quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre liberdade, champanhe e feminismo

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam 

mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo 

Eu preciso me mostrar

Bonita 
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém 

Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos 

Os desejos que ele tem
Ao me ver passar bonita
Hoje eu arrasei na casa de espelhos
Espalho os meus rostos 

E finjo que finjo que finjo 
Que não sei


A mais bonita, Chico Buarque de Holanda (1989). 




"Não solidão, hoje não quero me retocar". Chico Buarque começa sua canção nos apresentando o lamento de uma mulher que não se sente confortável diante dos padrões de beleza socialmente estabelecidos. Mas logo na segunda estrofe, ele muda o tom e a moça nos surpreende orgulhosa da aparência, confessando que se esbalda no exercício narcisista de se exibir. "Finjo que estão me vendo, eu preciso me mostrar... bonita". A melodia da música acompanha essa virada: se no início nos transmitia uma tristeza das "águas que invadem o rosto" da mulher oprimida, logo depois nos faz cantarolar contentes a beleza de alguém. 

Há quem diga que as músicas de Chico são machistas por retratarem a mulher quase sempre numa posição de submissão, seja ao parceiro, ou ao mundo regido por ideais masculinos. É difícil dar um veredito sobre obra tão vasta e heterogênea, de modo que prefiro não classificar o Chico disso ou aquilo. O que percebo em muitas de suas músicas, e nesta em especial, é que ele expõe uma situação tensa, uma contradição, em termos e modos suaves, dando a impressão de que aquela cena é normal, natural, aceitável. Quando o ouço dizer "bonita, para que os olhos do meu bem não olhem mais ninguém. Pra saber como levar todos os desejos que ele tem...", entendo que quer nos mostrar a dificuldade dessa tentativa feminina de enfrentar e escapar de um ideal estético aprisionante. 

A moça da música começa dizendo que não pretende mais disfarçar a tristeza e se adequar à imagem retocada, perfeita. Quer fugir dos salões onde se penteiam mágoas. No entanto, quando menciona seu companheiro parece esquecer sua posição crítica e se compraz em afirmar que pode capturar todos os olhares e desejos do amado se for bela o suficiente...O tom alegre da música, a referência aos espelhos, tudo isso nos faz esquecer a reflexão que tinha sido cantada nas primeiras frases.Fico pensando que talvez isso também aconteça com algumas mulheres que são tomadas como modelo de independência, sucesso e liberdade na mídia. Será que a mulher realmente pode se dizer livre para escolher como quer ser vista? 







Recentemente uma revista americana foi bastante comentada após ter produzido uma capa na qual uma socialite aparece servindo champanhe nas próprias nádegas. Seu traje luxuoso e sua expressão radiante podem nos dar a ideia de que Kim Kardashian é uma mulher poderosa que decide como se mostrar ao público. Mas será mesmo? Será que ela, de beleza invejável, pode dispensar os retoques e manipulações de imagem? 

Gosto da letra de Chico porque ela parece nos dizer que questionar a dominação masculina que implica na objetificação da mulher é muito mais complexo do que imaginamos. Que não se trata apenas de posições políticas, racionalizações feministas, ou produção de discursos acadêmicos e científicos (que certamente são extremamente importantes). Mas trata-se também, e sobretudo, de condições subjetivas de suportar e responder a certas demandas amorosas contaminadas por esta lógica excludente. De ter que lidar com os impasses e os dilemas aos quais o desejo pode nos conduzir... 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tragédias cotidianas

Pensavam, cada um a seu modo, que os sentimentos tinham sucumbido aos problemas e ao cansaço. Que a admiração tinha cedido à preguiça de descobrir outras partes do outro. Que a tolerância acabara por causa de tantos olhares de reprovação, ou mesmo pela falta de olhares.
Não se falavam muito, a não ser trivialidades que deixavam as coisas tão entediantes que se arrependiam logo em seguida. Comentavam o tempo, a comida, ou alguma novidade da internet.
Enquanto isso, imaginavam coisas a dizer, histórias para contar, na tentativa de despertar novamente aquela alegria leve e fácil do primeiro jantar que tiveram juntos.
Mas naquela noite não conseguiram dizer quase nada, a não ser repetir as mesmas desculpas para justificar seus erros, e prometer novamente coisas que não conseguiriam cumprir. O tom de voz era aquele das discussões doídas, do sofrimento amadurecido, mas não menos intenso. Já não choravam, não havia susto ou surpresa o suficiente para provocar lágrimas.
Tudo indicava que o fim havia se instalado. Que ambos deveriam procurar outras formas de suportar seus medos e outros lugares para buscar suas alegrias. Que era necessário renovarem suas esperanças, seus sonhos.
No entanto, no meio daquela conversa dura e seca acabaram adormecendo. Cada um se aconchegou como pôde, puxou uma parte do cobertor, recostou a cabeça em um travesseiro. Tantas vezes aquela cama os tinha aproximado, mas naquele dia ela apenas os acolheu, cada um com suas dúvidas, com seus temores, com suas lutas.
No dia seguinte, ela levantou mais cedo, coisa que raramente acontecia, e sentiu fome. Preparou uma boa mesa de café–da-manhã e se serviu. Ele acordou bem depois e sorriu ao vê-la lavando a louça. Beijou seu pescoço e ligou a cafeteira, dizendo, como fazia há muitos anos: “Só acordo mesmo depois de tomar o meu café...”



sábado, 11 de outubro de 2014

Sobre a psicanálise e a diferença


Às vezes é difícil acreditar que a psicanálise surgiu com um esforço de Freud de apresentar ao mundo científico um pensamento diferente do vigente, um modo original de compreender o mundo e o homem.
As instituições de formação e as produções psicanalíticas foram colonizadas de tal maneira que atualmente ter afinidade ou simplesmente querer estudar autores que não são os "portadores da verdade" é visto como uma tolice, uma bobagem.
De repente, trabalhar a partir de autores-pilares da psicanálise é mal visto, é deselegante, é motivo de desprezo e descaso.
Só há uma psicanálise possível, o resto é resistência e dificuldade de entender "aquele com o qual não se discute".
A impossibilidade de discutir é uma tendência tão arraigada que parece consenso até mesmo entre professores, pensadores (?) que participam da formação de outros profissionais.
Recentemente presenciei duas cenas que na minha opinião deixariam Freud extremamente insatisfeito: numa delas um professor orientou um aluno a não tentar transitar entre duas teorias, a "ficar só em uma delas", pois elas não podiam ser comparadas.Tal recomendação veio acompanhada da alegação de que tal aluno "não conhecia realmente uma das teorias", já que ele não se considerava um filiado àquela corrente de pensamento. 
Na outra cena, num espaço de formação psicanalítica, uma pessoa demonstrava claramente seu profundo desinteresse pelo que estava sendo transmitido, simplesmente porque aquelas ideias não faziam parte da psicanálise que ela considerava "legítima". 
É perceptível como a recusa em saber pode perpassar tanto a posição de ensinar quanto a de aprender, num movimento de fechamento de uma teoria sobre si mesma, e de desqualificação completa daquilo que desta difere.
Não me identifico com essa "psicanálise de maçonaria", na qual apenas os iniciados compreendem o que está sendo dito e têm direito de fazer críticas.
Não reconheço nesse movimento de negação de outras teorias a postura freudiana, já que ela sempre foi a de abrir espaço para o pensar a partir de novos elementos, de dialogar com outras áreas, outros autores. 
E muito menos acredito que esse tipo de postura combina com uma forma de ver o mundo que sempre partiu e valorizou a diferença.

Se um pensamento só pode ser discutido por aqueles que o aceitam, ele deve ser chamado de religião, ao invés de ciência.
Se um pensamento é imposto como o único que detém a verdade, ele deve ser chamado de totalitarismo, ao invés de teoria.

E finalmente, é preciso lembrar que a psicanálise é, essencialmente, um modo de pensar que se propõe a aliviar o sofrimento humano a partir da escuta e do reconhecimento deste em suas singularidades e DIFERENÇAS.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Boa parte da literatura

Foi você que me apresentou boa parte da literatura que mais me agrada hoje. Li muita coisa através dos seus olhos. Dos grifos nos livros, seus comentários, suas análises dramáticas. Aprendi o seu sotaque para ler um livro.
De um, em especial, me lembro com detalhes. Era um livro excelente, sobre uma história terrível. Não sei se você se lembra... mas era triste, amargo, basicamente um caso de amor não correspondido. Há vários tipos de amor não correspondido, formas que vão muito além do amor romântico entre homem e mulher.
Naquele livro, o sentimento engasgado e escrito com tanta crueza me impressionou muito. Aquela história me marcou, porque eu acho que acabei me apaixonando pelo personagem errado. Pelo cara escroto que transformava um não numa infinidade de torturas e desgraça para quem estava à sua volta.
Mas a ideia não era essa, eu acho. Talvez a ideia fosse eu me identificar com as vítimas do cara escroto, me apiedar delas, e ficar pensando em como evitar lidar com pessoas daquele tipo. Essa era a sua ideia, acho.
A minha ideia era diferente. O que eu sentia era outra coisa. Frequentemente, no meio da leitura, era invadida por uma enorme vontade de abraçar aquele cara escroto, de dizer que eu entendia que a vida era pior, muito pior do que a gente merecia e esperava. Sentia um impulso de me misturar e me afastar daquela sujeira toda ao mesmo tempo. A minha ideia era errada?
O que eu escrevi depois, sobre o livro, você disse gostar. Fez aqueles elogios de sempre, deu aquele apoio de sempre. Aquele seu jeito de ler as palavras dos outros mais com os seus olhos do que com os deles. E depois você disse gostar também de muitas outras coisas que escrevi. Muitas outras coisas que eu pensava, lia e dizia, e você elogiava por me achar o máximo. Mas eram todas coisas contaminadas pelos seus olhos, pelo seu jeito de ler. Pelo seu sotaque.
O que eu só entendi agora, é que apesar de todas as lisonjas, mesmo depois de me ler tanto, você não entendeu o que estava escrito em mim desde o início. O meu texto, as minhas ideias eram sobre o cara errado. Você nunca abandonou o seu sotaque e leu tudo espelhado: inverteu frases e palavras.
O que eu queria dizer não era sobre as vítimas não. Era sobre ele, o cara que precisou daquele abraço que nunca veio.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os monstros que amamos







A figura do monstro sempre foi muito presente no imaginário coletivo. Desde os deuses mais cruéis da mitologia grega, até os vilões das histórias em quadrinhos, passando pelos personagens mais assustadores do cinema, sempre há um lugar reservado para o estranho, o terrível, o mal. É fácil lembrar de alguns personagens que se tornaram referência daquilo que consideramos odiável, horrível: o canibal Hannibal Lecter, de O silêncio dos inocentes; o assustador Jason Vorhees de Sexta-feira 13; o espírito que transforma a doce Regan MacNeil em um verdadeiro diabo em O exorcista; e o sádico Alex DeLarge em Laranja Mecânica. 

Durante a pesquisa de mestrado, encarreguei-me de analisar outro monstro, por assim dizer, tão interessante quanto estes, mas na época ainda pouco conhecido: Dexter Morgan, do seriado Dexter. O que mais me chamou atenção no programa policialesco foi o caráter sedutor com que o serial killer era retratado. Dexter é bonito, inteligente e perspicaz, o que não é exatamente uma novidade no rol da vilania, mas ele é capaz de operar algo que poucos monstros o são: despertar nossa identificação e nossa compaixão. Não por acaso, o seriado foi um enorme sucesso e chegou a oito temporadas. Mas o que faz com que pessoas "normais", que não saem por aí matando o vizinho irritante ou esquartejando o desagradável colega de trabalho gostem tanto de um sujeito como Dexter?

Para entender esse ponto é preciso pensar num mecanismo psíquico poderosíssimo: a identificação. É através dele que buscamos compreender quase tudo e todos ao nosso redor. Para descomplicar, dito em linguagem de feira, podemos afirmar que comparando-nos aos outros, percebendo traços parecidos com os nossos, ficamos psicologicamente mais próximos a eles. Aquilo que nos parece semelhante é mais facilmente assimilável, e portanto, mais aceito. Pois bem, os escritores de Dexter devem ter feito um curso intensivo de metapsicologia kleiniana  (teórica da psicanálise que mais trabalhou a questão da identificação), pois acertaram em cheio a dosagem do recurso na trama do seriado. Para começar, logo na abertura Dexter já nos mostra o personagem em situações cotidianas: escovando os dentes, tomando o café-da-manhã, se vestindo para trabalhar. Nada de cenas muito escalafobéticas ou comportamentos excêntricos: o que vemos é um homem comum, em sua rotina entediante, como a de todos nós. Obviamente as cenas carregam certa duplicidade, deixam entrever algo estranho ali, por trás daquele sujeito aparentemente normal. Mas isso depois que já fisgou o telespectador pela identificação. A gente já se sente na pele do vilão, e não na da vítima. Outro mérito que o seriado tem, e que foi definitivo para que eu quisesse trabalhar a partir dele na minha análise psicanalítica da perversão, é o fato de mostrar uma história de vida do monstro. Ou seja, mais do que ter contato com os crimes e atos terríveis do vilão, temos a oportunidade de entender, através de seu passado, como ele se tornou o que é. Ora, é o presente que qualquer psicanalista bizarro o suficiente para estudar esse assunto pediu a Freud! 

Não vou me alongar na análise de Dexter, pois o objetivo deste texto é outro, e além do mais, ele já foi suficientemente esmiuçado na dissertação, que acabou virando livro depois. Para quem se interessar, está disponível para compra na Amazon, sob o título de Repetição e angústia: origens da perversão.

Citei Dexter apenas para falar deste sentimento ambivalente que muitas vezes nutrimos por estas figuras emblemáticas que representam o mal. Muitas vezes elas nos amedrontam, mas também nos seduzem, haja visto a quantidade de produções literárias e cinematográficas sobre o tema. Há um ponto interessante nessa história que gostaria de ressaltar: tais monstros nos cativam tanto mais se mostram como velhos conhecidos. É como se assim pudéssemos projetar ali, naquelas figuras, algo de nosso próprio mal, de nossa vilania reprimida, daquilo de terrível que não temos estômago para reconhecer em nós mesmos. E não é raro que os vilões sejam  amigos, parentes, pessoas próximas aos mocinhos, às vezes até mesmo a mesma pessoa, como no livro de Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro). O que dizer ainda do romance de Mary Shelley, no qual o Dr. Frankenstein se horroriza com o resultado de sua tentativa de criar alguém como ele mesmo? Muitas vezes os monstros nada mais são do que as partes que expulsamos de nós. 

Recentemente comecei uma nova pesquisa, desta vez no doutorado, na qual pretendo analisar toda essa temática da maldade e da perversão num contexto mais amplo, pensando no cenário das relações sociais. Meu material de base será estudar grandes fenômenos de perversão compartilhada, como nos regimes totalitários do séc. XX, ou nas relações de exploração e violência que se apresentam atualmente, entre as classes sociais. Para me embrenhar de vez nessa empreitada, vali-me de uma pensadora importantíssima e indispensável quando o assunto é o mal: Hannah Arendt. Além de todo o talento intelectual que possuía, Arendt foi uma mulher corajosa o suficiente para expor suas ideias mais controversas nos momentos mais desfavoráveis a elas. Na década de 60, erradicada há anos nos EUA depois de fugir do regime nazista na Europa, Arendt se oferece para cobrir o julgamento de um dos prisioneiros mais odiados da Segunda Guerra Mundial: Adolf Eichmann. Funcionário do alto escalão do partido nazista, Eichmann foi o responsável pelo transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio na Alemanha e países vizinhos. Preso na Argentina, foi levado para Israel e acusado de crime contra a humanidade, pelo assassinato de milhões de pessoas, ao que se declarou inocente. A despeito do clima de exaltação e vingança, e até do fato de ser ela própria judia, Arendt se recusa a enxergar em Eichmann o demônio que todos vêem. Para ela, o acusado não passa de um medíocre burocrata que só cuidava de fazer seu trabalho da melhor forma possível, sem se importar que este trabalho fosse conduzir homens, mulheres e crianças à morte. 

Mas por que falamos de líderes nazistas, vilões de cinema e seriados sobre assassinos em série? Qual é a linha que liga a realidade monstruosa à ficção dos monstros? Insisto nos conceitos de identificação e de projeção, pois são tentativas de nos exorcizar do mal atribuindo-o ao outro, negando nossa própria crueldade, nossa própria maldade. Há também estes movimentos de recuperação do mal defletido através das artes, da ficção: talvez seja somente neste espaço lúdico da mentira verdadeira que possamos assumir - rapidamente, disfarçadamente - que também somos monstros, somos tóxicos, somos ruins em alguma medida. Sim, Hannah Arendt tinha razão: Eichmann não foi o grande vilão, a maldade estava em todos aqueles que participavam do horror do nazismo.  



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Não porque não.

- Já disse que não. E ele respondeu sem tirar os olhos do jornal que lia. Um costume seu, tanto o jornal, quanto o desprezo.
- E posso saber por que?
- Ora, não porque não.

Não rendeu assunto. Continuou com a leitura. Ela sentiu o ódio subir da boca do estômago até a garganta. E aquilo ficou parado, feito uma bola de pêlo, destas que os gatos cospem, mas ela engoliu.
O ódio as vezes a fazia tremer. Não sempre. Só quando era realmente cristalino, em estado bruto.
Odiozinhos destes que se sentem numa fila que um fulano fura, ou com uma colega de escola que gosta de te humilhar, isso ela digeria tranquilamente. Um olhar reprovador, um pensamento macabro, uma idéia para vingança posterior... e pronto! Já foi.
Mas ódio assim, silvestre, parecendo uma fruta recém colhida do pé, já dava mais trabalho.
Tremia. Nestes momentos lembrava de colocar as mãos nos bolsos, ou para trás, para não dar na vista esta fraqueza. Continuou parada no meio da sala, feito estátua, sem saber o que fazer com aquele sentimento pegajoso e amargo. O pai pensou que se tratava de mais uma afronta.

- Vá para o seu quarto agora. 
- Não quero.
- A-GO-RA!

Fosse uns vinte anos mais tarde, ela poderia desculpar a falta de jeito dele. Poderia entender que seu olhar irônico e seus comentários petulantes o incomodavam muito, apesar da pose de que nem se dava conta do que ela dizia. Poderia perceber que ele se sentia perdido, desnorteado diante da tarefa de lidar com uma menina que desconhecia totalmente, apesar de terem vivido sete anos sob o mesmo teto. Poderia até mesmo, quem sabe, perdoar suas faltas e suas omissões, seu silêncio e seus presentes de tamanho errado. Perdoaria não tanto por compaixão, mas por reconhecer-se nessa inabilidade em vários momentos durante sua vida. Por várias palavras que não soube dizer, para certas pessoas. Pela mágoa que viu nascer em quem ela amava muito, mas acabou ferindo por falta de tato, falta de jeito. A mesma falta de jeito daquele dia, do homem lendo o jornal.

No entanto, era ali, naquela hora. Nada disso tinha sido vivido, pensado, refletido. As acusações ainda não tinham se transformado em culpa. E ela ainda se permitia ser vingativa. 

Foi saindo da sala lentamente, para provocá-lo ainda mais. Depois do corredor, não entrou em seu quarto, mas virou a esquerda. Começou a mexer nas coisas dele em cima da cômoda: abriu as gavetas, pegou alguns papéis que pareciam importantes. Rasgou alguns deles, colocando os pedaços no mesmo lugar, bem arrumadinho. 

Deitou-se naquela noite com a certeza de que levaria uma surra assim que o pai encontrasse sua "surpresa". Mas quem a acordou foi sua mãe, na manhã do dia seguinte, chamando-a para se arrumar para a escola. Percebeu que o pai já tinha ido trabalhar. Eles nunca conversaram sobre isso.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fracasso monumental


Em seu ensaio sobre Victor Hugo e Os miseráveis (A tentação do impossível, Ed. Alfaguara), Vargas Llosa diz que o autor começou a escrever seu oceânico romance logo após interromper uma peça teatral (Les Jumeaux, ou Os gêmeos) que o ocupara nos últimos tempos, e pouco depois de amargar os dissabores de outra peça, Les Burgraves, que fora um total e completo fracasso de público e de crítica. Vejamos a nota de rodapé que Llosa dedica ao fato: 

"Esta obra (Les Burgraves), estreada em 7 de março de 1843 na Comédie Française, só teve 36 apresentações e foi a que menos dinheiro rendeu ao seu autor. O público ria de certos versos, a crítica foi sarcástica, e humoristas e caricaturistas se esbaldaram com ela. Victor Hugo nunca mais voltou a escrever teatro."

Ao longo do texto, Llosa afirma que o romance Os miseráveis "nasce quando Victor Hugo ainda não havia superado totalmente sua etapa de autor dramático, e é plausível, de fato, que a concepção e as técnicas do gênero tenham se transposto disfarçadamente para a ficção que escrevia, imprimindo-lhe desde o primeiro momento uma natureza teatral. " (Vargas Llosa, M. A tentação do impossível: Victor Hugo e Os miseráveis, p. 92). 

Algumas décadas depois, em 1897, as correspondências trocadas entre Freud e Fliess demonstram também a influência de um grande fracasso na criação de uma teoria importantíssima, que influenciaria o pensamento ocidental e a nossa concepção sobre a mente humana. Trata-se da famosa revelação do pai da psicanálise ao seu amigo e confidente de que "não acredita mais em sua neurótica", ou seja, de que não pensa que as causas que atribuía à neurose sejam verdadeiras. Tal confissão nada mais é do que um desabafo da frustração de Freud diante de suas dificuldades teóricas, técnicas e financeiras, como nos informa Jacqueline Lanouziere no seguinte trecho:

"Compreende-se então, que o que está no topo de sua argumentação é sua prática. Sua neurótica [a ideia que tinha sobre a neurose] não lhe permitia conduzir as análises ao verdadeiro término, e afugentava a clientela. Em 3 de janeiro de 1897, Freud conta a Fliess que não tinha notícias de um paciente que havia retornado a seu país para obter informações a respeito de sua sedutora, ainda viva. E no dia 16 de maio do mesmo ano, ele anuncia a partida prematura de outro paciente: 'Meu banqueiro, aquele dentre os meus pacientes cuja análise mais tinha avançado, escapou-me num momento decisivo, embora tenha chegado a me revelar as cenas finais. Sofri uma grande perda material, e estou convencido de que não sei ainda todos os passos de meu trabalho. Mas suportei isso com tranquilidade, dizendo a mim mesmo que deveria esperar ainda um longo tempo pelo desenlace completo de um tratamento. No entanto, isso deve ser possível, e eu aguardarei.' ” (Lanouziere, J. Histoire secrète de la seduction sous le regne de Freud, Presses Universitaires France. Tradução nossa.)

 Estas dúvidas a respeito da etiologia da neurose causaram em Freud uma verdadeira desorientação, fazendo com que questionasse a fundo as bases de seu pensamento. Sabemos que tais aflições culminaram no abandono da "Teoria da Sedução", e na concepção de realidade psíquica que foi tão cara à psicanálise. 

Mas não deixemos que o sucesso posterior inebrie nossos sentidos e nos faça dar pouca importância a este momento de desespero: as palavras de Freud deixam claro que ele estava tão perdido que já não conseguia avaliar com nitidez como deveria conduzir os tratamentos, qual era a melhor forma de fazer o seu trabalho. Além disso, ele nos brinda com a magnífica imagem de um banqueiro que vai-se embora, símbolo perfeito da erosão intelectual, narcísica e financeira que atinge um analista quando seus esforços se revelam ineficazes.

Por que, então, ler Freud com Victor Hugo (ou vice-versa)? Porque ambos nos deram (mesmo nos bastidores) exemplos de estrondosas quedas ou faltas de êxito que, por mais que abalassem seus espíritos criativos, não foram aceitas como um destino, mas "requentadas", aproveitadas futuramente. É importante atentar para esse detalhe: não é apenas uma lição à la auto-ajuda, de que é necessário persistir. Trata-se aqui da possibilidade de retirar dessa experiência negativa algum material que poderá compor outros arranjos, de modo diferente - ou até disfarçado - e que faça com que estes sejam, por sua vez, aceitos e apreciados. 

É como Victor Hugo enxertando teatro em seu romance. Como Freud teorizando num movimento espiral que ora considera a Teoria da Sedução, ora a renega. Disso tudo talvez possamos concluir que o fracasso é parte fundamental do sucesso. 

Ah, se tivéssemos essa habilidade... esse dom de transformar o erro em lucro...