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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tragédias cotidianas

Pensavam, cada um a seu modo, que os sentimentos tinham sucumbido aos problemas e ao cansaço. Que a admiração tinha cedido à preguiça de descobrir outras partes do outro. Que a tolerância acabara por causa de tantos olhares de reprovação, ou mesmo pela falta de olhares.
Não se falavam muito, a não ser trivialidades que deixavam as coisas tão entediantes que se arrependiam logo em seguida. Comentavam o tempo, a comida, ou alguma novidade da internet.
Enquanto isso, imaginavam coisas a dizer, histórias para contar, na tentativa de despertar novamente aquela alegria leve e fácil do primeiro jantar que tiveram juntos.
Mas naquela noite não conseguiram dizer quase nada, a não ser repetir as mesmas desculpas para justificar seus erros, e prometer novamente coisas que não conseguiriam cumprir. O tom de voz era aquele das discussões doídas, do sofrimento amadurecido, mas não menos intenso. Já não choravam, não havia susto ou surpresa o suficiente para provocar lágrimas.
Tudo indicava que o fim havia se instalado. Que ambos deveriam procurar outras formas de suportar seus medos e outros lugares para buscar suas alegrias. Que era necessário renovarem suas esperanças, seus sonhos.
No entanto, no meio daquela conversa dura e seca acabaram adormecendo. Cada um se aconchegou como pôde, puxou uma parte do cobertor, recostou a cabeça em um travesseiro. Tantas vezes aquela cama os tinha aproximado, mas naquele dia ela apenas os acolheu, cada um com suas dúvidas, com seus temores, com suas lutas.
No dia seguinte, ela levantou mais cedo, coisa que raramente acontecia, e sentiu fome. Preparou uma boa mesa de café–da-manhã e se serviu. Ele acordou bem depois e sorriu ao vê-la lavando a louça. Beijou seu pescoço e ligou a cafeteira, dizendo, como fazia há muitos anos: “Só acordo mesmo depois de tomar o meu café...”



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Presente para si mesmo

Estava entediada numa tarde como todas as outras, quando me veio a ideia de lhe comprar um presente. Muito menos pela generosidade do que pela necessidade de preencher o tempo com algo minimamente pessoal. Sem muita energia, corri os olhos por alguns sites de livrarias e sebos, tentando encontrar o que seria um presente ideal para você.
Depois de quarenta minutos, me vi sem nenhuma ideia de presente, e fazendo uma lista dos livros que eu mesma gostaria de ganhar, caso acontecesse de alguém, um dia, me perguntar qual seria o presente ideal para mim.
Tinha inclusive feito um breve ranking, que obviamente começava com um escritor russo do século XIX, e terminava com um latino mais atual. Nunca entendi muito bem essa minha fixação pela narrativa trágica russa. Talvez a combinação estranha de risos e desespero, de depressão, ironia e palhaçada.
O fato é que me recriminei durante alguns minutos por não só ter me distraído da tarefa de te presentear, como colocado a mim mesma e os meus desejos no seu lugar. Então eu era uma egoísta?
Foi aí que lembrei dos presentes que você me deu, e de como eles se pareciam muito mais com você do que comigo. De como eles apontavam para algo que eu poderia fazer, poderia ser, mais ainda não fazia, não era.
E me rendeu algum alívio perceber que você também se relacionava com uma versão ilusória e otimista de mim mesma, assim como eu me esforçava para te ver deixando de enxergar as suas partes que mais me enfureciam e decepcionavam.
Foi então que entendi que a gente se presenteava usando um ao outro como desculpa.
Que cada um amava o que queria, de si mesmo, através da imagem que suportava e que mantinha do outro. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Cicatrizes

"Poucas coisas assustam mais que a felicidade". O rápido insight veio enquanto cortava os limões para colocar na bebida que acabara de inventar devido à ausência de ingredientes adequados. Resolveu tomar alguma coisa para relaxar um pouco, porque a tensão dos últimos dias já estava comprometendo seu raciocínio - como se não bastasse ter comprometido seu humor.
Há muito tempo não ficava sozinha daquele jeito. Não apenas fisicamente, mas também sentia-se emocionalmente isolada, ainda que estivesse perto de gente que lhe fosse próxima. Na verdade, sentia-se distante de si mesma.
Não dormia bem, não conseguia cumprir suas tarefas. Não encontrava constância e tranquilidade em seus pensamentos. No divã do analista, deparava-se com a tarefa de responder à pergunta "O que há de errado?". Questão que ecoou, tomou consistência e fez com que ela amargasse outras noites de insônia, com todo aquele barulho.
Não sabia.
Lembrou das vezes em que percebia o que a incomodava: alguma coisa fora de ordem, fora do tempo, ou muito distante do (s) seu (s) desejo (s). Pensou ser triste e confortador saber pelo que se sofre.
Agora não sabia. Como na história que uma conhecida tinha lhe contado de uma família unida, amorosa, equilibrada, que mesmo assim não ia lá muito bem. Pais zelosos, filhos cuidados, carinho e respeito, e ainda assim, um dos membros se envolvera repetidamente em situações de risco, passara a viver nas ruas, se expondo a castigos e maus-tratos. Ficou intrigada quando a moça comentou a respeito daquele drama tão distante dela.
Lembrou-se de outra conversa, que teve com alguns amigos meses antes, na qual discutiam se era possível evitar que os filhos tivessem trajetórias muito opostas aos desejos dos pais em relação a eles. Mesmo não sendo mãe, defendeu com unhas e dentes que era. Que o destino das crianças era atravessado pela responsabilidade dos adultos sobre elas, que era possível - e era dever - pautar a criação das mesmas nestas incertezas e possibilidades futuras, preocupando-se com as consequências de cada passo dado.
Riu da própria ignorância quando se distraiu e cortou o dedo, ao partir o último limão. Foi um ferimento superficial, mas ela ainda não sabia, não tinha a menor ideia do que havia de errado.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pouco




Você não gosta muito quando eu te amo. No entanto, pede carinho e cobra cuidado. Mas não gosta muito. De quando eu olho para aquela cicatriz que você tem, e mexo em seus cabelos. Eu sempre lembro de você me contando como se machucou. Mas não acredito muito. Fico imaginando outras possíveis formas daquela cicatriz ter se formado. Talvez porque você tem várias delas pelo corpo, e eu confundo as histórias. Talvez porque suas cicatrizes sejam mesmo sua confusão. Mas vejo, percebo que você não gosta. De quando eu ligo com aquela voz diferente, no meio da correria do dia, e falo que te amo, totalmente fora de contexto. Ou de quando eu digo olhando pra você, e fica aquele silêncio, e então você sorri, meio sem jeito, e agradece, e até fala que é recíproco. Mas eu não acredito muito. E acho o cúmulo o seu agradecimento, e fico me perguntando que tipo de gente agradece por ser amada. E isso me faz lembrar de quando eu ia com a minha mãe visitar alguém, um parente, ou vizinho, e a pessoa servia algum quitute na sala. Existia uma cota, um acordo tácito de quanto eu podia comer sem ser inconveniente. Um, dois pedaços, no máximo. Não passava disso, ou então lá vinha o olhar fuzilante da minha mãe. Por isso, mesmo que depois o anfitrião fosse simpático, e quase implorasse pra eu comer mais daquilo que ele tinha comprado ou feito especialmente para nós, eu só dava um sorriso amarelo, exatamente como o seu, e dizia: "Obrigada".

Abandono, de Oswaldo Goeldi.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Suavemente

Sempre teve como princípio não sentir ciúme.
Princípio, porque era quase uma filosofia. Um estilo de vida. 
Para ele, sentir ciúme de alguém era inútil, uma perda de tempo, mesquinho e  infantil.
Vez ou outra se flagrou experimentando sensações estranhas, um rascunho de raiva, um naco de inveja, uma pontada de insegurança e de medo.
Ignorou todas elas. 
Era preciso ser prático: de que adiantaria se martirizar com pensamentos de que ela poderia perceber o quanto tinha errado ao se apaixonar por ele? Ou pior: de que valeria que alimentasse a ideia de que todas as mulheres que teve, ou ainda teria, poderiam se dar conta da farsa que ele era, como amante?
Pois essa possibilidade sempre existiu, e não seria por reforçá-la com medos e paranóias que se tornaria menos plausível. 
Fez então uma escolha - muito consciente - de assumir que sim, poderia ser abandonado a qualquer momento, sim, poderiam descobrir que seus esforços nunca foram suficientes, e sim, poderia se ver, de uma hora para outra, sem a companhia dela. Sem suas risadas, sem seus olhos cor de chocolate, sem seus recados no meio do dia, sem seus beijos.
Mas, caso isso acontecesse, não enfrentaria o ridículo luto dos apaixonados. Não se permitiria mendigar afetos, não voltaria a ficar exposto.
Preferira dividir a decepção e o fracasso que poderia viver no futuro em doses homeopáticas, que ia sorvendo dia após dia.
É verdade que ainda assim a ausência dela o faria sentir saudade,  mas esta seria devidamente aplacada por cargas extras de trabalho e preocupações com a família. 
Deste modo, poupava-se da tristeza que porventura poderia sentir. 
Recusava,de antemão, tanto o ciúme, quanto o pavor que ele carrega, o medo de não ser amado.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Muitos

Tinha sempre muitos interesses. Várias atividades ao dia, cada qual com um flerte ou amigo diferente.
Faltava à maioria delas. Marcava, agendava programas com deus e o mundo, e na hora h, não aparecia.
Era uma chuva forte, ou o filme novo que passou no outro cinema, do outro lado da cidade, e ela não pôde resistir. Era a prima que tinha ligado implorando para acompanhá-la num bar meio chato, mas que ela acabou indo, por pena ou sei lá o quê. Era a falta de grana, ou o excesso, que, sendo tão raro, a deixara com vontade de comprar roupas novas, e a fizera perder a noção do tempo no shopping. Era uma gripe, uma dor de cabeça, ou um simples mau-humor.
Mas faltava.
No outro dia, marcava de novo. Tudo outra vez. A mesma ladainha: desta vez eu vou, prometo, claro que não vou te deixar na mão... ah, mas você sabe como quero ir a este show... garanto que estarei lá às 18h!
Obviamente, faltava outra vez.
Acontecia também de chegar atrasada. Muito atrasada. Tão atrasada, que, ou bem o outro desistia e ia embora antes que ela chegasse, ou a esperava, mas já tão invadido de raiva, que o encontro se tornava insuportável.
E era sempre este roteiro: marcar, tentar, se esforçar, acontecer o inesperado, pensar que daria pra chegar, não ir.
Culpava-se, ao contrário do que pensavam as pessoas.
Um dia chegou a se perguntar, com a sinceridade daqueles 2 ou 3 segundos em que somos cruelmente verdadeiros a nosso respeito, por que diabos fazia aquilo.
Por que ter tantos compromissos, tantos objetivos, tantas coisas para fazer, e entregar, e tanta gente pra visitar, e textos atrasados, e ginástica por fazer... pra quê tudo aquilo se sabia muito bem, lá no fundo, que não faria absolutamente nada?! Ou, se fizesse, faria de um jeito tão anônimo e artificial, que nem sequer teria coragem de mostrar a ninguém.
O fato é que tinha interesses demais. Ideias demais. Ia pulando de um pensamento ao outro, sem concluir quase nenhum. E assim, no final do dia - que, pra muita gente, já era o começo -, levava para a cama toneladas de angústia e mal-estar por não ter sido quem deveria. Dormia pouco, tinha pesadelos, e acordava cansada.
Assim passou muitos anos sem ter que se confrontar com aquele assunto.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Spigui e Mme Cs

De acordo com a classificação do CID-10, nos episódios depressivos a pessoa "apresenta um rebaixamento do humor (sim), redução da energia (sim) e diminuição da atividade (sim). Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer (sim), perda de interesse (sim), diminuição da capacidade de concentração (sim), associadas em geral à fadiga importante (sim), mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono (sim) e diminuição do apetite (definitivamente não!). Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima (néam?!) e da autoconfiança e frequentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade (totalmente sim), mesmo nas formas leves."
A maioria destes ítens se apresenta hoje em meu estado de espírito. Mas outros também se agregam, mesmo que de forma efêmera, à inusitada colagem de afetos que me compõe agora. Entre eles, súbitas vontades de morar em lugares distantes, de nunca mais ver um rosto conhecido, e começar a vida do zero, de sair com o melhor vestido de festa e beber quantos Mojitos o corpo aguentar, de ficar deitada no sofá para todo o sempre, usando meus últimos reais para contratar o irmão mais novo para me trazer comida e água...
Entretanto, tais desejos radicais me dão as costas com a mesma intensidade com que brotam. Não duram nem o tempo necessário para que eu decida qual é o meu melhor vestido de festa...
No fim das contas, continuo de camisola, mudando de canal, verificando atualizações na net...
Eis que a consciência, meio bêbada ainda, acorda, cutuca revoltada o superego desleixado e flácido, berrando que uma dissertação de mestrado deve ser escrita imediatamente.
Posso ouvir seus gritinhos estridentes (sim, pois é uma magrela infeliz a minha consciência): "Onde ela pensa que vai chegar dessa maneira? Além de tudo, sabe há quanto tempo ela não faz ginástica? Acha que pode ficar comendo pizza depois dos 25?"
Com a complacência que lhe é característica, meu robusto superego afirma, cansado e revirando os olhos daquele jeito irônico que só eu mesma sei imitar: "Ora... mas o que quer que eu faça?? Mais pensamentos ruins do que os que eu tenho lhe enviado mente adentro é impossível!! E já usei de todos os recursos... pesadelos com monstros da infância, terrores noturnos, medos de abandono, fantasias de suplícios... nada parece funcionar! Já me sinto cansado, fraco... sinceramente, perdi o gás..."
A consciência retruca: "Eu te avisei! Avisei, avisei!! Desde o princípio te disse que acostumava essa menina muito mal! Todas aquelas concessões, aqueles caprichozinhos que concordava em deixá-la realizar, e tudo sem nenhum castigo! Só poderia dar nisso! Agora, me diga, como ficamos??"
Eu, penalizada pelo meu camarada supergo (que eu carinhosamente chamo de Spigui), e pelo esfrega que estava levando, tento dizer à cs que ele realmente tentara fazer um bom trabalho comigo, e tudo mais. Mas, como aqueles treinadores que amam seus atletas como se fossem filhos, não conseguia me punir verdadeiramente, já que cada repreensão acabava sendo tão doce quanto a própria subversão cometida.
Intolerante, mal educada, e de uma arrogância ímpar, a Senhora Cs me arrebita o nariz e afirma que se necessário fosse corrigiria os erros de Spigui com mãos de ferro. Que nunca em toda sua vida conhecera ser tão desmazelado, inconsequente, cuja  moral fosse tão questionável e a conduta tão tortuosa como eu, e que não mediria esforços para mudar tal situação, já que, se afundasse esta Comandante Sparrow, afundariam também ela e Spigui, o que jamais permitiria enquanto vivesse.
Até este momento, estava disposta a relevar sua agressividade e sua histeria, ignorando o ataque justiceiro da Senhora Cs, pois sabia que sem um aval do meu aliado ela não tinha muitos poderes. Entretanto, soltou uma última frase, entre dentes, com voz rouca e grave, que conferiu mais severidade ao que disse, que me fez mudar de idéia:
"Sem falar nestes quilinhos a mais...que lhe fazem perder até mesmo o charme das jovens desmioladas...".
Brutalmente ferida, humilhada pelo golpe baixo de Mme Cs, saí repentinamente de minha prostração e tomei a atitude mais enérgica que me foi possível no momento. Decretei, aos gritos e safanões, que não a queria mais morando sob o mesmo teto que eu. Ou melhor, que não a queria morando sob o meu teto, que arrumasse imediatamente suas coisas e partisse tão logo quanto possível! Que não mais toleraria este tipo de insulto torpe em minha própria mente, e que este acontecimento servisse de exemplo para todos os outros que ousassem me afrontar!
Orgulhosa até o fim, Senhora Cs não se rebaixou, não se desculpou nem voltou atrás. Fez as malas, partiu sem nem mesmo um suspiro mais longo que revelasse qualquer traço de pesar. Ainda que Spigui tenha tentado interceder a seu favor, não lhe dei ouvidos.
A velha se foi. Ficamos só eu e ele.
Meu velho amigo.
Nós dois e a calmaria.
Nada de gritos.
Sonharíamos juntos os mais belos pesadelos.
Faríamos nada por tardes, madrugadas, semanas a fio...
Perderíamos prazos, gastaríamos dinheiro de forma irresponsável.
Saborearíamos o pavor de não conseguir realizar as tarefas a tempo, de não estar à altura da expectativa alheia, de fracassar de forma magistral e definitiva.
Ah, como seria belo este estrago. Que liberdade pode se encontrar assim!!
Vislumbrando tanta decadência terna, fomos à locadora, eu e Spigui.
"O que vai ser hoje, amigo? Comédia?"
"Ora, minha querida, não brinque assim... sabes muito bem que será Terror".

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cadência

Nunca fui uma pessoa feliz. Quando criança, não era feliz. Eu chorava. Não achava graça nas brincadeiras dos meus colegas. Me chamavam de esquisita.
Eu desconfiava de tudo. Odiava os velhinhos que nos davam chocolates e biscoitos, estes que têm pinta de vovôs sem netos. Meus amigos adoravam-nos. Pegavam suas guloseimas como ratinhos famintos. Eu nunca aceitava. Adivinhava a maldade escondida por trás daquelas rugas e pantufas.
Na adolescência, era pior. O mundo já era ruim o bastante para mim desde sempre. Desde que me entendia por gente. Mas quando entrei na puberdade, descobri que as coisas ainda podiam piorar. Eu era feia. Os meninos do meu colégio não olhavam para mim. Nem eu pra eles. Chamava-os, em segredo, de perfeitos imbecis inúteis. Nome pomposo, para contrastar com a insignificância de meus colegas na minha vida. Idiotas. Não namorei. Não gostava de conversar. Preferia ficar em casa, trancada em meu quarto, onde podia destilar melhor meu ódio. Pensar em tudo que gostaria de fazer com minha família... Acreditem, não eram pensamentos puros...
Um belo dia, minha mãe inventou que eu devia me crismar. É, aquela palhaçada religiosa. Crisma: um sacramento, confirmação de um laço com a Igreja, era o que eles diziam. Laço com a Igreja? Só se for a Satânica, eu pensava. Acho que a monitora de crisma foi a primeira pessoa que planejei matar.
Eu sei, falei da minha família. Mas a eles eu só desejava fazer sofrer. Machucados, lacerações, torturas psicológicas. Nossos laços patológicos eram intensos demais para deixá-los ir assim tão fácil. Não, não queria que eles morressem.
Mas a monitora... ah, esta sim. Desejei matá-la. Uma punhalada, certeira, bem no meio do coração. Imaginava um coração, como a gente via no laboratório de biologia da escola, um de boi, sendo partido ao meio, o sangue jorrando, e ele parando aos poucos de bater.
Me deliciava com esta imagem enquanto aquela idiota falava de amor, de Jesus... ela usava a palavra 'Cristo'. Acho que nunca falou Jesus. O nome dele. Cristo... O modo como ela pronunciava 'Cristo' só me fazia pensar mais e mais em uma forma de matá-la. Ela dizia, o sangue jorrava na minha imaginação.
Conheci o que era sexo aos vinte e seis anos de idade. O canalha não acreditava que eu fosse virgem. Riu da minha cara, o babaca. Subiu em cima de mim como um porco, grunhiu feito um animal, como aqueles que eu via na fazenda do meu avô quando era pequena. Lembrei de quando capavam os bichos. Amarravam as patas deles, cortavam o saco com um golpe rápido, e escorria um fio grosso e vermelho. Os porcos faziam um barulho horrível. De sofrimento. Minhas primas tinham medo, ou aflição, sei lá. Parece que não suportavam ver um ser agonizando. Eu gostava. Ouvia tudo, enquanto elas tapavam as orelhas com as mãos.
Quando o homem saiu de cima de mim, depois de me esporrar como se fizesse com uma puta qualquer, senti vontade de laçar seus braços e pernas com uma corda bem firme. O pensamento que me martelava a mente era que eu gostaria muito de castrá-lo, igualzinho faziam meus tios e meu avô. Como o porco que ele era. E ele, o homem, com aquele sorrizinho babaca, com aquela cara de satisfeito, aquele membro meio flácido, perguntando se eu tinha gozado.
Meu casamento aconteceu quando eu achei que poderia viver o resto de minha vida em paz, sozinha. Conheci o Sandro num bar que costumava frequentar, perto de onde eu morava. Gostava de ir lá quase todas as noites, pouco depois de voltar do trabalho. Enchia os cornos, trocava duas palavras com o cara do bar, e depois ir embora. Dormia bem, bêbada.
O Sandro destoava daquele pulgueiro. Era fino, elegante. Usava roupas de marca, sapatos caros. Tinha uma caneta daquelas 'Mont Blanc' no bolso, que costumava usar pra preencher os cheques quando ia pagar a conta. Vez ou outra o vi preencher cheques e entregar a algumas vagabundas. Pagava puta com cheque, o engomadinho?
Me divertia vendo a bizarra combinação daquele filhinho da mamãe com aquele bar asqueroso. Sim, porque o lugar era um inferninho. Até eu tinha nojo. E por isso mesmo é que voltava lá, quase sempre.
Sandro e eu começamos a transar nem me lembro mais como, nem por que.
Eu o desprezava profundamente. O chamava de bebê chorão. O apelido veio porque ele chorou na primeira noite que saiu comigo. Me comeu chorando, imaginem que patético.
Contou que a mulher tinha morrido, parece que em acidente de avião. E eu pensei: " E eu com isso?". O Sandro só sabia chorar. Um babaca.
Casamos só no civil, sem festa, sem cerimônia religiosa. Também, quem é que eu poderia convidar? Não tenho amigos. Nem amigas, o que eu agradeço. Detesto as mulheres. Insuportáveis seres. Falam, fofocam, comem, se enfeitam... vacas!
O Sandro ainda tinha uns cinco ou seis bons amigos quando nos conhecemos. Da época que ele era casado com a Marina, sua ex- mulher. Dois casais, mais o Marco e o Paulo.
Costumavam vir aqui em casa, traziam vinho, presentes para mim, na maioria das vezes objetos de decoração para a casa. Eu nunca agradeci. Pegava o embrulho como que por obrigação. Guardava no fundo do armário, ou quebrava. Nos dias em que meu marido estava especialmente triste, eu gostava de quebrar os presentes que seus amigos me davam. Ele chorava mais. Era bom, eu pensava, que assim ele ia entendendo que sofrimento nunca é demais...
Depois de um tempo, todos abandonaram o Sandro. Não aparecem mais aqui. Ás vezes mandam cartões de Natal ou aniversário. Eu gostei. Melhor assim.
O Sandro não usa mais roupas de grife. Emagreceu, ficou com uns olhos fundos e uma cara de cansaço permanentes.
Compramos uma casa na praia. Vamos sempre pra lá. Ele se senta na varanda e lê Poe. Eu fumo, cuido do jardim, e preparo as refeições.
Não conversamos com os vizinhos. Nunca fomos a uma festa para a qual nos convidaram. Não tivemos filhos, e agora eu já estou velha demais.
Melhor assim. Morreremos os dois juntos, aqui na casa da praia, com roupas puídas, a casa deteriorada pelo tempo. Não faremos reformas.
Ainda passo o tempo imaginando aquele coração sendo partido ao meio. Um só golpe. talvez um machado, ou um facão bem afiado. E ele se divide em duas metades, que vão lentamente parando de se movimentar. O pulsar cessando aos poucos, o sangue saindo por todos os lados.

Judith e Holofernes, de Artemísia Gentileschi.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Livro de receitas

E ele disse "gosto de você". Assim, sem mais nem menos. E foi tão inesperado, que ela nem reagiu. Não retribuiu o gostar, não falou que ainda era cedo para dar declarações de afeto, não fez sequer semblant de indiferença. Ficou ali sentada, olhando pro quadro na parede, pensando no que tinha esquecido de comprar no supermercado.
Lembrou-se de que no dia anterior a tia avó fizera aniversário. Ela nem mesmo tinha ligado, desejando felicidades. Nem ligaria. Não era um costume seu. Pensou nas tardes que passava na casa da vó Matilde - era este o nome da velha - quando ainda era bem pequena. Podia sentir o gosto daqueles biscoitos que comia com tanta voracidade. A mãe não gostava que ela se comportasse assim. A olhava com enormes olhos de coruja, claros, límpidos, exalando toda maldade que ela sentiria mais tarde, quando levasse uma surra. "Já não te ensinei que na casa dos outros não se come como uma desembestada? Parece até que deixo meus filhos passando fome!"
Mas não era a "casa dos outros"... era casa de vó Matilde. E lá parecia outro mundo. Os móveis antigos, de madeira escura, as toalhas bordadas que enfeitavam as mesas, a louça bonita, cheia de desenhos... Lá as pessoas não falavam naturalmente, sussuravam umas com as outras, apontavam para a velha dona da casa fazendo sinais e trocando olhares cúmplices.
Talvez este clima de mistério, de não- dizer, fosse o que mais a atraía naquela casa. Adorava visitar a vó Matilde. Não só pelos biscoitos amanteigados que ela servia, mas também pela empreitada sobre a qual se debruçava: de que será que falavam os adultos?
E de repente ele voltou a dizer. Gosto de você, ele disse.
E ela não teve como escapar. Olhou bem para ele, e ele fitando seus olhos como um detetive em serviço.
O que ele quer de mim? - pensou.
O que é que está dizendo?
Não sabia o que pensar. O que deveria sentir?
Pensou que era como se vó Matilde encarnasse nela. Já estava velha, apesar de seus poucos anos.
Não compartilhava do amor. Não sabia o que fazer dele.
Ah, como queria servir ao moço uma bandeja daqueles amenteigados...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Chuva no passeio

Quando eu era menina, gostava de desperdiçar amores.
Jogava fora aqueles que eu conseguia com grande esforço.
O coleguinha da escola, que só me olhou quando lhe emprestei a caneta na prova de matemática.
O menino da fazenda, que sempre tivera os olhos hipnotizados por minha prima.
Difícil convencê-lo de que eu também podia ser bonita, ou interessante.
Mas por fim, o venci pelo cansaço.
E foi aí que o deixei cair através da janela do meu quarto.
Lá de cima, do alto do prédio, via os pedacinhos de amor se espalhando pelo passeio.
Não me arrependia.
E não quero parecer altruísta: não era por culpa ou bondade.
Era só por desperdiçar.
Guardava numa caixinha, junto com meu único brinco de ouro e uns dentes de leite, as mágoas que mais me haviam ferido.
Muitas de mãe, tantas de pai.
Poucas de irmãos.
Menos ainda dos outros.
Algumas eram tão pequenas, e já tão antigas, que entravam numa espécie de estado de decomposição.
Iam perdendo os fragmentos, as palavras se desprendiam, algumas letras caíam...
e quando me dava na telha de remoer minhas mágoas, algumas eu já não conseguia.
No meio da frase agressiva, lá se tinha ido o palavrão. Cadê aquele safanão que eu lembrava ter guardado aqui?
As mágoas sofriam metamorfoses.
Algumas pareciam o bolo que mamãe fazia aos domingos. De uma hora para outra, cresciam de tal maneira, que temia que minha velha caixinha de veludo vermelho arrebentasse, e voasse tristeza para todos os lados.
No entanto, isso nunca aconteceu.
Por mais que as mágoas crescessem, sempre couberam lá dentro.
Pensando agora, deve ser por causa das outras que diminuíam de tamanho... faz sentido.
Mas eu dizia que gostava de desperdiçar amores.
Não é que os desprezasse.
Eu gostava deles. Era realmente duro consegui-los.
Mas a visão dos pedacinhos se espatifando lá embaixo era tão linda... uma chuva de amores perdidos, pra quem tivesse passando na rua...
Quem sabe uma velhinha não tomava para si o amor do fazendeiro?
Além do mais, todos os dias espiava minha caixinha de veludo.
Meu jardim de magoazinhas.
E aquilo era uma beleza de se ver: como se moviam, como mudavam, e viviam por elas mesmas.
Era um mundo à parte, aquela caixinha.
E me fascinava demasiadamente.
Desde então achava os amores chatos...eram bobos, redondos, brilhantes.
Bonito mesmo era vê-los cair.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A pobreza de Narciso

Curvado diante de uma fonte Narciso observa impassível sua imagem refletida na água. De acordo com a lenda conhecida, tal experiência é de tamanha intensidade que o leva à morte.
Acobertado por sua parafernália masculina aquele homem tem passado os últimos dias esnobando sua parceira. Ele ignora seus ataques de ciúme, vai pra cama mais cedo quando ela decide falar de suas inseguranças, e sustenta debilmente um olhar travestido de desejo para outras mulheres que o cercam.
Este personagem nunca disse para a mulher que a amava, nem mesmo na noite em que ela, de forma patética, balbuciou um "eu te adoro tanto..." enquanto ele fingia dormir. Ele, aconselhado pelos amigos, foge das cobranças femininas como o diabo da cruz, alegando, com um ar blasé "não querer dar satisfações a ninguém".
É verdade que ele a trata com respeito, e até certo cuidado. Mas rechaça qualquer vestígio de contaminação amorosa. Se diz livre, sedento por conhecer muitas outras pessoas. No entanto priva-se de conhecer aquela mulher que vive bem ali, na sua frente. Ele esquece os casos de família mais engraçados que ela já contou, não se lembra de seus gostos e preferências na hora de escolher um presente. É, enfim, um "distraído".
Distraído que teme se ver vítima de traição. Sonda, procura, olhando de soslaio, sintomas de infidelidade nos pertences da parceira. Age como um detetive trabalhando à paisana: não pode se deixar flagrar.
Raramente nota-se nele o menor sinal de vacilação. Quase imperceptível. Uma tensão discreta que se anuncia palidamente nos gestos, olhares, na voz quando sente que ela poderia ir e não mais voltar.
Aterrorizado diante do perigo de ser devorado, consumido, submisso às agruras amorosas, ele se encarcera na posição de homem independente, imune aos efeitos da paixão.
A pobreza de nosso Narciso às avessas é a cegueira de se deixar acorrentar na engrenagem que movimenta sua personalidade forjada. Tentando escapar do pavor do abandono, da dependência do outro, da dor da falta, o personagem cede à estereotipia da negação. Veste a si mesmo com uma máscara que anda a exibir por aí, e tanto engana quanto esfola, na medida em que retira dele a possibilidade de sentir-se amado. De amar e desejar.
Narciso, preso à sua imagem refletida, vai aos poucos se afogando nesta metáfora: embebedando-se de si mesmo , indo cada vez mais fundo, lá onde não possam mais olhar para ele.

 
Narciso (1594-1596), de Caravaggio.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sem calcinha


- Sem calcinha.- ele disse.
- Hã?
- Sem calcinha. Quando voltar quero que você venha sem calcinha. De saia, ou de vestido, se preferir... sem nada por baixo... entende?
- Hum.
- Vai vir?
- Não sei.
- Ah,vai... tô te pedindo...
- Pra quê? Que idéia é essa,agora?
- Sei lá. É tipo uma fantasia que eu tenho. Você chega, eu te agarro e pá!!!!
- Sei...

Breve silêncio enquanto ela amarra os cabelos num rabo-de-cavalo olhando-se no espelho do banheiro. Acabavam de fazer amor. Ele ainda deitado, pensativo, na poltrona. Ela, só de calcinha, admirava os próprios seios. Rompeu o silêncio:

- Pois eu tenho outro tipo de fantasia...

Andou até o sofá e sentou-se ao lado dele, passando a mão em seus cabelos úmidos de suor.

- Qual? Fala! - os olhos dele exprimiam uma voracidade absoluta.
- Eu entro.
- Não. Você bate na porta e eu vou abrir...
- Cala a boca! A fantasia é minha. Vai ouvir ou não?
- Fala.
- Eu chego. Entro sem bater. Chamo e você vem caminhando na minha direção. Depois mando você tirar a roupa e deitar na cama...
- Insossa.
- Quê?
- Fantasia insossa essa sua.
- Você deita na cama , e eu deito por cima. Chego bem pertinho do seu rosto. Tão perto que dá pra sentir sua respiração. Faço que vou te dar um beijo...e é aí!!!! Nesse ponto!
- Nesse ponto o quê?
- Nesse ponto, quando eu devia te beijar... eu te bato.

Ele ri. Ela prossegue:

- Mas não um tapinha no rosto, que isso é coisa de mulherzinha. Uma boa bofetada. Dessas de tirar sangue... Murros... muitos socos nesta sua cara de bobo, de babaca seduzido. Uma surra completa, isso é o que seria! E com direito a chutes, chicotadas, e cinzeiros jogados na cabeça. Deixar o quarto todo quebrado, a cama toda suja deste seu sangue imundo.

Silêncio. Ele visivelmente assustado.

- Depois sabe o que eu faria?
- Hã?
- Me vestiria e iria embora. Sem calcinha.

Ela ri. Ele se levanta, vai ao banheiro, lava o rosto e diz:

- Você não entende nada de fantasia sexual.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Ridículo

Quase não dava para notá-lo no meio daquelas pessoas.Um tipo magro,comum,de tênis e óculos.Sempre andava com uma sombrinha enorme,para usar caso chovesse.Sua estranheza era disfarçada por sua habilidade verbal,sua simpatia artificial e sua boa vontade forjada.Quem olhasse de relance o acharia normal.Mas na verdade,ele era ridículo.
O Ridículo atravessava os corredores pensando em quem poderia surpreendê-lo ali.O que diria se algo saísse errado?Que resposta daria a perguntas capciosas?Ia elaborando mentalmente um plano para lidar com questões de urgência.Fazer isso,fazer aquilo...tecia manuais de conduta no caminho para a casa,já que não precisava se preocupar com o menu do jantar:comia sempre o mesmo.
Depois da sobremesa ele consultava sua agenda,onde marcava com caneta azul os compromissos cumpridos,e com caneta vermelha os que foram adiados.Quase sempre honrava seus compromissos.Mas será que isto o fazia honrado?
Ele seguia seus horários.O dia era dividido entre trabalho,um pouco de exercícios físicos e estudo.Mas não se engane,caro leitor.Ele não se exercitava por prazer, mas por necessidade.O médico havia recomendado,para aliviar umas dores lombares.E se havia algo que ele sabia fazer era seguir recomendações.
O Ridículo às vezes se deparava com grandes problemas: sabonete neutro,ou de glicerina? Ora,a pele poderia ficar irritada...Aliás,isso ele ficava com frequência.Bem irritado.Irritado com o trânsito,com a cafeteira que não funcionava,com o tempo chuvoso,com o barulho da obra do vizinho...O Ridículo vivia irritado,mas apenas seu estômago sabia.Ele desenvolveu,com o passar do tempo,uma gastrite nervosa.Odiava o vizinho da frente,mas sorria quando o encontrava no elevador.
É preciso ser claro: o Ridículo era um sujeitinho bem apagado.Parecia que sua vida tinha acontecido assim,sem grandes surpresas,sempre sendo conduzida por outras mãos,decidida por convenções,definida por boas propostas.
O Ridículo era um bom profissional.Afinal,ele havia sido um bom aluno-como mandara o papai,havia se especializado-segundo sugestão da mamãe,e mantinha boas relações com os colegas-orientado pela esposa.Trabalhava razoavelmente,obtinha boa renda.Rezava antes de dormir.Sim,ele acreditava em Deus,mas não frequentava igrejas,pois temia ficar fanático como alguns evangélicos,ou conservador demais como alguns católicos.Era mais prudente rezar em casa.
Ele falava várias línguas.Aprendera cedo,foi a única criança na sua família que aproveitou as aulas de inglês.Os primos matavam aula pra jogar futebol.Ele não.Aquilo não era certo.E se papai descobrisse?Não,ele não se arriscava.
O Ridículo passou toda a sua vida tentando se esquivar de um contratempo,de uma falta,de um erro.O que mais o angustiava era a imagem daquele velho apontando e dizendo pra ele:"você só serve pra puxar carroça!".Como ele ficava apavorado só em supor que poderia ser punido!
O que ele não entendia era que ele nunca seria sancionado.Pois até para inimigo escolhe-se o melhor.E francamente,que graça poderia haver em ter por desafeto um homem assim tão insípido?Afinal,era um homem?Ou tratava-se de um boneco de cera?
O Ridículo ganhou este nome em uma ocasião especial.Sua vida foi atravessada por uma pergunta que só nos é colocada uma única vez:Estás feliz com o que tu és?Queres mudar?</ Ele respondeu de pronto:Não!Pois não era mesmo feliz.Mas tampouco desejava ser outro."Prefiro ser assim.Este serzinho ridículo..."