sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Ridículo

Quase não dava para notá-lo no meio daquelas pessoas.Um tipo magro,comum,de tênis e óculos.Sempre andava com uma sombrinha enorme,para usar caso chovesse.Sua estranheza era disfarçada por sua habilidade verbal,sua simpatia artificial e sua boa vontade forjada.Quem olhasse de relance o acharia normal.Mas na verdade,ele era ridículo.
O Ridículo atravessava os corredores pensando em quem poderia surpreendê-lo ali.O que diria se algo saísse errado?Que resposta daria a perguntas capciosas?Ia elaborando mentalmente um plano para lidar com questões de urgência.Fazer isso,fazer aquilo...tecia manuais de conduta no caminho para a casa,já que não precisava se preocupar com o menu do jantar:comia sempre o mesmo.
Depois da sobremesa ele consultava sua agenda,onde marcava com caneta azul os compromissos cumpridos,e com caneta vermelha os que foram adiados.Quase sempre honrava seus compromissos.Mas será que isto o fazia honrado?
Ele seguia seus horários.O dia era dividido entre trabalho,um pouco de exercícios físicos e estudo.Mas não se engane,caro leitor.Ele não se exercitava por prazer, mas por necessidade.O médico havia recomendado,para aliviar umas dores lombares.E se havia algo que ele sabia fazer era seguir recomendações.
O Ridículo às vezes se deparava com grandes problemas: sabonete neutro,ou de glicerina? Ora,a pele poderia ficar irritada...Aliás,isso ele ficava com frequência.Bem irritado.Irritado com o trânsito,com a cafeteira que não funcionava,com o tempo chuvoso,com o barulho da obra do vizinho...O Ridículo vivia irritado,mas apenas seu estômago sabia.Ele desenvolveu,com o passar do tempo,uma gastrite nervosa.Odiava o vizinho da frente,mas sorria quando o encontrava no elevador.
É preciso ser claro: o Ridículo era um sujeitinho bem apagado.Parecia que sua vida tinha acontecido assim,sem grandes surpresas,sempre sendo conduzida por outras mãos,decidida por convenções,definida por boas propostas.
O Ridículo era um bom profissional.Afinal,ele havia sido um bom aluno-como mandara o papai,havia se especializado-segundo sugestão da mamãe,e mantinha boas relações com os colegas-orientado pela esposa.Trabalhava razoavelmente,obtinha boa renda.Rezava antes de dormir.Sim,ele acreditava em Deus,mas não frequentava igrejas,pois temia ficar fanático como alguns evangélicos,ou conservador demais como alguns católicos.Era mais prudente rezar em casa.
Ele falava várias línguas.Aprendera cedo,foi a única criança na sua família que aproveitou as aulas de inglês.Os primos matavam aula pra jogar futebol.Ele não.Aquilo não era certo.E se papai descobrisse?Não,ele não se arriscava.
O Ridículo passou toda a sua vida tentando se esquivar de um contratempo,de uma falta,de um erro.O que mais o angustiava era a imagem daquele velho apontando e dizendo pra ele:"você só serve pra puxar carroça!".Como ele ficava apavorado só em supor que poderia ser punido!
O que ele não entendia era que ele nunca seria sancionado.Pois até para inimigo escolhe-se o melhor.E francamente,que graça poderia haver em ter por desafeto um homem assim tão insípido?Afinal,era um homem?Ou tratava-se de um boneco de cera?
O Ridículo ganhou este nome em uma ocasião especial.Sua vida foi atravessada por uma pergunta que só nos é colocada uma única vez:Estás feliz com o que tu és?Queres mudar?</ Ele respondeu de pronto:Não!Pois não era mesmo feliz.Mas tampouco desejava ser outro."Prefiro ser assim.Este serzinho ridículo..."

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