Nunca tive inveja de quem tem bons modos. Nunca. Nem na pré-escola. E cabe um preâmbulo aqui, porque também não quero que fique esta imagem de que eu era daquelas crianças endemoniadas, sem educação, e diagnosticadas (erroneamente) com TDAH.
Na verdade eu era bem quieta. Ficava no meu cantinho a maior parte do tempo. Brincando, assistindo "Carrossel", ou viajando na maionese, que era o que eu mais fazia. Tinha minhas coleguinhas, fazia tranquilamente os meus deveres de casa, e etc e tal.
Só que não era assim exatamente por ter bons modos, sabe.
Era uma timidez tão egossintônica, tão gostosa de viver, que eu fluía com a vida.
Mas, ah, a minha mãe desde cedo entendeu do que se tratava.
"Mas que gracinha, ela é um amor de menina! Não dá trabalho nenhum! Nem parece criança..."
Mamãe não se enganava. O amor de menina podia passar temporadas na mais completa candura, até que uma idéia mirabolante surgisse em sua mente... e lá se ia uma casa arrumada, uma roupa nova, um irmãozinho sem escoriações.
Poderia obedecer ternamente aos adultos, tirar 10 nas provas, levar o lixo sozinha, mesmo morando no décimo andar (e olha que era frequente o elevador dar problema), e tudo mais. Até que... cismava que não queria mais tomar toddy naquele copo. E dava um problema danado, porque eu queria tomar numa xícara de porcelana que só era usada em ocasiões especiais. A minha mãe vetava terminantemente estes disparates, e, claro, começava a guerra.
De repente, a menina boazinha, o amor de criança, aquela fofa branquinha de óculos, que falava baixinho, se transformava numa criatura irritante, atrevida, e determinada.
Quanto tempo, e quanto castigo era necessário para demovê-la de suas idéias...
Eu poderia falar sobre masoquismo aqui. Mas prefiro pensar na rejeição dos bons modos.
"Que me tomem pela tímida, pela esquisita, pela quatro-olhos... mas a menina de bons modos, NÃO!!!"
É que eu tinha muito amor pelas vontades condenáveis, pelos atos de mini-vandalismo, como no dia em que eu e as minhas primas jogamos todo o chantilly do bolo de aniversário no teto.
Sabe, pra mim estava tudo certo viver tolerando a falta de grana, a chatice de algumas professoras, de alguns (muitos) colegas, a braveza da minha mãe, e a falta de brigadeiro no final de todas as refeições.
Mas abdicar do prazer destas contravenções, destes rompantes de menina detestável, insolente e repreensível... isso não dava!
E por isso mesmo eu também não levava às últimas consequências esta faceta "levada da breca". Também não queria que fosse um traço a me definir.
Eu gostava da liberdade: hoje eu posso simplismente sentar e caprichar no colorido que a professora pediu pra fazer... ou... jogar água em todas as roupas de cama da casa.
Ah, quanta possibilidade é retirada daquele que tem bons modos!
E eis que hoje, me pego invejando pessoas focadas.
Aquelas que fazem o que precisam fazer, que planejam as coisas e executam exatamente as mesmas, que optam por estratégias úteis e práticas, ao invés das delirantes e irresistíveis.
Que fazem listas de coisas que devem ser resolvidas ao longo do dia.
E realmente resolvem.
Pessoas que falam baixo, educadamente, quando estão com algum problema.
Que dizem "estou chateada com você" ao outro.
Acho que nunca na minha vida falei que estava chateada com alguém.
Eu costumo ficar chateada quando não encontro o controle remoto. Ou quando estou no meio do banho, e percebo que o shampoo acabou. Isso é chateação, pra mim.
Com as pessoas eu tenho sensações e sentimentos que ultrapassam em muito este limiar.
Geralmente nestes momentos eu lembro de algumas cenas da minha infância e penso:
escrevo uma lista, ou boto fogo na boneca?
É estranho, mas eu realmente tenho sentido admiração por estas pessoas metódicas, que levam a vida em tons pastéis.
Como seria tranquilo não ser interrompida pelas necessidades irremediáveis que minam minha concentração para estudar, trabalhar, ou seja lá o que eu estiver fazendo.
Como seria mais fácil uma vida sem o perigo de olhar para a televisão e ela exercer todo um magnetismo sobre você, justo no dia que aquele artigo precisa sair.
Como seria satisfatório não agir contra si mesmo e gastar aquele dinheiro suado em menos de 10 minutos, ou desperdiçar o esforço de meses de ginástica e dieta num pote de Nutella.
Quando penso que eu poderia tentar uma revolução neste sentido, imagino o trabalhão que daria.
Acho que fico bem mais do que chateada com isso.
1 comentários:
Pois é ... menina ... ki inveja ... Mas, pra vc ficar tranquila, saiba que é tudo "semblant" ... quem parece se dar bem com listas e métodos, também só parece ... na maioria das vezes o recurso exagerado à rotina e ao método vem responder à mesma inquietação, ao fato de as coisas nunca darem certo tbm. Mas, como se diz, alguma excentricidade é sempre bom! bjos!
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