Estou cursando ,a duras penas,uma matéria sobre um psicólogo que teoriza sobre o sentido da vida a partir de suas experiências num campo de concentração.
Frankl pensa que quando se tem um motivo pra viver,sobrevive-se a (quase)qualquer coisa.
Em certo ponto concordo com ele.
Em outros,vou na contramão.
Explico: não acredito que possamos encontrar o sentido da vida,simplesmente por crer que ele não existe.
Acho que a vida não tem um sentido a priori.
Talvez inventar um seja nosso maior desafio.E ele tem de ser criado.Aí concordo com Frankl.Sem um sentimento de sentido da própria existência, o sujeito cai no desespero.
Devo confessar que o tom que o autor utiliza para expressar suas idéias me causa bastante desconforto.
É uma escrita cheia de exemplos bem sucedidos de únicas sessões que levam a uma mudança definitiva e muito significativa na vida daquele que mergulha em suas questões existencias.Não acredito nestes "milagres".Mudança exige muito trabalho,muita repetição. Além disso,Frankl critica a psicanálise o tempo todo,afirmando que a logoterapia,ao contrário da teoria freudiana, trabalha as questões humanas do paciente.
Questões humanas?
Ora,pra mim não há nada de desumano em pedir a um sujeito que fale,como e quando quiser,daquilo que o angustia,daquilo até que ele julga indigno de atenção.
Pra mim estas são questões humanas.
Mas vamos parar com a picuínha.
Toda esta história é pra dizer que me deparei com uma frase que dissolveu minha antipatia logoterápica em segundos.Vale reproduzi-la:
"Nada pode ser desfeito,nada pode ser eliminado;eu diria que ter sido é a mais segura forma de ser."
Fiquei muito impressionada com esta sentença. Ter sido é uma forma de ser.O que já foi,ainda,teimosamente,permanece.
Qualquer semelhança com a psicanálise não é mera coincidência.Risos.
Mas,fazendo uma fajuta auto-análise, acho que o peso que esta frase teve para mim se deve ao processo de luto pelo qual estou passando.
Conforta saber que ninguém tira de nós o que foi vivido.
Fragmento de uma sessão de análise de um garotinho que perdeu o pai:"Ele morreu, mas vai sempre existir na minha cabeça.E também no meu coração."
Talvez eu tenha,ironicamente,encontrado um sentido ,senão da vida,pelo menos desta disciplina de Frankl.
Acredito que ele deve ter ficado feliz,lá onde está,ao ver que depois de tanta resistência entendi o que aqueles textos queriam dizer.
Valeu MUITO a pena ter conhecido a logoterapia de Frankl.Mesmo que só por causa desta frase.
Talvez as núvens estejam se afastando,dando lugar a um novo céu,um novo teto,uma nova configuração em meu psiquismo.
Não é preciso mais tanta briga.
Se o que foi ainda é,ninguém me tira.
Está aqui comigo,como ensina o menininho,na cabeça e no coração!
3 comentários:
Certamente tinha razão Bakhtin quando afirmou que "a consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais". Isso já seria muito provocador se ele ainda não acrescentasse: "Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica e suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social". E pra finalizar ele derruba, dizendo: "Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada. A imagem, a palavra, o gesto significante, etc. constituem seu único abrigo". Disse tudo. [Bakhtin, 1929:35-36].
Fábio Nery
que bom que não foi difícil só pra mim! Rá!
Postar um comentário