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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os livros esperam



Não importa em que momento da história você parou. Se ainda no início, conhecendo os personagens, se bem no meio da trama, quando alguma reviravolta acontecia, ou se acabou nadando e morrendo na praia, interrompendo a leitura antes dos finalmentes. Não se preocupe: os livros sempre esperam. 
Não é preciso muito: basta um marcador - pode ser daqueles mais sofisticados, de metal, ou mesmo um pequeno pedaço de papel. Tem gente que coloca uma flor, que depois seca. Outros usam notas de supermercado, cartões de visita... O fato é que se você deixar um traço, um rastro, um vestígio de que foi bem naquela página que pousou seus olhos pela última vez, o livro aguarda sua volta. Pacientemente. Calmamente. Elegantemente. 
E como se o tempo não tivesse passado, quando abrir de novo aquele emaranhado de folhas, elas te acolherão, ensinando que para certas coisas não existe prazo: se ainda se lembra da história, continue. Se esqueceu uma parte, volte um pouco, leia algumas páginas para trás. Vá aquecendo a memória n (d) as palavras...
Um livro nunca se queixará de abandono. De descaso, de falta de atenção ou de amor. Nunca dirá, enciumado, que percebeu muito bem como você e aquele escritor que ganhou o último Pulitzer estavam mais unidos. Não te fará perguntas. Não exigirá promessas de que desta vez será diferente, de que a leitura fluirá de forma agradável e sem interrupções, de que você, mesmo estando cansado ou sonolento, não ligará a televisão ou preferirá assistir aquelas séries na internet. 
Não pedirá nada, e não estará magoado. Não é por terem se passado três anos desde que você começou a ler aquele romance, que ele se negará a te mostrar partes fundamentais do enredo. Tampouco dirá o tão frequente "bem feito!" dos renegados, quando você, tendo acabado de ler aquele outro ensaio pelo qual o trocou, concluiu que foi pura perda de tempo. 
Um bom livro não sairá da sua memória, por mais estórias que você conheça. E quando o trabalho permitir, quando a vida se mostrar mais serena, quando os filmes ou os encontros se revelarem cansativos ou repetitivos, chegará o momento de voltar a ele. 
Talvez você  se sinta pelo menos um pouquinho satisfeito ao notar que, ao contrário da vida, das pessoas, e de tantas outras coisas, os livros aceitam seus intervalos, suas pausas, seu tempo. 

sábado, 11 de julho de 2015

A menina das qualidades fugidias

Murilo conheceu Alice quando estavam na quinta série. Achava que ela era a menina mais inteligente da sala, que sua letra era a mais bonita, e seu colorido, o mais criativo. Descobriu que estava apaixonado quando, tendo esquecido a merendeira (Murilo era muito esquecido), Alice repartiu com ele seu lanche: pão com manteiga e achocolatado. Por alguma razão desconhecida, aquele pão era diferente. Mais macio, dissolvia na boca como se fosse nuvem salgadinha. E o leite com chocolate... o mais doce que já provara! Nunca mais tomou com prazer o "nescau" que a mãe lhe preparava de manhã. Depois de Alice, tudo mudou.

Nos esportes, ela também era excelente, contrariando a tendência natural das meninas não gostarem muito de educação física nesta idade. Mas Alice gostava! E como era boa, a garota! Jogava bem o futebol, adorava correr pela quadra, e tinha um talento especial para o vôlei. Murilo achava que ela podia ser jogadora profissional, entrar para o time da cidade, depois para o estadual, quem sabe um dia iria até para as olimpíadas?

Alice achava graça das coisas que o colega falava. "Você é muito exagerado...", dizia, sorrindo timidamente. Na verdade, Alice não entendia muito bem as opiniões de Murilo, não concordava com todo aquele alarde. Mas gostava muito de sua companhia, das conversas que tinham enquanto voltavam da escola, e assim, do seu jeito mais pacifista, preferia não questionar os equívocos do amigo, não queria causar mal-estar entre eles. Gostava de como Murilo gostava dela, ainda que não compreendesse muitas coisas naquela história.

Um dia perguntou à mãe como é que as pessoas sabiam o que é amor e quando estavam amando, e esta, desiludida com seu casamento desastroso, respondeu que ninguém sabe de nada, e que todos se enganam enquanto podem. Alice achou melhor não falar mais de amor e dessas coisas de adultos. Alguns anos se passaram entre a primeira vez que Murilo e Alice se falaram na escola, mas continuavam muito próximos, sempre juntos, conversando sobre bobagens e sobre coisas que os deixavam com medo. Murilo não suportava a ideia de ter que mudar de escola, coisa que fatalmente aconteceria no próximo ano, já que a situação em sua casa andava complicada desde que o pai perdera o emprego. Alice tentava consolá-lo dizendo que moravam bem perto, e poderiam se ver depois da aula, quase todos os dias, exceto quando ela tivesse aulas de dança. Espantado, sentindo-se ferido por não saber de mais este gosto da amiga, perguntou: "E desde quando você decidiu fazer aulas de dança? Pensa que isso é pra você? Dançar, feito uma menininha, igual às outras da escola?" Ofendida, Alice não disse nada e simplesmente foi pra casa. A partir daí, um silêncio constrangedor se instalou entre eles: iam juntos para a escola, mas ninguém falava. Sentavam lado a lado no recreio, porém mudos feito bonecos de cera.

Tempos depois, Murilo adoeceu. A professora não soube explicar se era catapora ou caxumba, afinal, foi uma destas doenças de criança que fez com que ele perdesse quase duas semanas de aula. Sem Murilo, Alice encruou. Quando chamada ao quadro, errava os versos, as contas, nem a tabuada mais sabia de cor. No caderno, a letra era um garrancho irreconhecível, as folhas todas soltas, tarefas por fazer, e sua caixa de lápis de cor não saía mais do fundo da mochila. Na aula de educação física parecia uma pamonha. Errava todos os passes, não alcançava a bola, arrastava-se com preguiça quando a professora mandava treinarem a corrida. As equipes não escolhiam mais Alice, pois ela atrapalhava o time. Ficava sempre por último, naquela situação constrangedora em que a professora acabava obrigando algum lado a aceitar a menina.

Alice percebeu que não sabia fazer mais nada, pois Murilo não estava ali para elogiar cada passo que dava, nem para falar sobre seus dias, seus problemas, seu cachorro que roía seus tênis. Notou que nem mesmo a merenda da mãe era boa. O pão, meio dormido, o leite, morno e com nata. Depois de quase três semanas de ausência, a professora anunciou na sala que Murilo havia mudado de escola, pois seu pai tinha sido chamado para trabalhar em Brasília. Alice nunca ouvira falar de Brasília, mas sentiu um ódio profundo por aquele lugar que tinha tirado dela não só seu melhor amigo, e seu primeiro e secreto amor, mas também, todas as suas qualidades, que agora secavam, uma a uma.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Boa parte da literatura

Foi você que me apresentou boa parte da literatura que mais me agrada hoje. Li muita coisa através dos seus olhos. Dos grifos nos livros, seus comentários, suas análises dramáticas. Aprendi o seu sotaque para ler um livro.
De um, em especial, me lembro com detalhes. Era um livro excelente, sobre uma história terrível. Não sei se você se lembra... mas era triste, amargo, basicamente um caso de amor não correspondido. Há vários tipos de amor não correspondido, formas que vão muito além do amor romântico entre homem e mulher.
Naquele livro, o sentimento engasgado e escrito com tanta crueza me impressionou muito. Aquela história me marcou, porque eu acho que acabei me apaixonando pelo personagem errado. Pelo cara escroto que transformava um não numa infinidade de torturas e desgraça para quem estava à sua volta.
Mas a ideia não era essa, eu acho. Talvez a ideia fosse eu me identificar com as vítimas do cara escroto, me apiedar delas, e ficar pensando em como evitar lidar com pessoas daquele tipo. Essa era a sua ideia, acho.
A minha ideia era diferente. O que eu sentia era outra coisa. Frequentemente, no meio da leitura, era invadida por uma enorme vontade de abraçar aquele cara escroto, de dizer que eu entendia que a vida era pior, muito pior do que a gente merecia e esperava. Sentia um impulso de me misturar e me afastar daquela sujeira toda ao mesmo tempo. A minha ideia era errada?
O que eu escrevi depois, sobre o livro, você disse gostar. Fez aqueles elogios de sempre, deu aquele apoio de sempre. Aquele seu jeito de ler as palavras dos outros mais com os seus olhos do que com os deles. E depois você disse gostar também de muitas outras coisas que escrevi. Muitas outras coisas que eu pensava, lia e dizia, e você elogiava por me achar o máximo. Mas eram todas coisas contaminadas pelos seus olhos, pelo seu jeito de ler. Pelo seu sotaque.
O que eu só entendi agora, é que apesar de todas as lisonjas, mesmo depois de me ler tanto, você não entendeu o que estava escrito em mim desde o início. O meu texto, as minhas ideias eram sobre o cara errado. Você nunca abandonou o seu sotaque e leu tudo espelhado: inverteu frases e palavras.
O que eu queria dizer não era sobre as vítimas não. Era sobre ele, o cara que precisou daquele abraço que nunca veio.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os monstros que amamos







A figura do monstro sempre foi muito presente no imaginário coletivo. Desde os deuses mais cruéis da mitologia grega, até os vilões das histórias em quadrinhos, passando pelos personagens mais assustadores do cinema, sempre há um lugar reservado para o estranho, o terrível, o mal. É fácil lembrar de alguns personagens que se tornaram referência daquilo que consideramos odiável, horrível: o canibal Hannibal Lecter, de O silêncio dos inocentes; o assustador Jason Vorhees de Sexta-feira 13; o espírito que transforma a doce Regan MacNeil em um verdadeiro diabo em O exorcista; e o sádico Alex DeLarge em Laranja Mecânica. 

Durante a pesquisa de mestrado, encarreguei-me de analisar outro monstro, por assim dizer, tão interessante quanto estes, mas na época ainda pouco conhecido: Dexter Morgan, do seriado Dexter. O que mais me chamou atenção no programa policialesco foi o caráter sedutor com que o serial killer era retratado. Dexter é bonito, inteligente e perspicaz, o que não é exatamente uma novidade no rol da vilania, mas ele é capaz de operar algo que poucos monstros o são: despertar nossa identificação e nossa compaixão. Não por acaso, o seriado foi um enorme sucesso e chegou a oito temporadas. Mas o que faz com que pessoas "normais", que não saem por aí matando o vizinho irritante ou esquartejando o desagradável colega de trabalho gostem tanto de um sujeito como Dexter?

Para entender esse ponto é preciso pensar num mecanismo psíquico poderosíssimo: a identificação. É através dele que buscamos compreender quase tudo e todos ao nosso redor. Para descomplicar, dito em linguagem de feira, podemos afirmar que comparando-nos aos outros, percebendo traços parecidos com os nossos, ficamos psicologicamente mais próximos a eles. Aquilo que nos parece semelhante é mais facilmente assimilável, e portanto, mais aceito. Pois bem, os escritores de Dexter devem ter feito um curso intensivo de metapsicologia kleiniana  (teórica da psicanálise que mais trabalhou a questão da identificação), pois acertaram em cheio a dosagem do recurso na trama do seriado. Para começar, logo na abertura Dexter já nos mostra o personagem em situações cotidianas: escovando os dentes, tomando o café-da-manhã, se vestindo para trabalhar. Nada de cenas muito escalafobéticas ou comportamentos excêntricos: o que vemos é um homem comum, em sua rotina entediante, como a de todos nós. Obviamente as cenas carregam certa duplicidade, deixam entrever algo estranho ali, por trás daquele sujeito aparentemente normal. Mas isso depois que já fisgou o telespectador pela identificação. A gente já se sente na pele do vilão, e não na da vítima. Outro mérito que o seriado tem, e que foi definitivo para que eu quisesse trabalhar a partir dele na minha análise psicanalítica da perversão, é o fato de mostrar uma história de vida do monstro. Ou seja, mais do que ter contato com os crimes e atos terríveis do vilão, temos a oportunidade de entender, através de seu passado, como ele se tornou o que é. Ora, é o presente que qualquer psicanalista bizarro o suficiente para estudar esse assunto pediu a Freud! 

Não vou me alongar na análise de Dexter, pois o objetivo deste texto é outro, e além do mais, ele já foi suficientemente esmiuçado na dissertação, que acabou virando livro depois. Para quem se interessar, está disponível para compra na Amazon, sob o título de Repetição e angústia: origens da perversão.

Citei Dexter apenas para falar deste sentimento ambivalente que muitas vezes nutrimos por estas figuras emblemáticas que representam o mal. Muitas vezes elas nos amedrontam, mas também nos seduzem, haja visto a quantidade de produções literárias e cinematográficas sobre o tema. Há um ponto interessante nessa história que gostaria de ressaltar: tais monstros nos cativam tanto mais se mostram como velhos conhecidos. É como se assim pudéssemos projetar ali, naquelas figuras, algo de nosso próprio mal, de nossa vilania reprimida, daquilo de terrível que não temos estômago para reconhecer em nós mesmos. E não é raro que os vilões sejam  amigos, parentes, pessoas próximas aos mocinhos, às vezes até mesmo a mesma pessoa, como no livro de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro). O que dizer ainda do romance de Mary Shelley, no qual o Dr. Frankenstein se horroriza com o resultado de sua tentativa de criar alguém como ele mesmo? Muitas vezes os monstros nada mais são do que as partes que expulsamos de nós. 

Recentemente comecei uma nova pesquisa, desta vez no doutorado, na qual pretendo analisar toda essa temática da maldade e da perversão num contexto mais amplo, pensando no cenário das relações sociais. Meu material de base será estudar grandes fenômenos de perversão compartilhada, como nos regimes totalitários do séc. XX, ou nas relações de exploração e violência que se apresentam atualmente, entre as classes sociais. Para me embrenhar de vez nessa empreitada, vali-me de uma pensadora importantíssima e indispensável quando o assunto é o mal: Hannah Arendt. Além de todo o talento intelectual que possuía, Arendt foi uma mulher corajosa o suficiente para expor suas ideias mais controversas nos momentos mais desfavoráveis a elas. Na década de 60, erradicada há anos nos EUA depois de fugir do regime nazista na Europa, Arendt se oferece para cobrir o julgamento de um dos prisioneiros mais odiados da Segunda Guerra Mundial: Adolf Eichmann. Funcionário do alto escalão do partido nazista, Eichmann foi o responsável pelo transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio na Alemanha e países vizinhos. Preso na Argentina, foi levado para Israel e acusado de crime contra a humanidade, pelo assassinato de milhões de pessoas, ao que se declarou inocente. A despeito do clima de exaltação e vingança, e até do fato de ser ela própria judia, Arendt se recusa a enxergar em Eichmann o demônio que todos vêem. Para ela, o acusado não passa de um medíocre burocrata que só cuidava de fazer seu trabalho da melhor forma possível, sem se importar que este trabalho fosse conduzir homens, mulheres e crianças à morte. 

Mas por que falamos de líderes nazistas, vilões de cinema e seriados sobre assassinos em série? Qual é a linha que liga a realidade monstruosa à ficção dos monstros? Insisto nos conceitos de identificação e de projeção, pois são tentativas de nos exorcizar do mal atribuindo-o ao outro, negando nossa própria crueldade, nossa própria maldade. Há também estes movimentos de recuperação do mal defletido através das artes, da ficção: talvez seja somente neste espaço lúdico da mentira verdadeira que possamos assumir - rapidamente, disfarçadamente - que também somos monstros, somos tóxicos, somos ruins em alguma medida. Sim, Hannah Arendt tinha razão: Eichmann não foi o grande vilão, a maldade estava em todos aqueles que participavam do horror do nazismo.  



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fracasso monumental


Em seu ensaio sobre Victor Hugo e Os miseráveis (A tentação do impossível, Ed. Alfaguara), Vargas Llosa diz que o autor começou a escrever seu oceânico romance logo após interromper uma peça teatral (Les Jumeaux, ou Os gêmeos) que o ocupara nos últimos tempos, e pouco depois de amargar os dissabores de outra peça, Les Burgraves, que fora um total e completo fracasso de público e de crítica. Vejamos a nota de rodapé que Llosa dedica ao fato: 

"Esta obra (Les Burgraves), estreada em 7 de março de 1843 na Comédie Française, só teve 36 apresentações e foi a que menos dinheiro rendeu ao seu autor. O público ria de certos versos, a crítica foi sarcástica, e humoristas e caricaturistas se esbaldaram com ela. Victor Hugo nunca mais voltou a escrever teatro."

Ao longo do texto, Llosa afirma que o romance Os miseráveis "nasce quando Victor Hugo ainda não havia superado totalmente sua etapa de autor dramático, e é plausível, de fato, que a concepção e as técnicas do gênero tenham se transposto disfarçadamente para a ficção que escrevia, imprimindo-lhe desde o primeiro momento uma natureza teatral. " (Vargas Llosa, M. A tentação do impossível: Victor Hugo e Os miseráveis, p. 92). 

Algumas décadas depois, em 1897, as correspondências trocadas entre Freud e Fliess demonstram também a influência de um grande fracasso na criação de uma teoria importantíssima, que influenciaria o pensamento ocidental e a nossa concepção sobre a mente humana. Trata-se da famosa revelação do pai da psicanálise ao seu amigo e confidente de que "não acredita mais em sua neurótica", ou seja, de que não pensa que as causas que atribuía à neurose sejam verdadeiras. Tal confissão nada mais é do que um desabafo da frustração de Freud diante de suas dificuldades teóricas, técnicas e financeiras, como nos informa Jacqueline Lanouziere no seguinte trecho:

"Compreende-se então, que o que está no topo de sua argumentação é sua prática. Sua neurótica [a ideia que tinha sobre a neurose] não lhe permitia conduzir as análises ao verdadeiro término, e afugentava a clientela. Em 3 de janeiro de 1897, Freud conta a Fliess que não tinha notícias de um paciente que havia retornado a seu país para obter informações a respeito de sua sedutora, ainda viva. E no dia 16 de maio do mesmo ano, ele anuncia a partida prematura de outro paciente: 'Meu banqueiro, aquele dentre os meus pacientes cuja análise mais tinha avançado, escapou-me num momento decisivo, embora tenha chegado a me revelar as cenas finais. Sofri uma grande perda material, e estou convencido de que não sei ainda todos os passos de meu trabalho. Mas suportei isso com tranquilidade, dizendo a mim mesmo que deveria esperar ainda um longo tempo pelo desenlace completo de um tratamento. No entanto, isso deve ser possível, e eu aguardarei.' ” (Lanouziere, J. Histoire secrète de la seduction sous le regne de Freud, Presses Universitaires France. Tradução nossa.)

 Estas dúvidas a respeito da etiologia da neurose causaram em Freud uma verdadeira desorientação, fazendo com que questionasse a fundo as bases de seu pensamento. Sabemos que tais aflições culminaram no abandono da "Teoria da Sedução", e na concepção de realidade psíquica que foi tão cara à psicanálise. 

Mas não deixemos que o sucesso posterior inebrie nossos sentidos e nos faça dar pouca importância a este momento de desespero: as palavras de Freud deixam claro que ele estava tão perdido que já não conseguia avaliar com nitidez como deveria conduzir os tratamentos, qual era a melhor forma de fazer o seu trabalho. Além disso, ele nos brinda com a magnífica imagem de um banqueiro que vai-se embora, símbolo perfeito da erosão intelectual, narcísica e financeira que atinge um analista quando seus esforços se revelam ineficazes.

Por que, então, ler Freud com Victor Hugo (ou vice-versa)? Porque ambos nos deram (mesmo nos bastidores) exemplos de estrondosas quedas ou faltas de êxito que, por mais que abalassem seus espíritos criativos, não foram aceitas como um destino, mas "requentadas", aproveitadas futuramente. É importante atentar para esse detalhe: não é apenas uma lição à la auto-ajuda, de que é necessário persistir. Trata-se aqui da possibilidade de retirar dessa experiência negativa algum material que poderá compor outros arranjos, de modo diferente - ou até disfarçado - e que faça com que estes sejam, por sua vez, aceitos e apreciados. 

É como Victor Hugo enxertando teatro em seu romance. Como Freud teorizando num movimento espiral que ora considera a Teoria da Sedução, ora a renega. Disso tudo talvez possamos concluir que o fracasso é parte fundamental do sucesso. 

Ah, se tivéssemos essa habilidade... esse dom de transformar o erro em lucro...








terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A gosto



Nos conhecemos numa pizzaria, por acaso, depois de uma peça de teatro. 
Alguns meses depois, marcamos de nos encontrar para jantar. Eu fiquei responsável pela sobremesa, mas como andava enlouquecida com a tradução de um texto, acabei optando pela praticidade e levando cerejas em calda e sorvete de chocolate. 
Quando cheguei em sua casa, me perguntou: "O que você gostaria de jantar?". Meio sem jeito, disse que podia ser o que ele achasse melhor, e depois emendei um "o que for mais fácil...".
"O mais fácil nem sempre é o melhor", respondeu tirando várias coisas da geladeira.
Quase uma hora mais tarde, depois de um pouco de vinho e uma boa conversa na beira do fogão, serviu uma divina batata suíça recheada com camarão e gorgonzola, combinando, sem saber, dois dos ingredientes de que mais gosto.
No dia seguinte, enquanto eu ainda dormia, preparou-me uma caneca de café com leite e uma tigela de cereais com banana. Embora não sejam coisas que costumo comer no café da manhã, a delicadeza da mesa arrumada deixou tudo mais gostoso.
Nos finais de semana seguintes continuei a frequentar sua cozinha e a descobrir novos sabores em  massas, risotos, saladas, peixes, e até tapiocas. Tinha uma horta em casa, e quando sentíamos fome durante a noite ele preparava deliciosos sanduíches com folhas frescas.
Com o passar do tempo notei que eu, que sempre gostei de me aventurar na cozinha, nunca tinha lhe servido nada. Claro que fazia questão de ajudá-lo na preparação dos pratos, mas nunca fizera nada sozinha, nem tomava a iniciativa de cozinhar.
Embora tenha estranhado aquela inibição, respeitei meu tempo. Continuei em meu posto de "sous-chef": picava os legumes, tirava e guardava alimentos na geladeira, arrumava a mesa, lavava os pratos.
Só bastante tempo depois pude entender o que se passava. Foi num dia em que estava assistindo televisão e ele me trouxe camarão (sempre camarão!) frito, e carinhosamente colocou na minha boca, assim como os namorados fazem. Percebi então que não deixava de cozinhar por insegurança ou por preguiça, mas por não querer abrir mão daquela cena toda, da impressão de ser ternamente cuidada, como eu não era há tanto tempo.
E de repente me lembrei de que estava em dívida desde o primeiro jantar. Levantei do sofá e fui preparar a sobremesa.

* Recentemente uma amiga me presenteou com O livro neurótico de receitas, da professora Ana Cecília Carvalho. Fiquei encantada com a leveza do texto, que combina de forma muito bem humorada receitas e histórias de culinária com conceitos psicanalíticos. Indico a leitura para quem deseja temperar a sua vida. (Carvalho, Ana Cecília. O livro neurótico de receitas. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2012.)


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Contradições demasiadamente humanas

Acabo de ler o impressionante ‘A Sangue Frio’, de Truman Capote. O livro, que segundo o próprio autor inaugurou um novo gênero literário (romance de não – ficção), trata do assassinato de quatro membros da mesma família numa pequena cidade no estado do Kansas, EUA, em 1959.


A história do crime que causou medo na população tranquila de Holcomb, cidade em que se situava a fazenda da família Clutter, é excitante. Desde o patético engano que levou os assassinos a invadirem a casa e matar os proprietários e dois filhos, até a curiosa infância errante de um dos criminosos, Perry Smith, nos deparamos com pitorescos incidentes que aguçam ainda mais nosso interesse pelo ocorrido.

Entretanto, o aspecto mais admirável da obra de Capote não é – a meu ver – sua habilidade em contar de modo atraente um caso de violência e seus desdobramentos na vida dos moradores da cidadezinha em que tudo aconteceu.

O que me capturou (totalmente, diga-se de passagem) nesta leitura foi a forma como o autor traça a personalidade dos responsáveis pelas quatro mortes. Perry Smith e Richard Hickock nos são apresentados, não apenas pelos crimes que cometeram, mas com toda uma gama profunda de pensamentos, ações, sentimentos e matizes que os tornam extremamente humanos.


Confesso que em vários momentos tive a sensação de que a pena aplicada ao caso – pena de morte – foi justa, e que os condenados mereceram pagar com a própria morte aquelas vidas que tiraram brutalmente, e por razões tão banais. (Cabe aqui dizer que Smith e Hickock pensavam encontrar um cofre na propriedade dos Clutter, de onde roubariam até U$ 10.000,00. No entanto, esta informação estava incorreta, e no fim das contas conseguiram levar apenas U$ 50,00 que tiraram da carteira do Sr. Clutter) Em outras passagens, porém, tinha profundo respeito e admiração por Perry Smith, principalmente por suas tentativas de demonstrar certa erudição e inteligência, a despeito da falta de oportunidade que tivera para estudar. As cenas de espancamento, estupro, abandono, fome e todo tipo de exposição a descontrole que aparecem na história da vida de Smith, se não chegam a comover, pelo menos permitem entender – e não digo aceitar ou, mesmo “perdoar” – a explosão de violência que vitimou a distinta família de classe abastada do Kansas em 59. O mesmo vale para Hickock, o Dick: apesar da postura contida e racional, as confidências a Capote acerca de suas tendências à pedofilia nos mostram outra faceta deste homem...

Muitos pontos do livro foram objeto de especulação após a publicação deste romance não – fictício. O que seria de fato verdadeiro, e quanto teria da imaginação do autor em ‘A Sangue Frio’? Para além deste debate, de qualquer pesquisa exaustiva do material (que, por sinal, Capote realizou durante 5 longos anos), ou mesmo da credibilidade dos leitores nos fatos tais como contados pelo autor, um ponto indiscutivelmente brilhante se destaca nesta obra. Ao mergulhar na vida dos dois criminosos, tão odiados por todos que conheciam ou tinham ouvido falar da adorável família Clutter, Capote abre uma janela através da qual é difícil enxergar. Conhecendo aqueles homens sobre os quais todo o mal parecia ter sido projetado pelos moradores de Holcomb, destrinchando-lhes a história, narrando sobre eles acontecimentos corriqueiros, às vezes engraçados, o autor faz com que pouco a pouco nos reconheçamos neles. Alguns traços identificatórios inevitavelmente vão surgindo: uma ou outra brincadeira infantil da qual nos recordamos, um jeito especial de maltratar cachorros, sentimentos hostis pelos que nos agrediram em algum momento do passado... Estes nódulos de reconhecimento, através dos quais percebemos que também abrigamos partes de Dick Hickock ou de Perry Smith, servem para dissolver a fronteira entre virtude e defeito, generosidade e violência, monstruoso e humano. Pois esta linha parece ser muito mais tênue do que supomos quando nos definimos, tomando de empréstimo alguns adjetivos escolhidos a nosso gosto. Fronteira movediça, da qual Capote deve ter se dado conta enquanto se envolvia com os dois assassinos. Pelo que o livro deixa transparecer, o autor revelou extrema simpatia por Hickock e Smith, ajudando-os a contratar bons advogados e a adiar a execução várias vezes. Em outros momentos, porém, Capote parece ter desconsiderado a fragilidade dos presos enquanto colhia deles material para sua escrita, desejando, inclusive, que a pena se cumprisse, para que pudesse finalmente acabar o livro.