terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Chuva no passeio

Quando eu era jovem, gostava de desperdiçar amores.
Jogava fora aqueles que eu conseguia com grande esforço.
O coleguinha da escola, que só me olhou quando lhe emprestei a caneta na prova de matemática.
O menino da fazenda, que sempre tivera os olhos hipnotizados por minha prima.
Difícil convencê-lo de que eu também podia ser bonita, ou interessante.
Mas por fim, o venci pelo cansaço.
E foi aí que o deixei cair através da janela do meu quarto.
Lá de cima, do alto do prédio, via os pedacinhos de amor se espalhando pelo passeio.
Não me arrependia.
E não quero parecer altruísta: não era por culpa ou bondade.
Era só por desperdiçar.
Guardava numa caixinha, junto com meu único brinco de ouro e uns dentes de leite, as mágoas que mais me haviam ferido.
Muitas de mãe, tantas de pai.
Poucas de irmãos.
Menos ainda dos outros.
Algumas eram tão pequenas, e já tão antigas, que entravam numa espécie de estado de decomposição.
Iam perdendo os fragmentos, as palavras se desprendiam, algumas letras caíam...
e quando me dava na telha de remoer minhas mágoas, algumas eu já não conseguia.
No meio da frase agressiva, lá se tinha ido o palavrão. Cadê aquele safanão que eu lembrava ter guardado aqui?
As mágoas sofriam metamorfoses.
Algumas pareciam o bolo que mamãe fazia aos domingos. De uma hora para outra, cresciam de tal maneira, que temia que minha velha caixinha de veludo vermelho arrebentasse, e voasse tristeza para todos os lados.
No entanto, isso nunca aconteceu.
Por mais que as mágoas crescessem, sempre couberam lá dentro.
Pensando agora, deve ser por causa das outras que diminuíam de tamanho... faz sentido.
Mas eu dizia que gostava de desperdiçar amores.
Não é que os desprezasse.
Eu gostava deles. Era realmente duro consegui-los.
Mas a visão dos pedacinhos se espatifando lá embaixo era tão linda... uma chuva de amores perdidos, pra quem tivesse passando na rua...
Quem sabe uma velhinha não tomava para si o amor do fazendeiro?
Além do mais, todos os dias espiava minha caixinha de veludo.
Meu jardim de magoazinhas.
E aquilo era uma beleza de se ver: como se moviam, como mudavam, e viviam por elas mesmas.
Era um mundo à parte, aquela caixinha.
E me fascinava demasiadamente.
Desde então achava os amores chatos...eram bobos, redondos, brilhantes.
Bonito mesmo era vê-los cair.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mais calmo

Solidão.
Composto que, como qualquer veneno,
tem propriedades terapêuticas
quando utilizado em quantidades peculiares.
É preciso medi-la, dosar bem suas gotas.

Eu penso que esta ausência é como um guarda - chuva
que a gente não tem coragem de deixar em casa, e acaba carregando sempre para todos os lados.

E não temê- la, a esta deliciosa dor, é mais que um alívio,
um descanso,
uma pausa,
quase uma dádiva.

Pois se este carrasco nos faz provar o pior dos sabores quando nos leva alguém de quem precisávamos
transformando as manhãs em verdadeiras penitências,
também pode acarinhar com as mãos de espinhos,
dar conforto através da dúvida,
interromper a lágrima com um tapa.

Solidão também é redenção:
aos poucos lá dentro as palavras ecoam.
A urgência fica pra depois.
E o insuportável vira poesia...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Carta ao meu melhor romance - ou Atemporal.


Venha logo me buscar, que já estamos atrasados.
O filme que marcamos de assistir no cinema já começou. Será que dá tempo de comprar pipoca?
Quando chegar aqui, dá um toque na buzina, que eu já tô de malas prontas te esperando pra ser feliz.
Vamos logo com estas tralhas: ainda tem namoro pra dar certo, noivado pra esquentar o clima e casamento pra selar nosso amor.
Corre, corre! Não fica aí parado, assistindo futebol... será que não vê que já tá na hora de buscar os filhos na escola?
Árvore de Natal, férias na praia, festa do colégio... e pelo amor de Deus!, conserta esta torneira da pia no fim de semana...
Deixei um bilhete na geladeira que vamos comprar daqui a uns dez anos, avisando que sua comida tá na vasilhinha amarela, atrás da caixa de leite. É só colocar no microondas e esquentar.
Quando tiver indo pro trabalho, me faz um favorzinho: passa na floricultura e compra uma dúzia de rosas. Daquelas de um tom quase lilás. Com as bordas das pétalas de cores mais fortes... Sim, destas que eu gosto.
Traz umas delas pra me dar de presente, bem no dia em que for me encontrar pela primeira vez.
Não esquece de copiar aquele mocinho do filme que assistimos juntos, e eu amei: elogie meu vestido, diga coisas engraçadas, comece um papo sério também, que é pra eu saber que você não é nenhum bobinho...
Depois me olhe com carinho e desejo, e me beije, até me deixar sem ar.
Faça uma piada, me compre um sorvete.
Vai ser no dia em que vou me apaixonar por nossa vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Perdão agradecido

Foi assim que eu perdoei o mundo: num dia banal, depois de ver televisão. Tinha comido um doce gostoso, que ainda estava na minha cabeça quando eu fui trocar de roupa.
Será que tinha tantas calorias assim? - perguntei ao espelho.
Não, não tinha.
Achei que o doce, com toda sua carga de gordura e celulite, tinha valido a pena.
Foi gostoso, e ainda por cima eu tava num papo tão bom com aquela amiga...
Foi então que aconteceu. Enquanto eu não me decidia entre assistir o final do seriado americano e ler mais um conto do livro de cabeceira, lembrei-me dos meus amigos.
Um a um, fui passando por todos eles.
Os rostos, os sorrisos, as maneiras de falar... fui me lembrando de festas alegres, de conversas tão bobas que cheguei mesmo a rir com ligeiro constrangimento. Como uma mãe condescendente que acoberta as trapalhadas do filho, deliciei-me com os encontros mais tolos que tive com meus melhores amigos. Papos engraçados, muitas vezes dedicados a caçoar algo ou alguém que conhecíamos.
Quando meu irmão entrou na sala, me olhou com ar surpreso, e disse com voz de chacota:
- Que cara de boba é esta? Você não pode estar rindo deste programa idiota...
Não, não estava. Sorria, mas não era para a T.V.
Era pra mim. Era pra eles.
Meus amigos. Os que eu gostava.
E foi bacana, porque tive logo a confirmação: eles me amavam também. Prova disso eram as tantas discussões que tinham acontecido. Os olhares atravessados. As caras fechadas depois daquela festa em que todo mundo se estranhou. As lágrimas, a raiva, os tantos 'não quero mais falar com você'. E acima de tudo, a cumplicidade. O encontro.
Separamo-nos. Cada qual para seu lado. Sua vida, seus amores.
Mas naquele dia eu soube, eu descobri. (Ou apenas lembrei?) Que a vida era monótona, amarga, pesada como chumbo nos meus ombros de velha aos vinte anos.
Mas eu a perdoava. De coração aberto, eu esquecia o que ela tinha me feito. As desfeitas, as paixões fracassadas, os quilos engordados, as derrotas mais doídas, o medo, a insegurança...
Perdoei, como quem faz uma oração, daquelas que a gente inventa na hora.
Disse baixinho um "agradeço por me sentir amada. Por saber que existem testemunhas para esta que sou eu."
E foi sutilmente reconfortante. Beijei a todos imaginariamente...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O egoísmo nosso de cada dia...

A quem tentamos enganar comprando presentes nas eminências natalinas?
Que bondade é esta?
De onde vem tanta generosidade?
Eu penso assim: que se Deus existisse mesmo, e se o Natal simbolizasse esta existência grandiosa, que tudo sabe, tudo vê, creio que ele iria preferir que fôssemos autênticos.
Sejamos honestos. Não com os outros, que isso é escolha muito pessoal.
Mas que cada um honre a si mesmo admitindo aquilo que tem por dentro.
Neste ano não quero presentear ninguém. Não quer dizer que não gosto das pessoas que me cercam, ou que não lhes dou valor. Nada disso. Simplesmente não quero presentear ninguém. Exceto a mim mesma.
Acho que mereço.
Por isso comprei hoje um livro e me dei de presente. Fiz dedicatória, coloquei data, e me entreguei, saboreando as palavras com voracidade, admirando meu auto- carinho.
Que Jesus abençoe meu egoísmo.
Tenho pra mim que ele faz bem. Talvez muito mais do que se eu saísse por aí a distribuir lembrancinhas regadas com inveja, raiva e futilidade, como tantas vezes assistimos...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Eu conto

Chegou e foi direto conferir a tela do computador.
Há muito tempo era assim: parecia que uma voz dentro da cabeça dela ia narrando os próximos textos que escreveria. Via um velho escarrando no passeio, e já imaginava um título nonsense para suas postagens. Um menino mal criado fazendo manha no supermercado, e lá vinha aquela voz construindo frases que ela tentava não escutar.
Na fila do cinema às vezes deixava escapar umas palavras enquanto maquinava o novo ensaio sobre a desconfiança feminina. Ela procurava, aflita, vestígios da masculinidade dele, da qual sempre duvidara. Quem sabe uma prova de infidelidade não seria , no fundo, um alento?
- O que disse, Senhora?
- Hã?
- Não entendi o que a Senhora disse. Qual filme deseja assistir?
- Não, nada... só estava pensando... Me vê aí uma pra 'Abraços Partidos'.
- Inteira ou meia?
- Meia - entrada, por favor.
Era preciso tomar cuidado. Tinha que entender que nem sempre podia deixar as palavras saltarem de sua boca daquele jeito, como se estivesse no divã de seu analista.
As pessoas podiam se magoar com aquilo. E se magoavam.
Vez ou outra, durante uma conversa com um rapaz que tentava inutilmente conquistar seu respeito e sua admiração, ela imaginava um título pomposo para seu mais novo conto. Já conseguia rir das piadas que contaria, das falas patéticas que atribuiria ao personagem principal, levemente inspirado na nobre companhia que a entretinha naquele momento.
Ria, e isso lhe causava transtornos, porque nem sempre a risada vinha numa hora conveniente. Já aconteceu dela rir enquanto um rapaz contava de seu ritual na academia, de como se alimentava de forma saudável para ganhar mais cinco quilos de massa muscular. Foi nesta parte que ela imaginou o nick dele no msn, e quis tanto escrever isso no texto. "TÔ MALHANDO! INGRESSOS PRA CREAMFIELDS COMIGO. É NÓISSSSSSS".
E foi hilário quando ela olhou para ele, olhou bem, prestando bastante atenção, e reparou que ele tinha uma tatuagem de dragão no ombro. Na verdade era só o rabo. O dragão começava nas costas. Chinês, ele dizia. Ela riu. Uma risada gostosa, solta, que ela não podia e nem queria conter.
Ora, se o melhor daquela conversa, daquela cena toda, era o texto que ela já tinha escrito na cabeça.
É verdade que ela terminava as noites sozinha.
- Você é esperta demais, gata. Deste jeito, vai acabar sobrando. - falou um grandalhão que ela conheceu no carnaval, na maior cara dura, como se aquilo não ferisse.
Neste dia ela percebeu que alguns homens também escreviam contos de cabeça, enquanto conversavam com ela... Foi para casa, e chorou.
Não tanto pela crítica velada sobre sua arrogância, mas sim pelo tiro certeiro que aquele palhaço, de braços malhados e cabeça oca, tinha dado em seu coração: o que ela tinha era medo.
Medo de ficar sozinha.
De ter que escrever contos todas as noites, de imaginar frases de twitter que soassem sarcásticas o suficiente para ofender, de sentir nojo, desprezo, e desânimo muito mais do que amor, carinho e paixão.
De, como uma Scheherazade solteira, ter que inventar histórias para fazer dormir a desilusão que havia em si mesma, embalar sua solidão com palavras...
Ela tentava. Fazia de tudo para não ouvir os parágrafos que se formavam rapidamente, quando percebia como os casais, com o passar do tempo, iam se revestindo de uma fina camada de indiferença, que acabava por separá-los completamente, fazendo com que sobrassem entre eles apenas os insultos mais baixos . Tentava se esquivar das premissas duras, implacáveis, que assaltavam seus pensamentos.
No entanto, era em vão. Todo esforço, todo cuidado. Em vão.
Ela escrevia. Sem lápis, papel, caneta, teclado ou computador.
Ela escrevia.
E às vezes acontecia até de um texto vir com tanta força, que ela dormia, procurava se distrair, mas quando dava por si, o tinha decorado, ele estava lá.
Depois de algum tempo, então, se rendeu.
- Pois se queres vir, que venha!
E desde então, era assim.
Ela fazia o que tinha de fazer. Trabalhava, estudava, lia, ia ao cinema...e quando chegava em casa, como que por comodismo, ligava logo seu notebook.
Checava os emails. Respondia alguns. E depois escrevia.
Porque essa voz dentro dela era muito insistente.
E aturá-la sozinha seria doloroso demais.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Incógnita

Homem é bicho bobo.
Diz que não ama, mas sente saudades.
Diz que não pensa nela, mas quer saber se ela pensa nele.
Diz que prefere a solidão e o futebol, mas gosta quando ela chega e guarda as roupas no armário.
E eu me pergunto: por quê?
Homem é bicho esquisito.
Sorri meio de lado, como se quisesse esconder a alegria.
Nega que chorou naquele filme que ela insistiu pra ver com ele.
Finge não perceber quando ela corta o cabelo.
E eu me pergunto: por quê?
Homem é bicho acuado.
Vai embora antes de ser ferido.
Morde pra se defender.
E eu me pergunto: por quê?