Foi você que me apresentou boa parte da literatura que mais me agrada hoje. Li muita coisa através dos seus olhos. Dos grifos nos livros, seus comentários, suas análises dramáticas. Aprendi o seu sotaque para ler um livro.
De um, em especial, me lembro com detalhes. Era um livro excelente, sobre uma história terrível. Não sei se você se lembra... mas era triste, amargo, basicamente um caso de amor não correspondido. Há vários tipos de amor não correspondido, formas que vão muito além do amor romântico entre homem e mulher.
Naquele livro, o sentimento engasgado e escrito com tanta crueza me impressionou muito. Aquela história me marcou, porque eu acho que acabei me apaixonando pelo personagem errado. Pelo cara escroto que transformava um não numa infinidade de torturas e desgraça para quem estava à sua volta.
Mas a ideia não era essa, eu acho. Talvez a ideia fosse eu me identificar com as vítimas do cara escroto, me apiedar delas, e ficar pensando em como evitar lidar com pessoas daquele tipo. Essa era a sua ideia, acho.
A minha ideia era diferente. O que eu sentia era outra coisa. Frequentemente, no meio da leitura, era invadida por uma enorme vontade de abraçar aquele cara escroto, de dizer que eu entendia que a vida era pior, muito pior do que a gente merecia e esperava. Sentia um impulso de me misturar e me afastar daquela sujeira toda ao mesmo tempo. A minha ideia era errada?
O que eu escrevi depois, sobre o livro, você disse gostar. Fez aqueles elogios de sempre, deu aquele apoio de sempre. Aquele seu jeito de ler as palavras dos outros mais com os seus olhos do que com os deles. E depois você disse gostar também de muitas outras coisas que escrevi. Muitas outras coisas que eu pensava, lia e dizia, e você elogiava por me achar o máximo. Mas eram todas coisas contaminadas pelos seus olhos, pelo seu jeito de ler. Pelo seu sotaque.
O que eu só entendi agora, é que apesar de todas as lisonjas, mesmo depois de me ler tanto, você não entendeu o que estava escrito em mim desde o início. O meu texto, as minhas ideias eram sobre o cara errado. Você nunca abandonou o seu sotaque e leu tudo espelhado: inverteu frases e palavras.
O que eu queria dizer não era sobre as vítimas não. Era sobre ele, o cara que precisou daquele abraço que nunca veio.
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quinta-feira, 31 de julho de 2014
sábado, 21 de abril de 2012
Nenhuma
Às vezes as circunstâncias da vida nos levam a pensar que tudo pode ter sido bom. Que cada sofrimento tenha sido necessário, por um motivo maior. Que cada dia em que você desejou sumir do mapa, algo estava sendo construído sobre este mal-estar. Que cada fracasso foi uma peça para o alcance de um sucesso bem mais significativo.
Os religiosos gostam de pensar assim. Que Deus, ou os deuses, ou qualquer outra entidade, preveem e preparam um futuro especial através de nossos percalços. Um desfecho honroso e feliz nos aguardaria.
Mas mesmo aqueles que não acreditam em destino ou não seguem uma religião podem se pegar acreditando, secretamente, nesta fantasia. Podem se surpreender dando um sorriso involuntário e achando que, no final, o mundo pode até ser menos injusto. Que alguma satisfação verdadeira seria atingível, em algum momento, em algum lugar, de algum jeito.
É ingênuo. Mas bonito de se pensar. Pouco a pouco a desconfiança e o desalento vão derretendo, e uma tímida e contida esperança pode vir a se aproveitar da situação. Considero estes os momentos mais curtos da nossa história. Mas bastante significativos. Curtos, porque depois deles vem um período que parece não ter fim. Significativos, porque eles provocam expectativas de que roteiros diferentes podem ser construídos. De que velhas idéias podem ser substituídas por novas. De que nossos esforços podem ser recompensados.
Aí vem a vida, e se apresenta em sua majestosa realidade. Com seus infindáveis complicadores, seus inúmeros fatores condicionantes, suas teias completamente emaranhadas, nas quais não é possível encontrar razão alguma.
Então, envergonhados por termos tido pensamentos tão onipotentes, confrontados à imensidão de tudo o que não podemos controlar, tentamos ainda, num último suspiro, manter algum domínio sobre o desespero que nos invade. E dizemos, imbecis e pretensos poetas, que esta foi mais uma lição que a vida nos ensinou.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Um par de meias
Prometi a mim mesma que não faria uma postagem sobre o Natal.
Não gosto muito desta papagaiada.
Não tenho nada contra a ceia - não mesmo!
E também gosto dos presentes, quando eles vêem.
Mas me incomoda o sentimentalismo artificial.
Não me sinto confortável em ter que abraçar uma pessoa da qual não gosto, e falar "te desejo um feliz ano novo!", sendo que na verdade não desejo.
Acho, no mínimo, infantil e maníaca essa aura de "bom mocismo" que nos invade em dezembro.
E os apelos são tão fortes, o bombardeio é tão pesado, que uma ou outra breguice acabamos cometendo.
Estou aqui a escrever que "não gosto disso e aquilo no Natal", o que configura um certo falar sobre estas atividades festivas, das quais eu tinha me proibido, tamanho o clichê.
Tenho duas recordações muito boas desta data: uma de quando eu ganhei um aparelho de som do meu pai, aos seis anos. Foi um presente muito maior do que eu esperava, e fiquei bastante contente.
A outra é de um Natal que acabei passando na casa da avó de uma prima, na fazenda.
Não me lembro bem porque fui parar lá, já que nem meus pais, nem meu irmão foram.
Também não me lembro quantos anos eu tinha, mas foi pouco depois do Natal que acabei de citar.
Não teve nada de extraordinário na noite. As tias da minha prima ficaram fazendo um suspense sobre os presentes que ela ganharia, e sobre a chegada do Papai Noel.
Nós alucinamos sua entrada na casa, e até os detalhes de sua roupa vermelha. "Eu vi ele, eu vi!!"
Mas o mais legal, foi que na hora de abrir os presentes, eu ganhei um par de meias.
Eram bonitinhas, mas nada que justificasse a permanência dessa lembrança até os dias atuais.
O que me intrigou foi que eu tinha ido (sido despachada?) à ceia bem na última hora, ninguém sabia que a minha prima traria uma penetra convidada, e mesmo assim, na embalagem estava escrito: "para Larissa".
Passei a noite toda pensando como era curioso aquilo. Alguém estar te esperando, sem saber que você vem.
Na minha ingenuidade, não passou pela minha cabeça que algum netinho tinha ganho um par de meias a menos, para que eu fosse incluída na cena.
De qualquer jeito, a acolhida da "vovó por uma noite" não passou em branco pela cabecinha de uma menina sedenta por Barbies, mochilas da Company, e patins.
Ser desejado antes mesmo de ser.
Acho que este é o único presente que vale a pena, e que compensa a baranguice natalina.
Venha ele como vier.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
À la Pierre Weil
Eis que quando você se supera na hipocrisia ao contrário, dizendo pra si mesma que "tudo bem, isso não é uma questão para mim", seu corpo ri da sua cara.
Você constrói essa atitude de que não está sofrendo por alguma coisa, de que está tudo resolvido dentro do seu psiquismo, e de que "quando quiser, tudo vai acabar tomando seu devido lugar". E repete isso - internamente - com tanta convicção, que seu ego - que não é lá muito esperto - acaba por acreditar. Daí você leva sua vida normalmente. Quer dizer, em termos...
Porque aí vem a insônia e simplesmente se senta no seu colo. E não se levanta até a hora em que você precisa ir trabalhar. Aí, sim, ela sai de cena, e aparece um sono avassalador.
Isso é o seu corpo te chamando de idiota.
A falsidade que podemos impor a nós mesmos não costuma ter limites. Existem cenas clássicas, como a de sair com amigos e forçar a barra na alegria quando se está muito deprimido, ou a de manter um vínculo - seja ele qual for - com aquela pessoa que você já não suporta, mas tem medo de se perguntar por quê. Deste modo, impelida por essa força estranha, a pessoa pode se oferecer doses gigantescas de constrangimento, infelicidade, frustração, e alguns episódios de puro mau gosto quanto à estética da vida.
É por isso que eu admiro a raça, a bravura do corpo.
Você tá lá, toda blasé, olhando de lado, considerando cafona conversar sobre aquele assunto, e enquanto isso, a doença vem e se instala, chega com as malas e pega logo o melhor quarto.
Dá-lhe tosse, febre, dor e fadiga. Tudo bem, é só uma gripe.
Não é, meus queridos. Confiem em mim.
sábado, 29 de outubro de 2011
Superego relax
Pode ver televisão.
Claro, depois do seriado você estuda.
Dorme um pouco mais, que o corpo ainda está cansado.
Tá atrasado, mas quem liga? Todo mundo pode esperar uns minutinhos.
E pra quê se poupar mais esse prazer gastronômico?
Coma o que quiser, o quanto quiser, quando quiser.
Saia, veja, pegue, compre.
Use mais, peça, tenha.
Amanhã é outro dia, poupar é pros fracos.
Ame, aceite, peça mais, e mais ainda.
Você merece.
Cobre dos outros, do mundo, é preciso mais.
Mais.
Mais.
Mais.
E mais.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Não trabalho com
Eu não trabalho com alguns conceitos. Não trabalho com algumas possibilidades. Não trabalho, por exemplo, com a ideia de não comer chocolate.
"Cortei o açucar", disse-me outro dia um trintão.
Acho que nem quando eu tiver tipo, noventa anos, eu vou trabalhar com essa dieta.
No sugar, no gain, meu lema.
Outro dia eu li um blog, e a moça falava que não trabalha com voluptuosidade. Tá no direito dela.
Eu, no momento, não trabalho com denegação.
Fui explicar pra um lacaniano qual era a minha questão de mestrado. Perversão, McDougall, introjeção, identificação, Laplanche, primazia da alteridade, etc.
Ele pediu que eu explicasse como se pode pensar em perversão sem ter de falar em denegação e fetichismo.
Acho legítima sua pergunta. Entendo.
Mas, a questão é que eu não trabalho com a denegação agora.
Sei que existe, tá lá, sei as referências, tenho até as referências aqui em casa, na estante.
Mas é de uma simplicidade reconfortante isso do NÃO.
A escritora não quer saber de sensualidade.
Eu quero saber do meu açucar.
Minha dissertação quer saber da McDougall e do Laplanche.
O Lacan, a denegação, e o fetichismo eu não tenho trabalhado.
E é um jeito muito prático de aprofundar no meu tema de pesquisa, este de "não querer saber".
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Bravo! Aplausos para o show do "Amor líquido"
Atualmente não é raro ouvir, seja numa conversa de bar, ou durante uma briga inflamada com o parceiro amoroso, que desde o início de um relacionamento, sempre esteve claro que este era um tanto quanto "descompromissado".
Ficar junto, aproveitar o momento, não se prender a rótulos, viver um dia após o outro, ter liberdade, e outros termos como estes são chavões clássicos de muitos jovens que estão por aí procurando conhecer o que o mundo tem a lhes oferecer de bom.
É interessante, e até um pouco cômico, pensar como estas pessoas concebem a possibilidade de um tipo de relacionamento no qual o ciúme, a posse, o desejo e a insegurança não estejam envolvidos.
Não sei se fico sensibilizada pela ingenuidade e esperança destas pessoas, que buscam com isso safar-se da angústia de depender de um outro. Ou ainda se me deixo enfurecer pela idiotice das propostas travestidas de modernismo que constantemente nos são feitas pela vida afora...
Fico pensando, cá com meus botões, se não seria melhor voltarmos a viver no preconceituoso e recatado mundo dos anos dourados, quando os homens ainda precisavam fingir que queriam um laço duradouro para convencer uma moça a ter relações sexuais com eles. E as moças, por sua vez, podiam se proteger no engodo de que aquela não seria apenas uma noite de sexo, e sim o começo de uma longa vida a dois...
Doce segurança forjada. Os casamentos patéticos que se formavam em torno deste moralismo denunciavam a precariedade de tais imposições ao desejo.
Pergunto-me, entretanto, se atualmente vivemos situação melhor...
Facilmente as pessoas diriam que hoje existe mais liberdade. Que é possível assumir os próprios desejos, e até mesmo vivenciá-los.
Será mesmo?
Penso nos "rituais" de pertencimento aos grupos de adolescentes: sair com os amigos/as, provar a sexualidade e a independência distribuindo beijos, carícias e noites de sexo com várias pessoas, sem, no entanto, estabelecer laços com nenhuma delas.
Atenção: é a esta última parte do "mandamento" teen que atribuo a escrita deste texto. Não vejo tantos problemas em estabelecer relações amorosas com maior frequência, e até com parceiros simultâneos. Acho até charmoso, meio riponga, isto de amar em cooperativa... Risos.
O que me parece mais grave é a castração "não se apaixone!", implícita no comportamento de quem se deixa levar pela onda do tribalismo "eu sou de ninguém/ eu sou de todo mundo/e todo mundo é meu também". A vida profissional, as dificuldades financeiras, a vontade de realizar alguns de nossos sonhos, tudo isso se transforma em justificativa quando nos questionamos sobre estabelecermos um vínculo explícito com alguém de quem gostamos.
Diante de tantas dificuldades para empreender um amor, melhor mesmo deixar isto para mais tarde. Viver de "amor líquido", beber gota por gota nos encontros fortuitos das baladas.
O sociólogo Zigmunt Bauman utiliza a metáfora do líquido para falar da fragilidade dos laços amorosos na sociedade em que vivemos. Rápidos, os relacionamentos adquiriram a fluidez de uma coca-zero, pulando de objeto em objeto,de mão em mão, sem fornecer nutriente algum.
Em contraste com a busca cada vez mais exigente de satisfação plena, as relações se mostram ocas, estéreis desde as primeiras conversas nas quais os dois envolvidos prometem, numa simulação de honestidade prévia, não se cobrarem nada além do prazer de passarem juntos alguns momentos.
O "amor líquido", que Bauman descreve brilhantemente, serve muitas vezes como uma prevenção a qualquer decepção, frustração ou insatisfação decorrente de um enamoramento.
Se apaixonar-se compreende certo esforço em satisfazer o parceiro, e, ao mesmo tempo, colocar-se sob o jugo deste, o modo globalizado de relacionamento vem a calhar.
"Não, não é que eu seja incompetente, é que já não era para durar. Desde o início já sabíamos que seria assim..."
O fracasso amoroso não é culpa de ninguém. Foi planejado, como os outros que vão advir depois dele. As ligações com o parceiro não são cortadas, interrompidas. São desconectadas. Nem exigem mais um término formal. Algumas pessoas simplesmente "desaparecem", como quem se desmaterializou curiosamente... Já não esperamos uma conversa final, regada a lágrimas. Chega-se até a considerar se todos os exs vão parar na ilha de Lost...
No fim, há um telefonema não atendido.
Uma mensagem extraviada. Um email sem retorno.
Pronto: sabe-se que chegou a hora. É ele, amor líquido, agindo magistralmente para colmatar as falhas.
Deste modo, encerra-se a peça. Fecham as cortinas. Saem os atores bem seguros de si. Certos de não terem errado uma fala do espetáculo, de terem seguido o roteiro.
domingo, 18 de outubro de 2009
A confusão na minha cabeça
No dia seguinte eu teria uma prova importante. Decisiva, eu diria. Um exame que poderia determinar os próximos rumos de minha trajetória profissional.
No entanto, não estudava.
Tudo bem, serei honesta em afirmar que aquele era apenas o primeiro teste, uma prova de língua francesa que, pelo que tudo indicava, seria relativamente fácil. Mas mesmo assim... faltava uma revisão. Uma leitura cuidadosa de textos científicos "en français", uma olhada geral na gramática, "un coup d'oeil" nas conjugações... nada! Enrolei, deixando - como sempre - para estudar na última hora, com a desculpa de "estar ocupada demais com meu projeto de mestrado". A última hora chegou, e eu não fiz mais do que ler alguns trechos de textos fáceis do meu antigo livro do curso de francês...
Que decepção! Que desânimo...
Continuava ali, parada, a fitar meu livro de francês, como se esperasse dele um sinal, um grito, um passar de páginas que me revelasse assim de bandeja o que eu precisaria saber na prova do dia seguinte.
Nada. Ele não me dizia absolutamente nada. Não me respondia... E eu, perguntava???
"Você sabe o que é ter a cabeça vazia?" - me disse outro dia uma colega que iria se casar. Preocupada demais com a cerimônia, ela quase não podia pensar em nada. Bolo, vestido, viagem, marido. Dava pena que só vendo.
Minhas questões eram mais "feijão - com - arroz" : "Qual é o meu lugar?" "Pertenço a esta gente?" "Afinal, o que eu sou??". Assim não dá. "Você sabe o que é ter a cabeça cheia?" - pergunto em silêncio numa conversa imaginária com a colega - noiva. Pensava em casa, mas não era a minha. Família, mas qual? Lar, pertencimento, mas era um vazio danado... Era o Natal e seus presentes, os sinos já martelando na minha cabeça... "E quem não tem família, onde passa o Natal?" Mas nós ainda estávamos em Outubro...
Não, assim não dá. Não há francês que chegue, não há palavra que ordene, que organize essa bagunça toda. A confusão na minha cabeça.
"Você sabe o que é ter a cabeça confusa?" - continuo meu papo platônico com a noiva. "Assim, como se um ladrão, aproveitando a ausência da família no feriado de fim de ano, entrasse na casa e roubasse as cerejas do bolo. Não, nada de levar as jóias da mãe, ou o vídeo - game caro das crianças, a T.V. de plasma do pai... o ladrão deixou tudo lá. No entanto, só por prazer, foi entrando em cada cômodo e jogando todos os objetos no chão: roupas, livros, sapatos, papéis, toalhas... esvaziando os vidros de perfume, sujando as paredes com chantily... E antes de sair, como troféu, ele leva um pote, bem pequeno, com as cerejas que a mãe usaria para enfeitar a sobremesa do dia seguinte. Você sabe o que é isso?"
O livro de francês, agora fatigado, depois de tentar em vão me convencer a estudar pelo menos o "subjonctif", faz cara de quem não entende, e pergunta, em coro com a noiva: "Mas para quê se aborrecer tanto por causa de cerejas?"
Eu é que me aborreço com tal pergunta. Ora, mas são dois tolos estes interlocutores. Será que não entendem o que digo?
"Cerejas não são coisinhas insignificantes. Uma cereja pode mudar o gosto do dia. Além do mais, lembrem-se que o ladrão já tinha feito toda aquela bagunça na casa. E só para ser sádico, retirou da mulher a possibilidade de fingir que nada se passou. Pois agora não tinha mais jeito: sem cerejas era preciso enfrentar o que aconteceu... E o que aconteceu foi a desordem daquela gente. Quando tiram as nossas coisas assim, misturando tudo, tudo exposto ali, no chão, para que os outros vejam, dá uma confusão danada. Recordamos de coisas que estavam enterradas. Antigas cartas de amor aparecem. Vestidos velhos que nos lembram épocas distantes, brinquedos que nem mais lembrávamos ter, livros que foram dados de presente por pessoas agora falecidas...
O trabalho que dá para pôr em ordem não se deve apenas ao sacrifício de tudo encaixotar, limpar o chão e as paredes. Uma casa revirada é dolorido demais. Existem pertences que nunca devem ser remexidos..."
A noiva me olha pensativa, e murmura algo sobre pedir ao marido um gaveteiro com chaves e cadeado.
O livro, sábio como de costume, tendo compreendido o que ouviu, e nada mais desejando acrescentar, passa três páginas e me deixa ler: "Le passé composé".
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
A insistência do lembrar e a vontade de esquecer
Quem de nós nunca sentiu aquele desejo de ter na cabeça um gravador?
Às vezes temos o impulso de reter, capturar algo que gostamos.
Um trecho de livro que copiamos num papel, com a esperança de fixar na memória.
Uma música que escutamos sem parar, até decorarmos cada suspiro do cantor...
A memória é falha. Esquecemos datas importantes, compromissos, aniversários, nomes, telefones...
Mas será que é falha mesmo?
As descobertas freudianas foram muito elucidativas ao nos apontar a relação de cada lacuna com nossa subjetividade. Para toda ausência, uma presença. Para cada palavra que falta, muitos pensamentos que sobram. Para toda escassez, o excesso.
Li uma vez uma entrevista de um escritor nos lembrando das vantagens de esquecer. Pensem no quanto seria chato conservar intactas todas as histórias lidas, todos os filmes assistidos, todos os romances vividos... Pois a cada vez que lemos um conto,é outra coisa que ele nos conta. Um livro, depois de muitos anos na estante, é outro, nos mostrando algo além daquilo que já havíamos percebido antes.
Esquecemos, mas preservamos a possibilidade de um novo encontro, outra interpretação, nova experiência.
Recordo ainda o dia em que um homem que amei me disse que deletava meus emails, assim que os lia. E não era só isso: apagava também as mensagens no celular, rasgava cartas, e etc.
Amarguei o dissabor da rejeição, não sem pensar no significado daquele estranho e obsessivo ímpeto de me anular.
Não foi fácil lidar com este homem-borracha. Será que ele não era capaz de reconhecer meu investimento naquilo que eu lhe endereçava?
Muitas vezes ele tentou me apagar. Minimizou nosso envolvimento, e até usou expressões como "erro","fora de controle","mal entendido". Ele negou com veemência sentimentos que eram claros, reconhecíveis na atmosfera que nos rodeava. Mas eu, ainda atordoada pelo bobo e fútil final do romance, teimava em mostrar àquele homem o que ele lutava para esquecer.
E quanto mais eu insistia, mais ele parecia sofrer de algum tipo de moléstia da memória. Tenho para mim que se tivesse sido um pouco mais incisiva, ele alegaria jamais ter me conhecido...
Gostaria de ter dito para ele que por muito esforço que fizesse, não conseguiria desmanchar o ponto mais importante desta história.
Aquele homem hoje não lê as tantas palavras que lhe escrevi. Mas deve tê-las apagado, justamente por ainda escutá-las incessantemente...
Às vezes temos o impulso de reter, capturar algo que gostamos.
Um trecho de livro que copiamos num papel, com a esperança de fixar na memória.
Uma música que escutamos sem parar, até decorarmos cada suspiro do cantor...
A memória é falha. Esquecemos datas importantes, compromissos, aniversários, nomes, telefones...
Mas será que é falha mesmo?
As descobertas freudianas foram muito elucidativas ao nos apontar a relação de cada lacuna com nossa subjetividade. Para toda ausência, uma presença. Para cada palavra que falta, muitos pensamentos que sobram. Para toda escassez, o excesso.
Li uma vez uma entrevista de um escritor nos lembrando das vantagens de esquecer. Pensem no quanto seria chato conservar intactas todas as histórias lidas, todos os filmes assistidos, todos os romances vividos... Pois a cada vez que lemos um conto,é outra coisa que ele nos conta. Um livro, depois de muitos anos na estante, é outro, nos mostrando algo além daquilo que já havíamos percebido antes.
Esquecemos, mas preservamos a possibilidade de um novo encontro, outra interpretação, nova experiência.
Recordo ainda o dia em que um homem que amei me disse que deletava meus emails, assim que os lia. E não era só isso: apagava também as mensagens no celular, rasgava cartas, e etc.
Amarguei o dissabor da rejeição, não sem pensar no significado daquele estranho e obsessivo ímpeto de me anular.
Não foi fácil lidar com este homem-borracha. Será que ele não era capaz de reconhecer meu investimento naquilo que eu lhe endereçava?
Muitas vezes ele tentou me apagar. Minimizou nosso envolvimento, e até usou expressões como "erro","fora de controle","mal entendido". Ele negou com veemência sentimentos que eram claros, reconhecíveis na atmosfera que nos rodeava. Mas eu, ainda atordoada pelo bobo e fútil final do romance, teimava em mostrar àquele homem o que ele lutava para esquecer.
E quanto mais eu insistia, mais ele parecia sofrer de algum tipo de moléstia da memória. Tenho para mim que se tivesse sido um pouco mais incisiva, ele alegaria jamais ter me conhecido...
Gostaria de ter dito para ele que por muito esforço que fizesse, não conseguiria desmanchar o ponto mais importante desta história.
Aquele homem hoje não lê as tantas palavras que lhe escrevi. Mas deve tê-las apagado, justamente por ainda escutá-las incessantemente...
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Luto e Viktor Frankl
Estou cursando ,a duras penas,uma matéria sobre um psicólogo que teoriza sobre o sentido da vida a partir de suas experiências num campo de concentração.
Frankl pensa que quando se tem um motivo pra viver,sobrevive-se a (quase)qualquer coisa.
Em certo ponto concordo com ele.
Em outros,vou na contramão.
Explico: não acredito que possamos encontrar o sentido da vida,simplesmente por crer que ele não existe.
Acho que a vida não tem um sentido a priori.
Talvez inventar um seja nosso maior desafio.E ele tem de ser criado.Aí concordo com Frankl.Sem um sentimento de sentido da própria existência, o sujeito cai no desespero.
Devo confessar que o tom que o autor utiliza para expressar suas idéias me causa bastante desconforto.
É uma escrita cheia de exemplos bem sucedidos de únicas sessões que levam a uma mudança definitiva e muito significativa na vida daquele que mergulha em suas questões existencias.Não acredito nestes "milagres".Mudança exige muito trabalho,muita repetição. Além disso,Frankl critica a psicanálise o tempo todo,afirmando que a logoterapia,ao contrário da teoria freudiana, trabalha as questões humanas do paciente.
Questões humanas?
Ora,pra mim não há nada de desumano em pedir a um sujeito que fale,como e quando quiser,daquilo que o angustia,daquilo até que ele julga indigno de atenção.
Pra mim estas são questões humanas.
Mas vamos parar com a picuínha.
Toda esta história é pra dizer que me deparei com uma frase que dissolveu minha antipatia logoterápica em segundos.Vale reproduzi-la:
"Nada pode ser desfeito,nada pode ser eliminado;eu diria que ter sido é a mais segura forma de ser."
Fiquei muito impressionada com esta sentença. Ter sido é uma forma de ser.O que já foi,ainda,teimosamente,permanece.
Qualquer semelhança com a psicanálise não é mera coincidência.Risos.
Mas,fazendo uma fajuta auto-análise, acho que o peso que esta frase teve para mim se deve ao processo de luto pelo qual estou passando.
Conforta saber que ninguém tira de nós o que foi vivido.
Fragmento de uma sessão de análise de um garotinho que perdeu o pai:"Ele morreu, mas vai sempre existir na minha cabeça.E também no meu coração."
Talvez eu tenha,ironicamente,encontrado um sentido ,senão da vida,pelo menos desta disciplina de Frankl.
Acredito que ele deve ter ficado feliz,lá onde está,ao ver que depois de tanta resistência entendi o que aqueles textos queriam dizer.
Valeu MUITO a pena ter conhecido a logoterapia de Frankl.Mesmo que só por causa desta frase.
Talvez as núvens estejam se afastando,dando lugar a um novo céu,um novo teto,uma nova configuração em meu psiquismo.
Não é preciso mais tanta briga.
Se o que foi ainda é,ninguém me tira.
Está aqui comigo,como ensina o menininho,na cabeça e no coração!
Frankl pensa que quando se tem um motivo pra viver,sobrevive-se a (quase)qualquer coisa.
Em certo ponto concordo com ele.
Em outros,vou na contramão.
Explico: não acredito que possamos encontrar o sentido da vida,simplesmente por crer que ele não existe.
Acho que a vida não tem um sentido a priori.
Talvez inventar um seja nosso maior desafio.E ele tem de ser criado.Aí concordo com Frankl.Sem um sentimento de sentido da própria existência, o sujeito cai no desespero.
Devo confessar que o tom que o autor utiliza para expressar suas idéias me causa bastante desconforto.
É uma escrita cheia de exemplos bem sucedidos de únicas sessões que levam a uma mudança definitiva e muito significativa na vida daquele que mergulha em suas questões existencias.Não acredito nestes "milagres".Mudança exige muito trabalho,muita repetição. Além disso,Frankl critica a psicanálise o tempo todo,afirmando que a logoterapia,ao contrário da teoria freudiana, trabalha as questões humanas do paciente.
Questões humanas?
Ora,pra mim não há nada de desumano em pedir a um sujeito que fale,como e quando quiser,daquilo que o angustia,daquilo até que ele julga indigno de atenção.
Pra mim estas são questões humanas.
Mas vamos parar com a picuínha.
Toda esta história é pra dizer que me deparei com uma frase que dissolveu minha antipatia logoterápica em segundos.Vale reproduzi-la:
"Nada pode ser desfeito,nada pode ser eliminado;eu diria que ter sido é a mais segura forma de ser."
Fiquei muito impressionada com esta sentença. Ter sido é uma forma de ser.O que já foi,ainda,teimosamente,permanece.
Qualquer semelhança com a psicanálise não é mera coincidência.Risos.
Mas,fazendo uma fajuta auto-análise, acho que o peso que esta frase teve para mim se deve ao processo de luto pelo qual estou passando.
Conforta saber que ninguém tira de nós o que foi vivido.
Fragmento de uma sessão de análise de um garotinho que perdeu o pai:"Ele morreu, mas vai sempre existir na minha cabeça.E também no meu coração."
Talvez eu tenha,ironicamente,encontrado um sentido ,senão da vida,pelo menos desta disciplina de Frankl.
Acredito que ele deve ter ficado feliz,lá onde está,ao ver que depois de tanta resistência entendi o que aqueles textos queriam dizer.
Valeu MUITO a pena ter conhecido a logoterapia de Frankl.Mesmo que só por causa desta frase.
Talvez as núvens estejam se afastando,dando lugar a um novo céu,um novo teto,uma nova configuração em meu psiquismo.
Não é preciso mais tanta briga.
Se o que foi ainda é,ninguém me tira.
Está aqui comigo,como ensina o menininho,na cabeça e no coração!
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Vigilantes do desejo
Assisti a um desenho, meio dormindo, nesta manhã, que achei genial.
O desenho se chama "padrinhos mágicos",e é sobre um menino que conta com a ajuda destes seres sobrenaturais em suas peripécias infantis.
O tema de hoje era "Vigilantes do desejo". Uma firma de duendes que queriam tomar o poder no reino da fadas, declarou a seguinte ordem: ninguém poderia fazer desejos estúpidos. A cada vez que o personagem desejava algo que era considerado "bobo", seus padrinhos eram severamente punidos.
Fiquei pensando na inteligência deste episódio, aparentemente tão banal.
O menino se vê impedido de desejar ter grandes pernas de queijo, ou assistir a corridas de porcos voadores. Seus desejos, suas vontades, sempre são consideradas tolas demais.
Impossível não reconhecer este duende tirano na nossa vida. Seja nos nossos familiares, no emprego, ou no parceiro que escolhemos. Parece haver alguém nos impedindo de querer as coisas mais idiotas, ter os desejos mais bizarros.Mas, já dizia Freud, nestes anseios que nos parecem mais estranhos há uma singularidade absoluta.
Nos fazem pensar que o que queremos destoa, caduca, é piegas.Uma ligação no meio da noite,tão fora de hora. Uma curiosidade que não deveria surgir. Um amor que foge daquilo que foi proposto.
Acreditamos nesta imposição, e acabamos alienados aos desejos dos outros.
Nada mais chato, frustrante.
Não penso que nosso desejo não deva ter limites. Em certos momentos uma contenção é fundamental,caso contrário caímos na pura repetição, sem elaboração alguma,na morte.
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