em alguns dias você passava bastante tempo retratando as paisagens com seus equipamentos pesados e complexos, enquanto eu caminhava pela praia tranquilamente. Lembro-me que uma vez vi um cachorro que me pareceu muito solitário, e tirei várias fotos dele com a câmera do meu telefone. Na época eu não sabia, mas talvez aquela cena tenha chamado a minha atenção por se contrastar tanto com meu estado de espírito.
Quando anoitecia, costumávamos sair para jantar e comíamos frutos do mar conversando animadamente, Bebíamos "mojitos" e nos olhávamos com os melhores olhos possíveis, não poderíamos estar mais apaixonados.
Como fomos felizes naquelas férias nas quais as exigências e o rigor do amor ainda não contaminavam nossa convivência. Quando eu não esperava que você entendesse a minha literatura, e você não queria mais do que espiar as minhas fotos ruins. Não precisávamos de nada além do sol na pele, e do carinho espontâneo que aquele lugar evocava. Ainda não havíamos nos decepcionado tanto um com o outro, e juntos, tínhamos a leveza dos corpos mergulhados no mar. O pior de cada um não tinha ainda emergido, e conservávamos a doce ignorância e ingenuidade em relação ao que nos unia.
Não saber - ou não querer saber? - do lado sombrio do amor nos mantinha naquele paraíso ensolarado que desfrutavamos por fora e por dentro de nós. O calor da praia a aquecer aqueles sentimentos, a vastidão do mar dando a impressão de que nada poderia esvaziar aquela história.
sábado, 11 de julho de 2015
A menina das qualidades fugidias
Murilo conheceu Alice quando estavam na quinta série. Achava que ela era a menina mais inteligente da sala, que sua letra era a mais bonita, e seu colorido, o mais criativo. Descobriu que estava apaixonado quando, tendo esquecido a merendeira (Murilo era muito esquecido), Alice repartiu com ele seu lanche: pão com manteiga e achocolatado. Por alguma razão desconhecida, aquele pão era diferente. Mais macio, dissolvia na boca como se fosse nuvem salgadinha. E o leite com chocolate... o mais doce que já provara! Nunca mais tomou com prazer o "nescau" que a mãe lhe preparava de manhã. Depois de Alice, tudo mudou.
Nos esportes, ela também era excelente, contrariando a tendência natural das meninas não gostarem muito de educação física nesta idade. Mas Alice gostava! E como era boa, a garota! Jogava bem o futebol, adorava correr pela quadra, e tinha um talento especial para o vôlei. Murilo achava que ela podia ser jogadora profissional, entrar para o time da cidade, depois para o estadual, quem sabe um dia iria até para as olimpíadas?
Alice achava graça das coisas que o colega falava. "Você é muito exagerado...", dizia, sorrindo timidamente. Na verdade, Alice não entendia muito bem as opiniões de Murilo, não concordava com todo aquele alarde. Mas gostava muito de sua companhia, das conversas que tinham enquanto voltavam da escola, e assim, do seu jeito mais pacifista, preferia não questionar os equívocos do amigo, não queria causar mal-estar entre eles. Gostava de como Murilo gostava dela, ainda que não compreendesse muitas coisas naquela história.
Um dia perguntou à mãe como é que as pessoas sabiam o que é amor e quando estavam amando, e esta, desiludida com seu casamento desastroso, respondeu que ninguém sabe de nada, e que todos se enganam enquanto podem. Alice achou melhor não falar mais de amor e dessas coisas de adultos. Alguns anos se passaram entre a primeira vez que Murilo e Alice se falaram na escola, mas continuavam muito próximos, sempre juntos, conversando sobre bobagens e sobre coisas que os deixavam com medo. Murilo não suportava a ideia de ter que mudar de escola, coisa que fatalmente aconteceria no próximo ano, já que a situação em sua casa andava complicada desde que o pai perdera o emprego. Alice tentava consolá-lo dizendo que moravam bem perto, e poderiam se ver depois da aula, quase todos os dias, exceto quando ela tivesse aulas de dança. Espantado, sentindo-se ferido por não saber de mais este gosto da amiga, perguntou: "E desde quando você decidiu fazer aulas de dança? Pensa que isso é pra você? Dançar, feito uma menininha, igual às outras da escola?" Ofendida, Alice não disse nada e simplesmente foi pra casa. A partir daí, um silêncio constrangedor se instalou entre eles: iam juntos para a escola, mas ninguém falava. Sentavam lado a lado no recreio, porém mudos feito bonecos de cera.
Tempos depois, Murilo adoeceu. A professora não soube explicar se era catapora ou caxumba, afinal, foi uma destas doenças de criança que fez com que ele perdesse quase duas semanas de aula. Sem Murilo, Alice encruou. Quando chamada ao quadro, errava os versos, as contas, nem a tabuada mais sabia de cor. No caderno, a letra era um garrancho irreconhecível, as folhas todas soltas, tarefas por fazer, e sua caixa de lápis de cor não saía mais do fundo da mochila. Na aula de educação física parecia uma pamonha. Errava todos os passes, não alcançava a bola, arrastava-se com preguiça quando a professora mandava treinarem a corrida. As equipes não escolhiam mais Alice, pois ela atrapalhava o time. Ficava sempre por último, naquela situação constrangedora em que a professora acabava obrigando algum lado a aceitar a menina.
Alice percebeu que não sabia fazer mais nada, pois Murilo não estava ali para elogiar cada passo que dava, nem para falar sobre seus dias, seus problemas, seu cachorro que roía seus tênis. Notou que nem mesmo a merenda da mãe era boa. O pão, meio dormido, o leite, morno e com nata. Depois de quase três semanas de ausência, a professora anunciou na sala que Murilo havia mudado de escola, pois seu pai tinha sido chamado para trabalhar em Brasília. Alice nunca ouvira falar de Brasília, mas sentiu um ódio profundo por aquele lugar que tinha tirado dela não só seu melhor amigo, e seu primeiro e secreto amor, mas também, todas as suas qualidades, que agora secavam, uma a uma.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A gosto
Nos conhecemos numa pizzaria, por acaso, depois de uma peça de teatro.
Alguns meses depois, marcamos de nos encontrar para jantar. Eu fiquei responsável pela sobremesa, mas como andava enlouquecida com a tradução de um texto, acabei optando pela praticidade e levando cerejas em calda e sorvete de chocolate.
Quando cheguei em sua casa, me perguntou: "O que você gostaria de jantar?". Meio sem jeito, disse que podia ser o que ele achasse melhor, e depois emendei um "o que for mais fácil...".
"O mais fácil nem sempre é o melhor", respondeu tirando várias coisas da geladeira.
Quase uma hora mais tarde, depois de um pouco de vinho e uma boa conversa na beira do fogão, serviu uma divina batata suíça recheada com camarão e gorgonzola, combinando, sem saber, dois dos ingredientes de que mais gosto.
No dia seguinte, enquanto eu ainda dormia, preparou-me uma caneca de café com leite e uma tigela de cereais com banana. Embora não sejam coisas que costumo comer no café da manhã, a delicadeza da mesa arrumada deixou tudo mais gostoso.
Nos finais de semana seguintes continuei a frequentar sua cozinha e a descobrir novos sabores em massas, risotos, saladas, peixes, e até tapiocas. Tinha uma horta em casa, e quando sentíamos fome durante a noite ele preparava deliciosos sanduíches com folhas frescas.
Com o passar do tempo notei que eu, que sempre gostei de me aventurar na cozinha, nunca tinha lhe servido nada. Claro que fazia questão de ajudá-lo na preparação dos pratos, mas nunca fizera nada sozinha, nem tomava a iniciativa de cozinhar.
Embora tenha estranhado aquela inibição, respeitei meu tempo. Continuei em meu posto de "sous-chef": picava os legumes, tirava e guardava alimentos na geladeira, arrumava a mesa, lavava os pratos.
Só bastante tempo depois pude entender o que se passava. Foi num dia em que estava assistindo televisão e ele me trouxe camarão (sempre camarão!) frito, e carinhosamente colocou na minha boca, assim como os namorados fazem. Percebi então que não deixava de cozinhar por insegurança ou por preguiça, mas por não querer abrir mão daquela cena toda, da impressão de ser ternamente cuidada, como eu não era há tanto tempo.
E de repente me lembrei de que estava em dívida desde o primeiro jantar. Levantei do sofá e fui preparar a sobremesa.
* Recentemente uma amiga me presenteou com O livro neurótico de receitas,
da professora Ana Cecília Carvalho. Fiquei encantada com a leveza do
texto, que combina de forma muito bem humorada receitas e histórias de culinária
com conceitos psicanalíticos. Indico a leitura para quem deseja temperar a sua vida. (Carvalho, Ana Cecília. O livro neurótico de receitas. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2012.)
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Presente para si mesmo
Estava entediada numa tarde como todas as outras, quando me veio a ideia de lhe comprar um presente. Muito menos pela generosidade do que pela necessidade de preencher o tempo com algo minimamente pessoal. Sem muita energia, corri os olhos por alguns sites de livrarias e sebos, tentando encontrar o que seria um presente ideal para você.
Depois de quarenta minutos, me vi sem nenhuma ideia de presente, e fazendo uma lista dos livros que eu mesma gostaria de ganhar, caso acontecesse de alguém, um dia, me perguntar qual seria o presente ideal para mim.
Tinha inclusive feito um breve ranking, que obviamente começava com um escritor russo do século XIX, e terminava com um latino mais atual. Nunca entendi muito bem essa minha fixação pela narrativa trágica russa. Talvez a combinação estranha de risos e desespero, de depressão, ironia e palhaçada.
O fato é que me recriminei durante alguns minutos por não só ter me distraído da tarefa de te presentear, como colocado a mim mesma e os meus desejos no seu lugar. Então eu era uma egoísta?
Foi aí que lembrei dos presentes que você me deu, e de como eles se pareciam muito mais com você do que comigo. De como eles apontavam para algo que eu poderia fazer, poderia ser, mais ainda não fazia, não era.
E me rendeu algum alívio perceber que você também se relacionava com uma versão ilusória e otimista de mim mesma, assim como eu me esforçava para te ver deixando de enxergar as suas partes que mais me enfureciam e decepcionavam.
Foi então que entendi que a gente se presenteava usando um ao outro como desculpa.
Que cada um amava o que queria, de si mesmo, através da imagem que suportava e que mantinha do outro.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Como somos amados
Não é difícil perceber que nossa história pregressa constrói os moldes nos quais tecemos a maioria de nossas relações pessoais. Não é uma questão de simples causa e efeito, mas a lição mais básica que a psicanálise ensina é que amamos no presente, nos valendo de como fomos amados no passado. Parece muito lógico: os afetos não são inatos, nossos sentimentos, nossas ligações, relações sociais precisam ser aprendidas, desde o beabá. Logo, alguém que é carinhosamente tratado desde o início da vida, mais estimulado será a se comportar desta maneira com seus familiares, amigos, conhecidos. Já uma criança que se desenvolve num cenário particularmente violento, empregará com mais facilidade a agressão como maneira de demonstrar seus estados emocionais.
Parece fácil, mas não raro nos deparamos com situações mais enigmáticas. Pessoas com histórias de vida marcadas por eventos extremamente traumáticos, por relações familiares conturbadas, por escassez de cuidado e proteção. Todos nós conhecemos um ou outro exemplar como este, que a despeito dos caminhos tortuosos do afeto, esbanja aquilo que lhe foi negado. Não compreendemos de onde vem aquele repertório de comportamentos, aquela disponibilidade de aceitar o outro, e, carentes de solução, algumas vezes colocamos a explicação na espiritualidade ou no empenho da própria pessoa.
O fato é que, por mais que investiguemos o passado de alguém, nunca temos acesso à totalidade de sua história. Sabemos que o sujeito teve uma mãe violenta, mas raramente temos a noção precisa do caráter dessa violência. A agressão tem muitos matizes, pode ferir cicatrizando, ou dilacerar irremediavelmente. O que nos incomoda é que algo escape ao nosso entendimento, à nossa teoria. Mas quase sempre muita coisa escapa. Mesmo em um processo analítico, quando alguém se propõe a esmiuçar sua história, aquele que a escuta tem apenas um vislumbre dela. E a partir deste vislumbre, tenta explicitar para o falante seu jeito de amar.
Que deste reconhecimento surja também um desejo de mudança deve-se o sucesso de um processo terapêutico. Mas muitas vezes este desejo é fruto de uma relação amorosa. É comum que sejamos convidados a "aprimorar" nosso manejo afetivo, principalmente se este causa sofrimento a quem amamos.
Ora, se temos pouca noção de como amamos, que dirá saberemos (e acolheremos) a forma com que o outro nos ama. Desconhecendo o amor que damos, o que recebemos, e até o que dispensamos a nós mesmos, neste diálogo de surdos, o ponto mais firme no qual podemos ancorar é a percepção do que nos provocam certos tipos de amor. Que seja excessivo, ou comedido, que seja violento ou acolhedor. Que me provoque medo, saudade, carência ou tranquilidade. Independente do estilo do afeto, o importante é considerar que muitos aspectos do modo como o outro ama escapam a ele mesmo, e portanto, mais do que depositar nossas esperanças em grandes transformações neste sentido, o mais sensato seria avaliar se podemos ( e queremos) conviver com os efeitos deste amor em nós.
Resumindo: como exigir que o parceiro nos ame de outra forma, se mal podemos controlar como o amamos?
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
O bem feito
Você saiu de cena pra que eu pudesse ganhar a deixa.
Se afastou pra eu me tornar o centro da história outra vez.
Não porque antes este lugar era seu, mas porque era nosso.
E como nós, eu me descuidei um pouco dos meus segredos, dos meus defeitos que viram qualidades quando bem aproveitados.
Me esqueci por um tempo de como eu era boa companhia pra mim mesma, e de como eu gostava de ficar na toca, quietinha, pensando.
Tenho esse costume de fantasiar os momentos de transição como se fossem uma verdadeira passeata pelo inferno.
Geralmente me surpreendo com a simplicidade com que podem ser atravessados.
O pior é sempre o medo, não a prova.
Negativamente, sua ausência me mostrou que o cotidiano e o tédio podem ser suportáveis.
Talvez necessários.
Seu silêncio me disse que nada é tão incerto, que algumas seguranças a gente tem, e carrega de um lado pro outro, mesmo sem saber.
Minhas dúvidas, minha insegurança, minha paranóia me fizeram notar que a corda bamba é o chão do amor.
E que o equilíbrio não está na certeza, mas no malabarismo das perguntas.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Pouco
Você não gosta muito quando eu te amo. No entanto, pede carinho e cobra cuidado. Mas não gosta muito. De quando eu olho para aquela cicatriz que você tem, e mexo em seus cabelos. Eu sempre lembro de você me contando como se machucou. Mas não acredito muito. Fico imaginando outras possíveis formas daquela cicatriz ter se formado. Talvez porque você tem várias delas pelo corpo, e eu confundo as histórias. Talvez porque suas cicatrizes sejam mesmo sua confusão. Mas vejo, percebo que você não gosta. De quando eu ligo com aquela voz diferente, no meio da correria do dia, e falo que te amo, totalmente fora de contexto. Ou de quando eu digo olhando pra você, e fica aquele silêncio, e então você sorri, meio sem jeito, e agradece, e até fala que é recíproco. Mas eu não acredito muito. E acho o cúmulo o seu agradecimento, e fico me perguntando que tipo de gente agradece por ser amada. E isso me faz lembrar de quando eu ia com a minha mãe visitar alguém, um parente, ou vizinho, e a pessoa servia algum quitute na sala. Existia uma cota, um acordo tácito de quanto eu podia comer sem ser inconveniente. Um, dois pedaços, no máximo. Não passava disso, ou então lá vinha o olhar fuzilante da minha mãe. Por isso, mesmo que depois o anfitrião fosse simpático, e quase implorasse pra eu comer mais daquilo que ele tinha comprado ou feito especialmente para nós, eu só dava um sorriso amarelo, exatamente como o seu, e dizia: "Obrigada".
Abandono, de Oswaldo Goeldi.
Abandono, de Oswaldo Goeldi.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
5 minutos
- Daí que a pessoa me vem com um acompanhante que, sinceramente!
Não é nem por gosto MEU, sabe, nem preconceito, nem nada. Mas é que... tem pessoas que simplesmente... não dá!!!
- ...
- Eu sei, o cara é falastrão. Com aquele jeitão de entendido, parece que tem um conselho pra te dar sobre qualquer coisa, até sobre plantação de abacaxi. Mas, ah... pelo amor de Deus!!
- O que mais te incomodou?
- MAIS?? TUDO!! Horrendo, cena terrível, ver uma mulher tão esperta, tão interessante, tão incrivelmente interessante que me faz reavaliar tudo o que eu já tinha como certo... e aí ela está com este tipo de carinha?
O que é que eu deveria ser, como é que eu deveria ser, então, pra ter o amor dela? Um imbecil? Um perfeito otário, sem o mínimo de profundidade, de verdade, de sentimento que se possa perceber, que se possa considerar para além das formalidades? Eu deveria apenas representar, e bancar o certinho, e me mover corretamente, andar corretamente, dizer tudo corretamente, apenas porque é o jeito certo, e são boas maneiras?
- ...
- Sabe, e quando penso que ela se interessou por mim exatamente porque sou o oposto disso... ou pelo menos fingiu que se interessou, né? Pelo visto fingiu. Ou se interessa por todo mundo, vai saber...
- Seria mais fácil se ela se interessasse, olhasse,conversasse, e se sentasse à mesa só com você?
- Ah, mas que diabo! Não me venha com estas perguntinhas irônicas! Eu reconheço muito bem esse seu tom irritante, como se, percebendo toda a minha desgraça, ainda zombasse dela. É claro que eu queria. Claro que eu queria ter aqueles olhos, e aquelas palavras, aquela voz, tudo só pra mim. E que mal há nisso? Por acaso agora também devo me sentir culpado por não querer dividir a pessoa que eu...
- Que você?
- Que eu...
-...
-Enfim. O cara era um babaca.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Situação e objeto
Quantas vezes não confundimos estes dois elementos. Uma pessoa importante se mescla à cidade na qual a conhecemos. Uma experiência prazerosa tinge de tons vibrantes um lugar apático. Uma relação de conforto e segurança tece os contornos de uma figura que, em si, pouco tem de especial.
Acredito que o afeto às vezes se propague deste modo: por contágio. Afinal, contagiar é próprio da afetividade. A alegria, a tristeza, a raiva, o humor são sensações partilháveis que podem afetar, causar um efeito no outro. Não é preciso ler Freud e sua Psicologia de Grupo para entender este tipo de atravessamento da excitação, que, vindo do campo externo toma o sujeito física e psiquicamente. Basta ir assistir o futebol no estádio, presenciar uma briga ou um fato muito marcante socialmente. As reações, os comentários, os desejos e as paixões do outro ecoam em nossas percepções, produzindo, por sua vez, reações, comentários e desejos em nós.
Lembro-me de algumas vezes em que participei de cerimônias religiosas e, apesar de admirar a estética litúrgica, e a segurança que transparecia no semblante das pessoas, ter a clareza de não estar sentindo nada de diferente. Ouvindo o relato dos fiéis, seus agradecimentos e descrições de felicidade, alívio, confiança, esperança, questionei-me se por acaso não estaria deixando passar minha fé por não saber reconhecê-la. Pouco tempo levei para concluir que não sabia do que aquelas pessoas estavam falando, e que, por mais bonito e reconfortante que parecesse carregar tais certezas, eu não poderia fazê-lo. Pelo menos não sem ser desonesta comigo mesma.
Assumir que não nos sentimos tocados por algo que é extremamente importante e excitante a alguém que nos rodeia é de uma coragem nem sempre reconhecida e valorizada. Os adolescentes sabem perfeitamente do sofrimento solitário que pode atingir aquele que ousa exibir um gosto distinto do de sua turma. Isso porque a aceitação do outro e a decorrente confirmação identitária que ela acarreta são aspectos que buscamos, independente da fase do desenvolvimento psíquico que vivenciamos. Na idade adulta, estas necessidades de pertencimento e semelhança costumam assumir formas mais sutis, mais sublimadas, o que não quer dizer menos significativas. Certamente as relações de consumo permeiam estes nódulos, evocando em nós a vontade de adquirir certos bens que caracterizam aqueles nos quais queremos nos espelhar.
Creio que seria ingênuo falar aqui sobre certa "independência" de nossos desejos, pois estes são exatamente herdeiros do contato que travamos diariamente com o mundo externo. Não acredito num desejo genuíno, natural, próprio ao sujeito. O desejo, visto que de afeto, é afetável, afetado. Porém, uma reflexão sobre o que há de mais alienante (aqui no sentido de perder parte de si mesmo) neste desejo sempre é possível.
O quanto de nós vibra com a vitória do time favorito, ou se compadece com uma causa social, ou ama o parceiro que propicia bons momentos? O que é perdido, recusado, adormecido quando, no intercâmbio das sensações, cedemos aos apelos do grupo, da maioria, dos que nos amam ( e/ou que amamos)?
Ainda que não possuam respostas fechadas e definitivas, estas perguntas parecem apontar algumas possibilidades de viver, amar e desejar de forma mais singular, não se tratando de uma essência de si mesmo, mas de um modo criativo e único de organizar as interferências e invasões que nos constituem.
As imagens são artes de Nicoletta Ceccoli.
As imagens são artes de Nicoletta Ceccoli.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Bravo! Aplausos para o show do "Amor líquido"
Atualmente não é raro ouvir, seja numa conversa de bar, ou durante uma briga inflamada com o parceiro amoroso, que desde o início de um relacionamento, sempre esteve claro que este era um tanto quanto "descompromissado".
Ficar junto, aproveitar o momento, não se prender a rótulos, viver um dia após o outro, ter liberdade, e outros termos como estes são chavões clássicos de muitos jovens que estão por aí procurando conhecer o que o mundo tem a lhes oferecer de bom.
É interessante, e até um pouco cômico, pensar como estas pessoas concebem a possibilidade de um tipo de relacionamento no qual o ciúme, a posse, o desejo e a insegurança não estejam envolvidos.
Não sei se fico sensibilizada pela ingenuidade e esperança destas pessoas, que buscam com isso safar-se da angústia de depender de um outro. Ou ainda se me deixo enfurecer pela idiotice das propostas travestidas de modernismo que constantemente nos são feitas pela vida afora...
Fico pensando, cá com meus botões, se não seria melhor voltarmos a viver no preconceituoso e recatado mundo dos anos dourados, quando os homens ainda precisavam fingir que queriam um laço duradouro para convencer uma moça a ter relações sexuais com eles. E as moças, por sua vez, podiam se proteger no engodo de que aquela não seria apenas uma noite de sexo, e sim o começo de uma longa vida a dois...
Doce segurança forjada. Os casamentos patéticos que se formavam em torno deste moralismo denunciavam a precariedade de tais imposições ao desejo.
Pergunto-me, entretanto, se atualmente vivemos situação melhor...
Facilmente as pessoas diriam que hoje existe mais liberdade. Que é possível assumir os próprios desejos, e até mesmo vivenciá-los.
Será mesmo?
Penso nos "rituais" de pertencimento aos grupos de adolescentes: sair com os amigos/as, provar a sexualidade e a independência distribuindo beijos, carícias e noites de sexo com várias pessoas, sem, no entanto, estabelecer laços com nenhuma delas.
Atenção: é a esta última parte do "mandamento" teen que atribuo a escrita deste texto. Não vejo tantos problemas em estabelecer relações amorosas com maior frequência, e até com parceiros simultâneos. Acho até charmoso, meio riponga, isto de amar em cooperativa... Risos.
O que me parece mais grave é a castração "não se apaixone!", implícita no comportamento de quem se deixa levar pela onda do tribalismo "eu sou de ninguém/ eu sou de todo mundo/e todo mundo é meu também". A vida profissional, as dificuldades financeiras, a vontade de realizar alguns de nossos sonhos, tudo isso se transforma em justificativa quando nos questionamos sobre estabelecermos um vínculo explícito com alguém de quem gostamos.
Diante de tantas dificuldades para empreender um amor, melhor mesmo deixar isto para mais tarde. Viver de "amor líquido", beber gota por gota nos encontros fortuitos das baladas.
O sociólogo Zigmunt Bauman utiliza a metáfora do líquido para falar da fragilidade dos laços amorosos na sociedade em que vivemos. Rápidos, os relacionamentos adquiriram a fluidez de uma coca-zero, pulando de objeto em objeto,de mão em mão, sem fornecer nutriente algum.
Em contraste com a busca cada vez mais exigente de satisfação plena, as relações se mostram ocas, estéreis desde as primeiras conversas nas quais os dois envolvidos prometem, numa simulação de honestidade prévia, não se cobrarem nada além do prazer de passarem juntos alguns momentos.
O "amor líquido", que Bauman descreve brilhantemente, serve muitas vezes como uma prevenção a qualquer decepção, frustração ou insatisfação decorrente de um enamoramento.
Se apaixonar-se compreende certo esforço em satisfazer o parceiro, e, ao mesmo tempo, colocar-se sob o jugo deste, o modo globalizado de relacionamento vem a calhar.
"Não, não é que eu seja incompetente, é que já não era para durar. Desde o início já sabíamos que seria assim..."
O fracasso amoroso não é culpa de ninguém. Foi planejado, como os outros que vão advir depois dele. As ligações com o parceiro não são cortadas, interrompidas. São desconectadas. Nem exigem mais um término formal. Algumas pessoas simplesmente "desaparecem", como quem se desmaterializou curiosamente... Já não esperamos uma conversa final, regada a lágrimas. Chega-se até a considerar se todos os exs vão parar na ilha de Lost...
No fim, há um telefonema não atendido.
Uma mensagem extraviada. Um email sem retorno.
Pronto: sabe-se que chegou a hora. É ele, amor líquido, agindo magistralmente para colmatar as falhas.
Deste modo, encerra-se a peça. Fecham as cortinas. Saem os atores bem seguros de si. Certos de não terem errado uma fala do espetáculo, de terem seguido o roteiro.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Amor, tropeços e outras chatices mais...

"Só um amor não concretizado pode ser romântico".
Ouvi esta frase em um filme, e ela ecoou em meus ouvidos por vários dias.
Só um amor não concretizado pode ser romântico. Neste caso, recobrimos o objeto de amor de ideais referentes a nós mesmos. Características e personalidade do objeto são forjadas de acordo com nossas necessidades neuróticas.
Um amor vivido é, por si só, um amor fracassado. Um amor perdido. Perdido no meio de tantos desencontros inevitáveis no convívio, no ato de conhecer o outro. Perdido em cada momento em que se torna evidente que o outro não é o que esperávamos, não é o que queríamos, o que reservamos para ele...
Nesta confusão de lugares, perde-se a referência: afinal, a quem amo? O que amo?
O único herdeiro de um grande amor é o engano.
"Não, não era nada disso..."
No final de um relacionamento resta sempre aquele objeto que o parceiro esqueceu, aquele bilhete que ele escreveu, um copo que ele deixou fora do lugar e que nos faz tropeçar no meio da casa...
Restam as lembranças das manias irritantes pra gente achar ridículo...
Restam as fotos pra olhar e comentar com as amigas como ele já estava ficando meio gordinho...
Sobram estes detalhes - já dizia Roberto - que um dia a gente amou. E que depois tem-se que odiar, chorar, fazer o luto.
E a gente teima em afirmar: "Afinal de contas, ele nem era tão engraçado assim. Não sei como eu pude me enganar deste jeito..."
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
A insistência do lembrar e a vontade de esquecer
Quem de nós nunca sentiu aquele desejo de ter na cabeça um gravador?
Às vezes temos o impulso de reter, capturar algo que gostamos.
Um trecho de livro que copiamos num papel, com a esperança de fixar na memória.
Uma música que escutamos sem parar, até decorarmos cada suspiro do cantor...
A memória é falha. Esquecemos datas importantes, compromissos, aniversários, nomes, telefones...
Mas será que é falha mesmo?
As descobertas freudianas foram muito elucidativas ao nos apontar a relação de cada lacuna com nossa subjetividade. Para toda ausência, uma presença. Para cada palavra que falta, muitos pensamentos que sobram. Para toda escassez, o excesso.
Li uma vez uma entrevista de um escritor nos lembrando das vantagens de esquecer. Pensem no quanto seria chato conservar intactas todas as histórias lidas, todos os filmes assistidos, todos os romances vividos... Pois a cada vez que lemos um conto,é outra coisa que ele nos conta. Um livro, depois de muitos anos na estante, é outro, nos mostrando algo além daquilo que já havíamos percebido antes.
Esquecemos, mas preservamos a possibilidade de um novo encontro, outra interpretação, nova experiência.
Recordo ainda o dia em que um homem que amei me disse que deletava meus emails, assim que os lia. E não era só isso: apagava também as mensagens no celular, rasgava cartas, e etc.
Amarguei o dissabor da rejeição, não sem pensar no significado daquele estranho e obsessivo ímpeto de me anular.
Não foi fácil lidar com este homem-borracha. Será que ele não era capaz de reconhecer meu investimento naquilo que eu lhe endereçava?
Muitas vezes ele tentou me apagar. Minimizou nosso envolvimento, e até usou expressões como "erro","fora de controle","mal entendido". Ele negou com veemência sentimentos que eram claros, reconhecíveis na atmosfera que nos rodeava. Mas eu, ainda atordoada pelo bobo e fútil final do romance, teimava em mostrar àquele homem o que ele lutava para esquecer.
E quanto mais eu insistia, mais ele parecia sofrer de algum tipo de moléstia da memória. Tenho para mim que se tivesse sido um pouco mais incisiva, ele alegaria jamais ter me conhecido...
Gostaria de ter dito para ele que por muito esforço que fizesse, não conseguiria desmanchar o ponto mais importante desta história.
Aquele homem hoje não lê as tantas palavras que lhe escrevi. Mas deve tê-las apagado, justamente por ainda escutá-las incessantemente...
Às vezes temos o impulso de reter, capturar algo que gostamos.
Um trecho de livro que copiamos num papel, com a esperança de fixar na memória.
Uma música que escutamos sem parar, até decorarmos cada suspiro do cantor...
A memória é falha. Esquecemos datas importantes, compromissos, aniversários, nomes, telefones...
Mas será que é falha mesmo?
As descobertas freudianas foram muito elucidativas ao nos apontar a relação de cada lacuna com nossa subjetividade. Para toda ausência, uma presença. Para cada palavra que falta, muitos pensamentos que sobram. Para toda escassez, o excesso.
Li uma vez uma entrevista de um escritor nos lembrando das vantagens de esquecer. Pensem no quanto seria chato conservar intactas todas as histórias lidas, todos os filmes assistidos, todos os romances vividos... Pois a cada vez que lemos um conto,é outra coisa que ele nos conta. Um livro, depois de muitos anos na estante, é outro, nos mostrando algo além daquilo que já havíamos percebido antes.
Esquecemos, mas preservamos a possibilidade de um novo encontro, outra interpretação, nova experiência.
Recordo ainda o dia em que um homem que amei me disse que deletava meus emails, assim que os lia. E não era só isso: apagava também as mensagens no celular, rasgava cartas, e etc.
Amarguei o dissabor da rejeição, não sem pensar no significado daquele estranho e obsessivo ímpeto de me anular.
Não foi fácil lidar com este homem-borracha. Será que ele não era capaz de reconhecer meu investimento naquilo que eu lhe endereçava?
Muitas vezes ele tentou me apagar. Minimizou nosso envolvimento, e até usou expressões como "erro","fora de controle","mal entendido". Ele negou com veemência sentimentos que eram claros, reconhecíveis na atmosfera que nos rodeava. Mas eu, ainda atordoada pelo bobo e fútil final do romance, teimava em mostrar àquele homem o que ele lutava para esquecer.
E quanto mais eu insistia, mais ele parecia sofrer de algum tipo de moléstia da memória. Tenho para mim que se tivesse sido um pouco mais incisiva, ele alegaria jamais ter me conhecido...
Gostaria de ter dito para ele que por muito esforço que fizesse, não conseguiria desmanchar o ponto mais importante desta história.
Aquele homem hoje não lê as tantas palavras que lhe escrevi. Mas deve tê-las apagado, justamente por ainda escutá-las incessantemente...
Assinar:
Postagens (Atom)








